Sintomas da Covid-19 continuam após recuperação e intrigam pesquisadores

Foto: Bruno Cecim/Ag.Pará

O que você precisa saber:

– Milhares de pessoas que tiveram a Covid-19 relatam a permanência de sintomas meses após terem se recuperado da doença, incluindo fadiga e dor no peito

– Pesquisadores acreditam que o potencial do vírus de atingir diretamente alguns órgãos do corpo, além do pulmão, pode ser uma das causas desses problemas

– Sintomas permanentes têm sido identificados mesmo naqueles que tiveram casos leves ou moderados da Covid-19

– Uma pesquisa alemã identificou que a doença pode resultar em danos diretos no músculo cardíaco, com potencial de trazer problemas futuros para o coração

– Médicos e profissionais da saúde alertam que é necessário um acompanhamento a longo prazo nos pacientes que eliminaram o vírus do organismo para evitar complicações posteriores à recuperação 

Os efeitos a longo prazo da Covid-19 têm preocupado médicos e profissionais da saúde. Pesquisadores que acompanham pacientes recuperados da Covid-19 alertam que a infecção pelo novo coronavírus pode deixar sequelas no organismo, principalmente em órgãos como o coração e o pulmão. Alguns dos resultados desses estudos, já publicados em revistas científicas, indicam que centenas de pessoas consideradas curadas, incluindo algumas que tiveram quadros mais leves da Covid-19, apresentaram sintomas meses depois de terem eliminado o vírus do corpo. 

No início de julho, um dos primeiros estudos sobre o tema foi publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA). Para avaliar os impactos da doença meses após a infecção, pesquisadores da Policlínica Gemelli, de Roma, acompanharam 143 pacientes que haviam sido contaminados em abril e maio – logo após o país ter atingido o pico da curva de contágio. Todos os voluntários haviam sido diagnosticados com o novo coronavírus, cumprido a quarentena e posteriormente testado negativo para o SARS-Cov-2. Eles então responderam a uma série de questionamentos sobre seu estado de saúde antes e depois da doença, e foram submetidos a alguns exames de saúde. 

Segundo o estudo, 60 dias depois da contaminação apenas 12,6% dos participantes disseram estar completamente recuperados. Os outros 87,4% indicaram a presença de pelo menos algum sintoma persistente. Entre eles a fadiga (53,1%), falta de ar (43,4%), dor nas articulações (27.3%) e dor no peito (21,7%). A pesquisa apontou que, para 44,1% dos pacientes, houve uma piora na qualidade de vida. Os pesquisadores destacaram que o estudo tinha algumas limitações, como, por exemplo, a falta de uma avaliação detalhada sobre doenças pré-existentes que poderiam contribuir para as sequelas. Na ocasião, alertaram que eram necessários mais estudos sobre o tema.

O cansaço persistente após a recuperação da Covid-19 não chega a surpreender, já que essa condição foi identificada anteriormente em outras doenças virais. Em 2009, um estudo realizado com 233 pacientes recuperados da SARS em Hong Kong constatou que pouco mais de 40% tiveram fadiga crônica, um quadro persistente de exaustão extrema que não melhoram com repouso. Na atual pandemia, no entanto, os sintomas duradouros são muito mais amplos e têm atingido uma porcentagem maior de recuperados. 

Inicialmente, cientistas acreditavam que as consequências extrapulmonares da Covid-19, a curto e longo prazo, eram causadas pela reação exagerada do organismo para tentar combater o vírus – a tempestade de citocinas. No entanto, pesquisas mais recentes mostram que grande parte desses efeitos se dá porque o vírus, diferentemente de outros patógenos, se conecta a um receptor específico, o ECA2, que está presente em células de vários órgãos, como intestino, rins, coração, entre outros. Nessas áreas, o efeito do invasor para destruir as células é direto e localizado, e tem o potencial de trazer essas sequelas duradouras. Um estudo publicado na revista Lancet em julho mostrou que o novo coronavírus tem o potencial de formar coágulos em praticamente todos esses órgãos, o que pode bloquear o correto funcionamento deles. 

