Vídeo que nega queimadas na Amazônia, compartilhado por Mourão e Salles, usa imagens do Greenpeace sem autorização


Parte das imagens foi gravada em 2015. Autores de vídeos usados para negar incêndios na Amazônia se dizem horrorizados com ‘perversidade’ do uso. Retratada no vídeo, terra indígena Munduruku teve 20 focos de queimadas dentro do seu território neste mês. Vídeo compartilhado pelo vice-presidente Hamilton Mourão foi retirado do ar. Greenpeace notificou Twitter por infração de direitos autorais
Reprodução/Twitter
Parte das imagens usadas em um vídeo que nega que a floresta Amazônica esteja queimando eram do acervo do Greenpeace Brasil, e foram gravadas em 2015. Segundo a ONG, as imagens foram usadas sem permissão. O vídeo foi compartilhado no dia 9 de setembro nas redes sociais do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.
“Muitas das imagens do vídeo são do Greenpeace Brasil e foram usadas sem autorização, fora de contexto, com o objetivo de promover fake news para desviar a atenção pública da grave situação por que passa a Amazônia”, disse a organização em nota.
O Greenpeace Brasil informou que, ao tomar conhecimento do vídeo, notificou o YouTube, o Twitter e o Facebook para que retirassem o vídeo do ar por infração de direitos autorais. No Twitter, o vídeo foi retirado “em resposta a uma denúncia do proprietário dos direitos autorais”. No Facebook, o vídeo ainda aparece, compartilhado, por exemplo, na página do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL).
A ONG também notificou a Associação de Criadores do Pará (AcriPará), que assina a produção do vídeo. A entidade reúne pecuaristas do estado. O presidente da Associação, Maurício Fraga, disse ao G1 que o vídeo foi uma resposta a outro vídeo, da Articulação de Povos Indígenas do Brasil (Apib). “Esse vídeo [da Apib] estimula o boicote ao consumo de produtos brasileiros no exterior. Foi isso que nos indignou. Não somos negacionistas. Temos a exata noção do problema do fogo onde moramos. Os dados do Inpe são públicos e confiáveis, sabemos o que acontece”.
Sobre as imagens do vídeo, Maurício diz que não sabe de onde são. “Não fui eu que fiz o vídeo. Duas pessoas associadas da AcriPará pediram para fazer e fizeram. Eu só autorizei que fizessem e divulgassem”. Ele disse ainda que o vídeo era “totalmente despretensioso”. “Era só para por nos grupos de WhatsApp e nas redes sociais de quem quisesse, nunca passou pela nossa cabeça que pudesse tomar essas proporções. Era só um desabafo”.
Além de usar informações fora de contexto e negar evidências científicas do aumento das queimadas na Amazônia, o vídeo também foi criticado por trazer de um mico-leão-dourado, animal só encontrado na Mata Atlântica. Segundo o Greenpeace, as imagens do macaco não eram da ONG.
No dia 5 de setembro deste ano, o Greenpeace havia publicado um vídeo alertando para o tema das queimadas, desmatamento e contaminação por garimpo na Amazônia. Dias depois, essas imagens foram capturadas sem autorização pelos associados da Acripará para produzir um vídeo dizendo o oposto, que “a Amazônia não está queimando novamente”.
Esta é uma das imagens feitas pelo fotógrafo Fábio Nascimento na terra indígena Munduruku, no Pará, em 2015. Ela foi usada em vídeo publicado pelo Greenpeace no dia 5 de setembro, e dias depois pela AcriPará.
Reprodução/Facebook
Ao ver as imagens compartilhadas pelo vice-presidente da República, o fotógrafo Fábio Nascimento reconheceu o vídeo que gravou em 2015 para o projeto “Salve o Tapajós”, do Greenpeace.
“Acho que essa é a grande perversidade. Não me sentiria incomodado se tivesse simplesmente acontecido um uso indevido não autorizado ou não tivessem pago. A frustração ou a raiva que dá é da mentira que acontece. Pegar as nossas imagens feitas com enorme dedicação para um propósito e usá-las para o propósito oposto, essa é o grande problema”, disse Fábio.
Entre as imagens captadas por Fabio estava a de indígenas do povo Munduruku. A região habitada por esta etnia foi justamente a visitada pelo ministro Salles no mês passado, início de agosto. Na ocasião, Salles foi pressionado por garimpeiros a legalizar a mineração na região amazônica. Após o encontro, o Ministério da Defesa suspendeu uma operação de combate a garimpos ilegais na terra indígena Munduruku.
Além do conflito pela mineração, a terra indígena Munduruku teve 20 focos de queimadas dentro do seu território neste mês, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). De acordo com o instituto, está entre as 30 terras indígenas da Amazônia com mais focos de incêndio.
A documentarista e ativista socioambiental Fernanda Ligabue também se deparou com seu trabalho sendo usado no vídeo da associação pecuarista. “Eu fiquei horrorizada. A gente se disponibiliza, vai a campo para contar essas histórias, levar isso para o mundo. E isso depende completamente de um acordo e compromisso com a verdade com aqueles povos. Eles cedem as imagens deles para a gente perante um acordo muito claro de que aquilo vai ser usado para um propósito positivo da luta deles”, disse Fernanda.
Nesta terça-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão sem citar nome ou provas, afirmou que “alguém” no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que faz “oposição” ao governo do presidente Jair Bolsonaro prioriza a divulgação de dados negativos sobre queimadas.
Segundo o instituto, as duas primeiras semanas de setembro de 2020 (até dia 14) registraram mais focos de queimadas do que todo mês de setembro de 2019 – 20.486 contra 19.925.
O Inpe informou que não vai comentar as declarações do vice-presidente.
Salles e Mourão negam incêndios confirmados em números e imagens de satélite na Amazônia
(*colaborou Carolina Dantas)
Initial plugin text
Leitores On Line