Vó Suzana, 81 anos, lança 1º álbum de sambas compostos por ela

(Foto: Fabinho Ishio)

(Foto: Fabinho Ishio)

Cantora foi descoberta no reduto do Samba da Vela, que completa 20 anos de existência

Nascida em Capivari, aos 2 anos mudou-se para São Paulo, para um barracão emprestado no Jabaquara. A cidade do interior paulista, com um quarto da população composta de imigrantes italianos, a maioria trabalhadores do campo e pouco afeitos a fazer negócios com outra raça, segundo ela, impulsionou sua família a procurar oportunidade na capital.

A sua mãe teve nove filhos, mas perdeu quatro ainda criança e um aos 17 anos de tuberculose. Aos 15 anos, ela se instalou na Vila Sônia, na zona oeste paulistana, onde está até hoje. Aos 16 anos perdeu a mãe e dois anos depois o pai, e chegou a trabalhar em casa de família para se sustentar.

Mas após muitas idas e vindas, venceu, completando três faculdades: obstetrícia, enfermagem e direito (com devido registro da OAB), esta última finalizada aos 74 anos. Concluiu ainda licenciatura pela USP.

Vó Suzana, 81 anos, agora prepara para lançar seu primeiro álbum chamado “Minha Existência”, sendo nove faixas compostas por ela das 12 do trabalho. Ela começou a frequentar um dos grandes redutos de samba de São Paulo há 18 anos. E foi lá no Samba da Vela onde pode mostrar seu talento de cantora e compositora.

“Cheguei e falei que queria compor e fiz o samba Pra Vela Não se Apagar”, recorda. Esta música acabou sendo gravada pelo Quinteto em Branco e Preto (grupo musical já extinto) e integrou também o primeiro CD do Samba da Vela.

Influência de casa

A cantora escreve e faz melodia da maioria de suas músicas. “Produzo por intuição”, diz. O que a influenciou foi o fato de cantar desde criança.

“Meu irmão tocava violão e dava aula. Não seguiu carreira artística por que se tornou crente e a abandonou. Mas a gente sempre se reunia e cantava para ele acompanhar”. 

Ela diz que sua mãe nunca teve interesse que se tornasse cantora. “Naquele tempo ser artista não era uma coisa bem vista pela sociedade. Minha mãe nunca estimulou. Pelo contrário. Dizia que tinha que estudar, se formar. Que também não era comum naquele tempo para uma mulher negra”. 

Foi em 1965 quando Suzana se formou na faculdade de obstetrícia, na época ligada à Escola de Medicina da USP.

“Toda vida estudei. Cantava na faculdade”. Vó Suzana já compunha antes de ir para o Samba da Vela, mas não mostrava para ninguém. “Quando cheguei na comunidade do samba sabia que podia fazer alguma coisa”. Com o tempo o pessoal começou a insisti-la para gravar.

Conta que antes de conhecer o Samba da Vela ela só participava de rodas em casa, com a família. O número de filhos era algum dos impeditivos de sair por aí pelas festas de samba.

A cantora teve três filhos no primeiro casamento, e quatro com Paulo, 72 anos, seu atual marido. A primeira faixa do álbum é dedicada a ele, na verdade uma poesia declamada por ela de nome A Dona do Garanhão, cujo um dos trechos diz: “Mas ainda dá no couro / Esse nego vale ouro / Está velho, mas é meu”. Vó Suzana tem hoje nove bisnetos e mais um está a caminho.

 Uma das músicas teve a participação de Ana Elisa, cantora ativa também da comunidade. As letras de Vó Suzana são singelas e malandreadas, com referências significativas da vida. O álbum ressalta a batucada.

Uma das composições que mais a emociona no trabalho é Saudade. “Uma verdade que veio dentro de mim”, define a canção que fala de seus tempos de criança. 

A outra é a faixa-título, composta com Caio Prado. “Comecei a contar o preconceito enorme que sofri na minha infância e juventude e venci, aí ele fez a letra. Depois ajeitamos. É uma música que emociona muito”, afirma. 

“Preconceito social é pior que racial. As pessoas dão muito valor a bens materiais. Desde o primário tinha que ser uma das primeiras da classe para vencer o preconceito”.

Gripe espanhola

Vó Suzana trabalhou com obstetrícia no Pronto Socorro do Ipiranga, no Hospital do Servidor Público Municipal, no Posto de Saúde do Campo Limpo. No final da carreira atendeu tuberculosos.

A mãe sempre a relatava da pandemia de gripe espanhola que vivenciou no país em 1918. “Cresci ouvindo isso e nunca achei que ia acontecer. Minha mãe passou a vida contando as mesmas coisas que estão acontecendo: ‘chegava uma carroça da prefeitura recolhendo corpos na porta da casa das pessoas’”.

Agora ela espera pacientemente passar a pandemia do novo coronavírus para lançar seu primeiro álbum, que já está pronto.

 “A importância de produzir Vô Suzana é o fato de uma senhora de 81 anos lançar um disco praticamente autoral”, conta Chapinha, um dos fundadores do Samba da Vela e responsável pela produção do projeto. “Fizemos ela cantar com uma divisão moderna, o que foi um desafio. Tivemos que fazer uma adaptação, mas ela atendeu bem a esse quesito”. 

O Samba da Vela é um reduto do gênero que neste mês de julho completa 20 anos de existência. As rodas acontecem às segundas-feiras (suspensas no momento por conta da pandemia) na Casa de Cultura de Santo Amaro, na Zona Sul da capital paulista, onde Vó Suzana sempre aparece e canta para um público embevecido. 

Com Agências

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