“Temos um tesouro escondido”

Governador Carlos Moisés em entrevista à rede SC Portais. O comandante Moisés demonstra satisfação. Reconhece dificuldades, comemora resultados e foca em 2020, ano que espera manter o bom nível de arrecadação para poder investir.


“Temos um tesouro escondido”

(Foto: Peterson Paul)

Quase ao final do primeiro ano de seu mandato como governador de Santa Catarina, o comandante Moisés demonstra satisfação. Reconhece dificuldades, comemora resultados e foca em 2020, ano que espera manter o bom nível de arrecadação para poder investir.

Nesses quase 12 meses até que ele mostrou ter um jogo de cintura típico dos políticos mais experientes, mesmo sendo esta a sua primeira vivência na área. Por blindagem ou não, o fato é que ele se saiu bem às constantes críticas a seu partido, o PSL, principalmente em âmbito nacional, e às seguidas reclamações vindas de sua bancada na Assembleia Legislativa.

Carlos Moisés da Silva fala sobre tudo isso e um pouco em entrevista exclusiva à rede SC Portais.

[PeloEstado] – Fechar o ano com os salários em dia é uma boa forma de encerrar o primeiro ano de um governante que não tem bagagem política?

Carlos Moisés – Sem dúvida. Se eu tivesse a bagagem política, teria muita dificuldade de fechar as ADRs (Agências de Desenvolvimento Regional), por exemplo, porque teria compromissos. A Assembleia Legislativa ajudou. Tivemos apoio total. Era proposta do governo reduzir cargos. Talvez isto tenha garantido a sobrevivência do estado. Pelo menos 15 estados estão com dificuldades em pagar o décimo-terceiro, seis atrasaram folha de pagamento e alguns não tinham pago o décimo-terceiro de 2018. É uma situação bem complexa. O que fizemos foi fechar o ano equilibrado, com a expectativa de zerar despesas e no ano que vem continuar fomentando o aumento de arrecadação, até zerar o déficit público. O déficit projetado em janeiro (2019) era de R$ 2,5 bilhões. Fizemos contas e decidimos o que cortar na reforma administrativa reduzindo o déficit para R$ 1,2 bilhão. Em 2020 quero poder dizer que não teve déficit, que o Estado arrecadou e gastou igual.

[PE] – E depois disso?

Moisés – Aí teremos que ter novas formas de aumentar a arrecadação. Uma delas é o combate à sonegação. Não há motivo para o empresário formal se chatear, porque uma das formas de combate à sonegação é desestimular a economia informal. Temos um dado da Fundação Getúlio Vargas de que só em cigarros contrabandeados no Brasil são mais de R$ 165 milhões por ano. Esse assunto é controverso porque as pessoas não querem admitir que existe a inconformidade fiscal.

E como melhorar isso? Como chegar ao ano que vem zerando o déficit? Estamos revendo ainda os incentivos fiscais. Quando uma empresa nos procura pedindo tratamento tributário diferenciado, propomos que amplie a planta ou aumentem o número de empregados. Damos o incentivo e a empresa vai comprovando que está investindo e a Secretaria da Fazenda acompanha. O governo não gera emprego, quem gera é o empresário. Mas o governo precisa saber lidar com o empresário, no sentido de motivá-lo a gerar empregos, crescer e a estar próximo do cidadão. Caso contrário, os movimentos do estado vão só sacrificar o cidadão comum.

[PE] – Quais as implicações desta forma de trabalhar?

Moisés – Continuamos fomentando nossa arrecadação, a geração de empregos e não tributamos diretamente o cidadão. Tem que haver tributação no consumo, mas o grande empresário também tem que pagar tributo. Isso faz com que nosso estado tenha a menor taxa de desemprego – de 5,8%, enquanto o Brasil está com 12%. O estado gerou um saldo de 73,4 mil empregos, de janeiro a setembro, comparado com 41 mil no ano passado. Até o final do ano, acreditamos que esse número será maior.

[PE] – Empregos formais?

