SuperVia alega crise para manter fechados seis bicicletários com 4 mil vagas gratuitas

O fechamento dos seis bicicletários da SuperVia existentes na Zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense, desde o começo da pandemia, está prejudicando quem já voltou ao trabalho e utiliza as bikes em parte do seu trajeto. O serviço, que é gratuito para os passageiros dos trens e cobrado R$ 1 de diária dos não usuários, está presente nas estações de Japeri, Santa Cruz, Realengo, Bangu, Engenheiro Pedreira e Saracuruna. No total, são disponibilizadas 4 mil vagas.

Ao interromper o serviço, em março, a concessionária alegou que era para atender as medidas de controle de aglomeração, adotadas pelo governo. Agora, a SuperVia alega crise financeira para manter o serviço suspenso.

Na ocasião da suspensão, algumas estações também foram fechadas. Porém, os usuários acreditam que o argumento perdeu força, uma vez que todas as estações voltaram a funcionar e os trabalhadores também estão retornando aos seus postos, com a flexibilização das atividades, que no Rio entrou em sua última fase.

Os usuários alegam ainda incoerência da medida da SuperVia, quando a bicicleta é apontada por especialistas como meio de transporte ideal durante a pandemia, por ser mais saudável e ajudar a evitar superlotação em outros meios de transportes como os ônibus. Uma pesquisa de 2018 feita pela ONG Transporte Ativo e pelo Laboratório de Mobilidade Sustentável da UFRJ mostra que 90% de quem usa bicicleta no Rio se desloca para o trabalho, sendo que um terço desse público faz integração com outros meios de transporte, como trens, metrô e barcas.

Ana Paula paga R$ 40, por mês, num bicicletário particular

Ana Paula paga R$ 40, por mês, num bicicletário particular Foto: Foto do leitorEsse é o caso de Ana Paula do Nascimento Silva, de 38 anos, que mora perto de Raiz da Serra e precisa pedalar 20 minutos diariamente até a estação de Saracuruna, onde pega o trem que a leva para o trabalho na Penha. A pé seria até 50 minutos de caminhada. A outra opção seria pegar um ônibus de linha intermunicipal (Piabetá-Penha), cuja passagem custa mais que o dobro do que ela gasta indo de trem.

Com o serviço da SuperVia fechado, o jeito é buscar vaga num bicicletário particular perto da estação, que cobra R$ 2 pela diária, numa despesa mensal de R$ 40. A esse valor é somado aos R$ 4,70 de ida e volta do trem, que dá mais de R$ 200 por mês. A tarifa do trem e o aluguel do bicicletário são bancados pelo patrão de Ana. Mas, quem não tem esse recurso, deixa a bicicleta amarrada nas grades ou nas árvores, correndo o risco de quando voltar do trabalho não encontrá-las mais no mesmo lugar.

— O fechamento prejudica muita gente. Deixo a minha bicicleta num bicicletário particular, que é pago, e isso causa um impacto para quem está voltando (ao trabalho) com salário reduzido e todo um processo de adaptação às novas regras do isolamento. A outra opção é ir caminhando (até a estação) porque o ônibus, que seria uma alternativa, além de demorar muito e caro e o patrão não bancaria. Já liguei para o SuperVia Fone e disseram que em cinco dia entrariam em contato comigo para dar uma posição, mas até hoje ninguém retornou (as ligações). Até o pessoal do bicicletário já voltou a trabalhar, só que em outros setores —revelou a auxiliar administrativo.

Janete Monteiro, de 26 anos, outra usuária do ramal Saracuruna, que trabalha no Méier, também está pagando diária em um bicicletário particular. Ela contou que mora há quatro minutos de bicicleta da estação. Caminhando levaria mais do dobro desse tempo.

— Quando liguei para fazer a reclamação (pelo SuperVia Fone), o atendente me disse que por causa do decreto do governador (com as medidas de combate à Covid-19, editadas em março) o bicicletário vai ficar fechado —afirmou.

Em Realengo Diogo Ribeiro, de 30 anos, se arrisca ao deixar sua bike amarrada numa grade próximo à entrada da estação. Ele disse que já perdeu uma bicicleta assim.

