A redefinição do capitalismo (por Marcos Magalhães)

Uma semana depois de o presidente Jair Bolsonaro lembrar em rede nacional de televisão que a “sombra do comunismo” ameaçou o Brasil nos anos 60, um vigoroso manifesto contra as desigualdades chegou ao grande público nos Estados Unidos. Invadiu as redes sociais e foi tema de anúncio no The New York Times.

Com base em dados de organizações governamentais e não-governamentais, o manifesto ressalta que 305 milhões de pessoas perderam o emprego no segundo trimestre deste ano e que apenas 26 indivíduos têm riqueza equivalente à de metade da humanidade.

O texto aponta ainda a enorme diferença de renda entre famílias brancas e negras e indica que 94% dos lucros das empresas americanas nos últimos 15 anos foram parar nos bolsos de executivos e de acionistas – mas não dos trabalhadores.

Os autores são bem diferentes daqueles do outro bem conhecido manifesto lançado em 1847 – e que serviu de inspiração para a primeira revolução socialista, sete décadas mais tarde. Desta vez são representantes de 70 mil empresas unidos no movimento Imperative 21.

“Nós buscamos um futuro em que nossa sociedade, nossos líderes e as nossas políticas trabalhem em conjunto para criar uma prosperidade compartilhada”, diz o manifesto.

“Para construir um futuro no qual todos possam trabalhar com dignidade e cuidar das pessoas amadas, onde nosso planeta seja saudável e nossa economia cresça, devemos reimaginar e redesenhar nosso sistema econômico para que ele trabalhe para todos nós hoje e no longo prazo”.

Reset

Os líderes do movimento escolheram a data do lançamento do manifesto de forma a coincidir com os 50 anos de uma frase do economista Milton Friedman – professor do ministro da Economia, Paulo Guedes, em Chicago – que se tornou símbolo do capitalismo baseado nos interesses dos acionistas: “o negócio do negócio é o negócio”.

“Faz 50 anos que o economista Milton Friedman disse que companhias existem puramente para maximizar os lucros”, recordou Jay Coen, copresidente executivo do Imperativ 21, em artigo publicado na agência Thomson Reuters.

“Essa pandemia nos mostrou que é hora para uma redefinição. Estamos em um momento de profundo risco. E de oportunidade histórica. Aumentar a divisão e a desigualdade, reduzindo a crença no capitalismo e acelerando a emergência climática ameaça os negócios, a democracia, a sociedade e o nosso planeta”, concluiu.

A palavra “reset”, que poderia ser traduzida por “redefinição” está no título do manifesto – “É hora de redefinir o capitalismo” – e no coração da proposta do grupo. Os integrantes sabem que vai levar tempo para que uma visão mais humanizada do modelo econômico conquiste espaço na terra do capitalismo. Por isso decidiram lançar uma ofensiva de comunicação.

Melhores negócios

Ao mesmo tempo em que a campanha era lançada, chegava às livrarias o livro Better Business, ou Melhores Negócios, em tradução livre. Não foi escrito por representante de alguma organização não governamental, mas pelo professor Christopher Marquis, titular da cadeira Empresa Global Sustentável da Escola de Administração da Universidade de Cornell.

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Para o professor, o capitalismo como o conhecemos nos últimos 50 anos, focado nos interesses dos “shareholders”, ou acionistas, “deve tornar-se uma coisa do passado”. Em seu lugar, sugere, deve se dar mais atenção aos “stakeholders”, que incluem os empregados e os fornecedores de uma empresa, os consumidores, os governos e a comunidade onde a empresa se encontra.

“Muita gente sente que o atual sistema não está funcionando”, observa Marquis na introdução de seu livro. “Quarenta por cento da riqueza americana estão nas mãos de um por cento da população. O carbono na atmosfera ultrapassou a marca de 400 partes por milhão, considerada perigosa. O crescente movimento de pessoas que buscam usar os negócios para lidar com esses desafios é uma das mais importantes tendências sociais de nosso tempo”.

No momento em que países como o Brasil buscam atrair capitais externos para financiar a retomada do crescimento, após a pandemia, a busca por um capitalismo reinventado começa a chegar também à área de investimentos.

O manifesto conta com o apoio da Global Impact Investment Network (GIIN), organização sem fins lucrativos dedicada a estimular investimentos em empresas que gerem impacto social e ambiental, além de retorno financeiro.

“A corrente está mudando”, diz Amit Bouri, cofundador e CEO da GIIN em vídeo publicado nas redes sociais nesta semana. “Milhões de pessoas comuns estão exigindo que as empresas tratem com justiça seus trabalhadores, valorizem a diversidade, ajudem a comunidade a prosperar e protejam o nosso meio ambiente”.

Meio século

Os integrantes do movimento americano buscaram uma data precisa – os 50 anos de uma frase decisiva de Friedman – para propor uma redefinição do modelo econômico da maior potência do planeta. Uma redefinição, como deixam claro, a favor do capitalismo.

O Brasil de Bolsonaro, por sua vez, parece mais sintonizado com as ideias apresentadas há cinco décadas pelo economista que ajudou a moldar o pensamento do ministro Paulo Guedes. O descompasso de meio século pode impor obstáculos ao país nos próximos anos.

Já existe uma forte cobrança internacional no tema ambiental. Mesmo que o presidente insista em abrigar-se sob a proteção de um discurso patriótico para desqualificar os críticos externos, nada indica que as pressões externas serão menores. Ao contrário, até mesmo por pressão de consumidores estrangeiros, deverão crescer as exigências por um modelo que respeite o ambiente.

Os argumentos a favor dos direitos dos trabalhadores e da valorização da diversidade, quase ausentes do discurso oficial brasileiro neste momento, também tendem a se fortalecer, principalmente nos países ocidentais. E certamente estarão presentes, por exemplo, em futuras negociações de acordos comerciais.

O mais interessante do movimento Imperativ 21 é que ele tenha nascido no meio empresarial. Muitas de suas propostas ainda seriam vistas, no Brasil, como típicas de partidos de esquerda. Mas elas estão aí para redefinir o que entendemos por capitalismo.

 

 

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018. ⠀

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