Moisés – Sim. Temos a menor taxa de informalidade, de 22%, contra 41% do Brasil. E crescimento econômico – de 0,9% no Brasil e nós de 3,9%. Santa Catarina está sendo um caso à parte – menor desemprego, maior crescimento, menor taxa de informalidade.

[PE] – Mesmo tendo dificuldades, o senhor considera que foi um primeiro ano exitoso?

Moisés – Foram vários os avanços. Revisamos contratos históricos, o que trouxe economia para o Estado. Exemplo: Em um contrato pagávamos R$ 950 mil por mês e baixamos para R$ 250 mil. Passamos a comprar melhor. A boa notícia é que isso está só no começo.

[PE] – Qual a maior frustação?

Moisés – Queríamos fazer o levantamento dos imóveis do Estado de Santa Catarina, mas vimos que o poço é mais fundo do que o imaginado. Temos cerca de R$ 7 bilhões em imóveis. Todos eles, todos, sem exceção, têm algum problema. Ou não tem escritura ou tem escritura e não está averbado… Ou seja, encontramos um total descontrole no patrimônio. Suspeitamos que temos mais uns R$ 7 bilhões de patrimônios ocultos, que a gente vai ter que encontrar. Imóveis de empresas catarinenses federalizadas, extintas ou em fase de extinção, casos do Besc, Codesc, Cohab. Estamos nos organizando para, no ano que vem, com contratações temporárias de alguns profissionais, georreferenciar esses imóveis, medi-los e atribuir um valor de mercado a eles. Temos um tesouro escondido e precisamos saber onde ele está, desenterrá-lo e dar uma destinação correta. O descontrole é tão grande que num primeiro momento achamos que até julho resolveríamos essa questão. Acredito que ano que vem a gente avance nisso, priorizando os imóveis para uso em parcerias público-privadas com hospitais e o sistema prisional, por exemplo.

[PE] – Qual sua avaliação sobre a cobertura de sua gestão pela imprensa? Acha que é justa, adequada?

Moisés – 100%, não. Em alguns casos, a imprensa fez o papel dela, com informação isenta e ouvindo os dois lados. Em outras, veículos estavam ávidos para receber alguma notícia e divulgá-la, sem a apuração devida. Recebo a clipagem e estatísticas. Alguns veículos trabalham com uma realidade, 80% positivo, e outros destoam. Acho que há uma vocação natural para criticar. Isso foi percebido há pouco tempo, quando estive no almoço da LIDE. Conversando com os empresários, alguns me questionaram muito sobre o tipo de entrega que a gente estaria fazendo por meio da imprensa. Porque eles viram que havia notícias boas do governo e perguntaram por que não ficaram sabendo. Disseram que era injusto, inclusive para Santa Catarina. Não questionaram o governo, mas como ficam os jovens que vivem aqui, a autoestima do povo, vendo apenas coisas ruins, quando na verdade foram ocultados avanços importantes do governo do estado com uma equipe que o jovem acabou de colocar no poder? É uma injustiça! O governo tem um site chamado Prestação de Contas (www.sc.gov.br/prestacaodecontas) onde colocamos nossas ações. Isso tem que ser de domínio público. Quando o governo merece, tem que ser criticado mesmo. Mas quando tem uma coisa boa, entendemos que o jornalismo comprometido, isento, bem conduzido, tem que mostrar.

[PE] – O anúncio da saída do presidente Bolsonaro, e alguns de seus seguidores, do PSL, trouxe paz para o partido?

Moisés – Podemos falar em um partido com outro perfil. Quem dá o tom são as pessoas que militam. O executivo e os cargos majoritários podem sair a qualquer tempo. Pode haver mudanças porque a janela (saída do partido sem perda do mandado) só vai abrir em março de 2022. As pessoas ainda não se desfiliaram, mas de alma já estão fora do PSL, cada um tratando de suas pautas e seus interesses e isso distensiona. Por outro lado, abre espaço para que a gente reorganize o partido com novas pessoas que têm uma visão moderada e que são um pouco mais flexíveis em aceitar outras pessoas. Não existe nada puro, nem a água é pura – H2O, não é? Quando o PSL, rapidamente, se compôs em 2018 para a eleição, veio gente que tinha militado em tudo quanto é partido. Só se diziam de direita, conservadores de direita. Mas não sabíamos de onde vinham. Agora a gente tem um tempo para organizar as eleições municipais com outras executivas.

