Setor editorial dos EUA está prestes a viver revolução, com novos líderes

No mundo das editoras de livros, a escalada ao topo sempre foi árdua e demorada. Quem chegava ao alto não partia mais. A Knopf teve quatro editores em seus 105 anos de história. A Farrar, Straus and Giroux só foi comandada por duas pessoas depois de John Farrar, Roger Straus e Robert Giroux.

No último ano, porém, mortes, aposentadorias e reorganizações executivas abriram espaço para novos líderes, mais diversificados e em muitos casos de visão mais comercial que seus predecessores, além de pessoas que nunca antes trabalharam na indústria dos livros. Essas indicações têm o potencial de alterar o setor de modo fundamental, com isso mudando também os livros que ele lança ao mundo.

A novidade mais recente aconteceu em 14 de julho, quando a Pantheon anunciou a contratação de Lisa Lucas, diretora executiva da National Book Foundation, para o cargo de editora da Pantheon e da Schocken Books.

“Tudo está prestes a mudar e vai mudar”, disse Reagan Arthur, nomeada editora da Knopf em janeiro. “Acho que daqui a dez anos nada vai estar com a mesma cara de hoje.”

Com a morte de titãs do setor dos livros como Carolyn Reidy, executiva-chefe da Simon & Schuster; Sonny Mehta, o antecessor de Reagan Arthur na Knopf; Susan Kamil, editora da Random House, e Alice Mayhew, editora da Simon & Schuster por muitos anos, o mundo editorial americano perdeu alguns de seus líderes mais destacados.

Eles não só definiram a literatura contemporânea como conduziram uma indústria que não é conhecida por sua agilidade em meio a transformações sísmicas como a revolução digital, a ascensão da Amazon e do varejo online, a crise financeira de 2008, a ascensão e o subsequente declínio da Barnes & Noble, o colapso e posterior ressurgimento das livrarias independentes e o crescimento explosivo dos audiolivros.

Foi uma geração que publicou alguns dos livros e autores mais influentes do século 20. Sonny Mehta, cujo gosto e tino comercial eram legendários, publicou gigantes literários como Kazuo Ishiguro, John Updike e Salman Rushdie. Alice Mayhew, que morreu em fevereiro depois de quase 50 anos na direção da Simon & Schuster, moldou o trabalho de Bob Woodward, Walter Isaacson, Doris Kearns Goodwin e Stephen A. Ambrose.

Outros ícones da indústria estão deixando o setor —e deixando um vácuo. Recentemente, Nan Talese, editora de seu próprio selo na Doubleday, anunciou que vai se aposentar em dezembro, após uma carreira de trabalho pioneiro que abrangeu seis décadas e moldou a carreira de escritores como Margaret Atwood e Ian McEwan.

Ao mesmo tempo, alguns dos editores e empresas de livro que nos últimos anos estavam sendo vistos como astros em ascensão e prováveis herdeiros foram passados por cima para os cargos de comando ou até demitidos em meio às ondas de cortes corporativos.

Algumas das pessoas chamadas para tomar o lugar deles nesses cargos de chefia têm sensibilidades nitidamente diferentes das de seus predecessores.

Reagan Arthur, na Knopf, e Amy Einhorn, a nova edirora da Henry Holt, são conhecidas por possuírem forte senso comercial, uma facilidade em intuir o que vai vender bem e em saber o que as mulheres querem ler.

Embora os outros cargos na indústria de livros sejam ocupados majoritariamente por mulheres, e embora elas tendam a comprar mais livros que os homens, os cargos superiores muitas vezes têm sido ocupados pelo público masculino.

O novo papel confiado a Lisa Lucas chega na esteira de outra contratação importante nas fileiras executivas do mundo editorial. Recentemente, a Simon & Schuster convidou Dana Canedy, ex-editora do jornal The New York Times e administradora dos prêmios Pulitzer, para ser a nova editora de seu selo homônimo.

Canedy se tornará a primeira pessoa negra a comandar uma grande editora. Ela disse que seu objetivo é adquirir livros que sejam “completamente fora do padrão esperado”.