Nas últimas semanas, novas pistas sobre o assunto começaram a aparecer. Duas investigações alemãs, ambas publicadas no JAMA Cardiology, trouxeram mais dados sobre os efeitos a longo prazo da doença especificamente no coração. Na primeira delas, os pesquisadores realizaram exames de ressonância magnética cardíaca (RMC) em 100 participantes entre 49 e 53 anos que contraíram a doença e já estavam recuperados. Na seleção dos voluntários, metade dos escolhidos tinham um bom histórico de saúde, e a outra metade algum fator de risco. Do total, a maioria (67) teve uma forma branda da doença e sequer foi hospitalizada. 

Os exames cardíacos foram realizados em média 70 dias depois da confirmação da infecção pelo SARS-Cov-2, e apontaram que 78 voluntários apresentaram algum tipo de anomalia no coração, sendo que em 60 pacientes foi identificada inflamação no miocárdio. Isso reforça a suspeita de que o vírus pode atingir diretamente o músculo cardíaco e provocar inflamações que perduram por até semanas após a recuperação, alertaram os pesquisadores. 

Muitos desses problemas ocorreram de forma silenciosa, ou seja, os pacientes não manifestaram sintomas externos nesses primeiros meses. Logo, as deficiências no coração foram detectadas apenas por meio de exames específicos. Em casos assim, se não é realizado um tratamento e acompanhamento adequados, essas alterações podem enfraquecer o músculo do coração, causando insuficiência cardíaca a longo prazo, supõem os autores do estudo. Eles ressaltam que são necessárias mais investigações sobre o tema para confirmar a hipótese. 

No segundo estudo alemão, este da Universidade de Hamburgo, pesquisadores realizaram autópsias em 39 vítimas da Covid-19 em busca de uma relação entre a doença e infecção cardíaca, problema que estava sendo diagnosticado com frequência nos pacientes contaminados. Para a realização do estudo, foi coletado tecido cardíaco durante a autópsia, com intervalos médios de três dias pós-morte. A idade média dos indivíduos foi de 85 anos, e grande parte tinha comorbidades como hipertensão, doença arterial coronariana e diabetes. Em 15 das 39 autópsias (38,5%) não foi encontrado o novo coronavírus no músculo cardíaco. No entanto, em 24 deles (61%), foi detectada a presença do SARS-Cov-2 no coração, reforçando a hipótese de que o vírus pode se multiplicar diretamente neste órgão e trazer danos a curto e longo prazo. 

Em um editorial publicado na JAMA Cardiology, pesquisadores alertam que os dois artigos, ainda que com número pequeno de voluntários, demonstram a importância do acompanhamento dos pacientes durante e após a infecção por Covid-19 para termos informações mais precisas sobre os efeitos da doença meses, e até anos, depois da contaminação.

Comunidades online

Já existem comunidades online de pacientes com LongCovid (“Covid Longa”, em inglês), nas quais milhares de pessoas trocam indicações de como lidar com a situação e buscam informações sobre esses efeitos duradouros da doença. No Reino Unido, uma organização não-governamental (ONG) criou o site LongCovidSOS, para esclarecer sobre os sintomas persistentes que aparecem nos sistemas neurológico, muscular e circulatório. 

Fontes:

LongCovidSOS. Informações disponíveis em:
https://www.longcovidsos.org/

Journal of Internal Medicine (JAMA). Artigo disponíveis em:
https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/415378
https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2768351

JAMA Cardiology. Artigos disponíveis em:
https://jamanetwork.com/journals/jamacardiology/fullarticle/2768915
https://jamanetwork.com/journals/jamacardiology/fullarticle/2768916

The Lancet. Artigo disponível em:
https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lanhae/PIIS2352-3026(20)30218-0.pdf

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