— Quando voltei não a encontrei. Tnha sido furtada. Mas, não tenho opção —disse o rapaz que trabalha em Madureira, como vendedor.

Bicicletas deixadas nas ruas em Santa Cruz

Bicicletas deixadas nas ruas em Santa Cruz Foto: BRENNO CARVALHO / Agência O GloboPara José Lobo, diretor da ONG Transporte Ativo, o fechamento dos bicicletários se justificava no começo da pandemia, quando as autoridades sanitárias e os governos se esforçavam para convencer a população a permanecer em casa, para evitar a propagação do virus. Mas, com a retomada das atividades econômicas, as bicicletas são vistas como meio ideal de transportes, por ser de uso individual.

— Fechar no início (da pandemia) você até compreende, porque estavam querendo bloquear as pessoas de saírem às ruas. Mas nesse momento de distanciamento social, que as pessoas não querem tomar duas ou três conduções, seria uma coisa para você promover (o uso da bicicleta).É o que acontece o mundo inteiro. Eles (a SuperVia) têm bicicletários gigantescos e a gente sabe que há demanda. Mas, as pessoas são obrigados a usar os pagos e os informais do entorno. É uma perda de oportunidade de fazer com esses bicicletários sejam mais eficientes do que já são e atendam as pessoas, além de fazer um bem para a cidade durante a pandemia —defendeu Lobo.

Bicicletário fechado em Bangu tem 450 vagas

Bicicletário fechado em Bangu tem 450 vagas Foto: BRENNO CARVALHO / Agência O GloboA SuperVia informou que, inicialmente, o funcionamento dos bicicletários foi suspenso diante das medidas para controle de aglomeração e proteção da saúde dos clientes e colaboradores. Porém, agora, alegou dificuldades enfrentadas pela crise financeira vivida pela concessionária, por conta da pandemia, para reabrí-los.

Diferentemente da SuperVia, o metrô, que possui bicicletários gratuitos em 14 estações, num total de 223 vagas, os manteve em funcionamento. Sefundo a empresa todas as vagas com cadeados, são distribuídas entre as estações General Osório, Siqueira Campos, Cantagalo, Catete, Glória, Estácio, Saens Peña, Uruguai, Triagem, Inhaúma, Vicente de Carvalho, Irajá, Colégio e Pavuna.

Os bicicletários ficam localizados na parte interna das estações (após as catracas), ou seja, apenas os usuários que vão embarcar têm acesso, o que dá mais segurança a quem utiliza o serviço. O bicicletário do metrô pode ser utilizado no horário de funcionamento do sistema: das 5h à meia-noite, de segunda a sábado, e das 7h às 23h, aos domingos e feriados.

Além disso, o embarque de bicicletas é permitido nos fins de semana e feriados, no último carro de cada trem, sem restrição de horário. Em dias úteis, o usuário pode embarcar com a bicicleta após as 21h, no último carro de cada composição. MetrôRio ainda que mantém parceria com o sistema Bike Rio (as bicicletas laranjinhas do Itaú), integrado com o cartão Giro, cujos benefícios podem ser consultados em giro.metrorio.com.br. A CCR Barcas informou que o transporte de bicicletas dentro das embarcações segue permitido durante a pandemia.

Confira a nota SuperVia, na íntegra:

“A SuperVia esclarece que o funcionamento dos bicicletários foi temporariamente suspenso, em meados de março, diante das medidas para controle de aglomeração e proteção à saúde dos clientes e colaboradores.

O funcionamento não foi retomado em função da crise financeira vivida pela concessionária por conta da pandemia do novo coronavírus. A SuperVia precisou renegociar contratos de seus funcionários como forma de garantir os empregos e manter o serviço de trens funcionando para atender às milhares de pessoas que contam com o modal ferroviário diariamente.

Atualmente, a SuperVia conta com bicicletários integrados ao sistema de trens em seis estações: Japeri (1.000 vagas), Engenheiro Pedreira (900 vagas), Realengo (450 vagas), Bangu (450 vagas), Santa Cruz (500 vagas) e Saracuruna (700 vagas).”