“A renda não caiu, desapareceu com a pandemia”, desabafa o setor cultural de Joinville

Sem realizar eventos, muitos profissionais da cultura têm se dedicado a outros trabalhos para obter renda

Há seis meses, Flavio Andrade não sabe mais o que é estar nos bastidores de um espetáculo de dança ou de teatro. Iluminador há mais de 30 anos, ele faz parte de grandes eventos de Joinville, como o Festival de Dança, mas, desde que a pandemia de coronavírus chegou ao Brasil, tem sofrido com a falta de trabalho em sua área de atuação.

De modo geral, todos os profissionais da cultura têm sentido os reflexos da pandemia. Isso porque uma das primeiras medidas para combater a Covid-19 foi a restrição de eventos que podem causar aglomeração de pessoas, como apresentações teatrais ou de dança. Com isso, os artistas tiveram de desocupar os palcos e a falta de renda bateu à porta da maioria deles.

Flavio atua com iluminação há 30 anos e está desde maço sem trabalhar na área – Foto: Divulgação/ND

Flavio conta que, antes do isolamento social, trabalhava com todos os grupos de dança e de teatro de Joinville, além de ser o técnico responsável pela iluminação do Festival de Dança e trabalhar em universidades e escolas da cidade. “A gente estava com uma expectativa muito boa para esse ano, havia bastante coisa pra fazer, muito trabalho agendado até o final do ano”, conta.

Agora, com o fim dos eventos, ele tem se dedicado a trabalhos de elétrica, sua formação original, além de ter montado uma barraca de comidas juninas com um sócio. “A gente estava vendendo para sustentar as famílias que tiveram uma perda muito grande por trabalhar com eventos. Agora, estamos reformando a barraca para ver se retomamos e seguramos a onda até que tudo isso acabe, porque esse ano a gente já deu como perdido”, lamenta.

Segundo Flavio, a ajuda de amigos tem sido essencial no período. “Eles fizeram lives de espetáculos de teatro e doaram a arrecadação, deram cestas básicas, compraram as pamonhas que minha esposa acabou fazendo para gente sobreviver. A amizade tem sido muito importante para nós”, diz.

A busca por alternativas de renda

Quem também está sentindo os efeitos da pandemia é a atriz Clarice Steil Siewert. Ela atua no grupo Dionisos Teatro desde 2000 em trabalhos junto a empresas, escolas e com peças em cartaz.

“Mas desde março parou tudo, as empresas pararam de pedir orçamentos, não entramos mais em cartaz e a gente não consegue trabalhar porque não tem condições”, diz.

Assim como Flavio, os artistas do grupo têm se dedicado a outras atividades para ter alguma renda durante o período. “A nossa renda não caiu, ela desapareceu. O que temos feito é buscar coisas alternativas. Eu peguei mais aulas como professora em curso de graduação e a gente está tentando se rearticular, buscando outras alternativas de renda”, explica.

Além da dificuldade financeira, estar longe dos palcos também é um desafio. “É bem frustrante. Eu atuo com o grupo desde 2000, todo ano a gente realiza uma média de 150 a 200 apresentações por ano, uma frequência sempre alta, e desde março eu não piso num palco. É frustrante e cansativo ter de ir atrás de outras coisas”, conta.

Clarice está desde março sem pisar nos palcos – Foto: Bianca Vidália/Divulgação/ND

Para Flavio, a experiência também tem sido difícil. “A gente faz com muito amor a nossa arte e ficar longe de tudo isso vendo eventos serem cancelados simplesmente dá pânico. No começo, eu só chorava e quase caí em depressão, mas temos que levantar a cabeça porque tem uma gama de pessoas que dependem da gente. Nós geramos muito emprego, renda pra muita gente, então temos que continuar ajudando, sem esquecer dessas famílias”, diz.

Segundo Clarice, uma das alternativas para gerar renda com a arte foi colocar gravações de peças para serem vistas online, cobrando um ingresso simbólico pela apresentação. Outra opção tem sido fazer lives pela internet, como foi feito no 3º Animaneco (Festival de Teatro de Bonecos de Joinville).

Cassio Correia, presidente da Ajote (Associação Joinvilense de Teatro), conta que todo o projeto desse evento, assim como o 2º Seminário de Teatro de Animação de Joinville, foi adaptado para o online e conseguiu mais de 20 mil visualizações em toda a programação.

“É uma grande surpresa ver que o evento pode ocorrer no virtual, mas desejo que possamos voltar ao presencial em breve”, diz ele.

Lei Aldir Blanc pode ajudar profissionais joinvilenses

Para ajudar financeiramente os artistas e profissionais da cultura durante a pandemia, o Governo Federal publicou uma lei que trata das ações emergenciais destinadas ao setor nesse período, a chamada Lei Aldir Blanc.

Conforme a legislação, profissionais que comprovarem a atuação em atividades culturais e artísticas nos 24 meses anteriores à publicação da lei e que tiverem renda familiar mensal per capita de até meio salário mínimo ou renda familiar mensal total de até três salários mínimos podem receber o auxílio emergencial. O auxílio deve ser pago em três parcelas mensais de R$ 600.

Além disso, a lei também prevê um subsídio mensal para a manutenção de espaços culturais, como circos, teatros independentes, escolas de música, entre outras instituições. O auxílio tem valor mínimo de R$ 3 mil e máximo de R$ 10 mil. No total, são R$ 3 bilhões destinados pela União às ações emergenciais previstas na lei Aldir Blanc.

Segundo a assessoria de comunicação da Prefeitura de Joinville, o município ainda não recebeu o repasse do Governo Federal.