Acervo de 9.000 itens de Paulo Mendes da Rocha sai do Brasil sob protestos

Vencedor do Pritzker encaminha desenhos, documentos e maquetes para a Casa da Arquitectura, em Portugal

Neste exato instante, caixas e caixas que guardam todo o acervo do arquiteto Paulo Mendes da Rocha estão se preparando para sobrevoar o Atlântico. São 8.800 itens, entre desenhos, fotografias, maquetes e documentos, que deixarão o Brasil para serem integrados ao acervo da Casa da Arquitectura, em Portugal.

A escolha da instituição portuguesa foi do próprio arquiteto de 91 anos, vencedor do Pritzker em 2006, o principal prêmio internacional de arquitetura. “A relação do Paulo com a Casa já é longa. Ele poderia ter escolhido qualquer instituição do mundo”, diz o arquiteto Nuno Sampaio, diretor-executivo do museu. Mendes da Rocha recebeu o título de sócio honorário da Casa da Arquitectura em 2018.

Dentro das caixas que vão a Portugal estão cerca de 6.300 desenhos analógicos, 1.300 desenhos físicos, 3.000 fotografias e slides, 300 publicações e um conjunto de maquetes feitas pelo próprio arquiteto. No total, os itens correspondem a mais de 320 projetos.

Paulo Mendes da Rocha

Segundo Sampaio, o acervo já foi catalogado e agora será guardado pela instituição. Depois, será disponibilizado gratuitamente para pesquisadores e arquitetos que desejem consultá-lo e servirá de matéria-prima para exposições sobre a obra de Mendes da Rocha.

A primeira está prevista para 2022 no museu, que fica na cidade de Matosinhos, a menos de 10 quilômetros do Porto. “Vai ser a maior exposição já feita sobre Paulo Mendes da Rocha”, conta Sampaio.

Neste ano, o museu também planeja lançar um sistema chamado Plataforma Digital do Arquivo da Casa, site que disponibilizará digitalmente o seu acervo. Os itens do arquiteto brasileiro devem integrar a plataforma em meados do ano que vem. “Também iremos gerenciar os empréstimos para que o acervo do Paulo possa participar de exposições mundo afora”, completa Sampaio.

Exposição 'Infinito Vão', sobre arquitetura brasileira e aberta em 2018 na Casa da Arquitectura, em Portugal
Exposição ‘Infinito Vão’, sobre arquitetura brasileira e aberta em 2018 na Casa da Arquitectura, em Portugal – Divulgação

Embora tenha sido uma decisão do próprio arquiteto, a saída do acervo do Brasil gerou debates entre arquitetos brasileiros e críticas de profissionais e instituições.

Em nota, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo disse lamentar a decisão de Mendes da Rocha e que “com grande pesar tomou ciência da concretização da doação do acervo”.

“Apesar de inúmeras tratativas e propostas de recebimento do seu acervo, a decisão soberana do arquiteto foi diversa da nossa expectativa. O acervo de Paulo Mendes da Rocha teria para nós um duplo significado. Por um lado, a importância do material, nos seus próprios termos, e seu vínculo com a história desta instituição pública de ensino. Por outro integraria o maior acervo público de arquitetura, urbanismo e design”, diz o texto.

Segundo pessoas envolvidas nas negociações, houve conversas para que o acervo fosse doado para duas instituções da USP —a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e o Instituto de Estudos Brasileiros. Ambos não vingaram.

Arquitetos também se pronunciaram publicamente. “A despeito de seus méritos, [a Casa da Arquitectura] não é uma instituição de ensino e pesquisa, nem muito menos pública, mas uma centro privado de guarda de acervos e exposições de arquitetura. E pior, fora do Brasil. É desanimador saber disso. E num momento de erosão cultural do país”, escreveu o arquiteto e professor José Lira nas redes sociais.

“É um momento triste para a cultura arquitetônica brasileira, em especial para todos aqueles que lutam pela preservação de acervos arquitetônicos”, escreveu o também arquiteto e professor Renato Anelli. “Não discuto a qualidade e importância da Casa da Arquitectura. Questiono a desnacionalização de um acervo dessa importância. O Brasil fica mais pobre.”

Vale lembrar que há itens do acervo de Mendes da Rocha em outros institutos e museus, caso do Centro Georges Pompidou, em Paris, e do MoMA, em Nova York —mas em número muito inferior ao que chegará à Casa da Arquitectura, que é uma instituição privada, formada por uma associação de financiamento misto. “Cerca de 60% do nosso orçamento é público, enquanto o resto vem de patrocinadores, mecenas e receitas da própria Casa”, explica Sampaio.

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