[PE] – O senhor está participando da organização das eleições municipais?

Moisés – Eu ajudo quando me resta algum tempo, à noite ou nos finais de semana. Quando vou às regiões, alinho algumas conversas. Temos uma lista de prefeitos que passarão para o PSL para concorrer à reeleição. Quando vou às cidades, a primeira coisa que faço é lançar uma pesquisa sobre a aprovação dos prefeitos e ela gira em torno de 70%, 80%. Eles têm pouca rejeição, ficha limpa e melhoram seus municípios. Isso está me agradando bastante.

[PE] – Pode dizer pelo menos quantos estão nesta lista?

Moisés – Não posso falar, até porque altera todo dia. Não podemos exagerar porque nem todos os prefeitos estão prontos para a reeleição. E também porque nem todos deixarão seus partidos. Mas existem alguns que têm essa vontade e são bons nomes. Temos prefeitos que concorreram à reeleição e foram reeleitos com excelente aprovação e que vão nos ajudar a coordenar o partido nas suas regiões. Não serão mais candidatos, mas estão dispostos a continuar o trabalho. Acho que o PSL acabou distensionando essa questão partidária. O partido tem que se organizar mais, ser transparente, avançar em várias coisas. Tem sido orientação da nacional priorizar a compliance do partido, o portal de transparência, porque recebe dinheiro público.

[PE] – Com relação à questão dos nomes, haverá mudança de líder de governo na Assembleia? E sobre o secretariado, haverá alguma mudança?

Moisés – Com relação à Assembleia, é outro poder, não podemos interferir diretamente. Mas a liderança troca todo ano. Estamos estudando. Inclusive, como gesto, podemos trazer alguém de outro partido. É cedo para anunciar porque temos que ver qual o movimento que a Assembleia vai fazer para a nova presidência. Já a liderança do governo troca ano que vem. Mas certamente será alguém com boa aceitação e bom trânsito entre os blocos. Com relação ao secretariado, não muda. A gente vai ajustando as coisas, vai cobrando. Recebemos agora o software que vai permitir monitorar os indicadores de avaliação do governo. Esta ferramenta indicará se os secretários estão indo bem ou mal. Já está funcionando. Até o final do ano deve estar sendo disponibilizada para acesso de todos. Ela linkou com outra ferramenta dos hospitais filantrópicos. Se o hospital tiver avaliação de 80%, se for nível 5, vai ganhar até R$ 2 milhões por mês.

[PE] – O senhor também terá avaliação?

Moisés – Estabeleci 271 indicadores. Eu não sou avaliado. Minha avaliação é nas urnas, pela sociedade. Não penso em eleição, em reeleição, eu penso muito em trabalhar. E eu sou muito do dia de hoje. Não sei o dia de amanhã. Tenho até um certo temor de dizer que vou fazer isso ou aquilo. Não sei onde estarei. Tenho a firme convicção de que temos que continuar fazendo o que estamos fazendo hoje no estado. Depois é consequência do momento em que se estará, dos resultados atingidos.

[PE] – Qual foi o maior susto do ano, governador?

Moisés – Nem um grande susto, graças a Deus.

[PE] – Nem os incêndios florestais?

Moisés – Não. Estou acostumado com isso… 30 anos de incêndios (risos). Agora estou apagando outros incêndios. Mas faz parte. A gente suspeita que não foi apenas a natureza, tem comunidades próximas, mas a natureza funciona assim.

[PE] – O senhor se surpreendeu com as pessoas que julgava que seriam mais equilibradas, como o Mocellin e o Alba, por exemplo, que estão indo para outro partido?

Moisés – Olha, não vi essa fala do Mocellin e do Alba, de que estão indo para o Aliança. Para mim, eles dizem que estamos juntos, que ficarão até o final. O Alba diz que será candidato à prefeitura de Blumenau e que ficará no partido. O Mocellin fica na Assembleia, não é candidato.

Com Agências

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