“O elemento de diversidade mais óbvio que eu vou injetar é o fato de ser negra e mulher, mas há também o fato de eu ter crescido numa cidade pequena do Kentucky. E sou de uma família de militares. Sem falar que sou mãe solteira”, ela disse. “Acho que serei mais aberta, possivelmente, que outras pessoas quando se trata de apostar em autores desconhecidos.”

Lucas e Canedy, ambas novatas no mundo editorial, agora estão prestes a se tornar duas das mulheres negras mais poderosas no mundo literário, com o poder de alterar a cultura e moldar a paisagem das divisões que comandam. As duas estão assumindo cargos que lhes dão o poder de decidir quem e o que é publicado e recrutar novos autores e talentos editoriais, isso num momento em que a indústria de livros se esforça para diversificar sua força de trabalho, seus títulos e os autores que ela promove.

Elas passarão a integrar um grupo pequeno, mas influente, de editores negros de grandes editoras, grupo esse que inclui Dawn Davis, diretora do selo 37 Ink da Simon & Schuster; Tracy Sherrod, diretora editorial do selo Amistad da HarperCollins; Erroll McDonald, editor executivo de longa data da Pantheon, e Chris Jackson, editor-chefe do selo One World, da Random House.

Profissionais de editoras muitas vezes trabalham por décadas como editores assistentes e vice-presidentes, escalando a hierarquia muito lentamente. O fato de tanto a Simon & Schuster quanto a Knopf terem nomeado líderes que nunca trabalharam na indústria sugere que as empresas estão dispostas a passar por cima das práticas de contratação tradicionais, dependentes de redes de contatos internos e de os profissionais terem mostrado serviço por décadas.

Jackson disse que a escassez de executivos negros na direção de editoras faz com que seja difícil as empresas contratar esses profissionais de suas próprias fileiras, impondo a necessidade de procurar talentos negros de outros setores.

“Boa parte da discussão que temos sobre coisas como diversidade e inclusão diz respeito às contratações no nível de entrada”, ele afirmou. “Estamos falando de um projeto de 20 ou 30 anos de duração para essas pessoas subirem para posições de chefia. O fato de essas vagas terem surgido neste momento abriu uma oportunidade para olhar fora de nossa indústria —porque isso é preciso e não foi cultivado nenhuma espécie de grupo diversificado de executivos de dentro da própria indústria que estejam prontos para assumir esses cargos.”

As editoras avançaram muito nos últimos anos quando se trata de elevar mulheres para cargos executivos, com líderes como Madeline McIntosh na Penguin Random House, Reagan Arthur na Knopf, Amy Einhorn na Henry Holt e Mitzi Angel na Farrar, Straus and Giroux. Mas a indústria ainda está muito atrasada em matéria de diversidade racial.

Segundo pesquisa divulgada este ano pela editora de livros infantil Lee & Low Books, a mão de obra das editoras é mais de 75% branca. Empresas que há muito tempo vêm fazendo promessas vagas de contratar mais profissionais não brancos, em alguns casos pressionadas pelos protestos contra o racismo sistêmico, agora enfrentam pressão para anunciar planos concretos.

No mês passado, uma campanha financiada por crowdsourcing para revelar disparidades raciais nos adiantamentos pagos a autores, usando a hashtag #PublishingPaidMe, varreu o Twitter.

Mais de 1.300 funcionários de grandes editoras convocaram um dia de ação para chamar a atenção para o problema da falta de diversidade no setor, assinando uma carta em que citam sua oposição ao “papel exercido pela indústria no racismo sistêmico, ao fato de o setor não contratar ou manter um número significativo de funcionários negros ou de publicar um número significativo de autores negros e à sua busca do lucro por meio de livros que incitam o racismo”.

Em resposta, grandes editoras anunciaram que vão priorizar a diversificação de seus quadros de profissionais. A Penguin Random House disse que vai compartilhar estatísticas sobre a composição racial da empresa, instaurar formação antirracista entre seus profissionais e se comprometeu a publicar mais livros de autores não brancos.

O Hachette Book Group disse que vai compartilhar internamente informações sobre a composição racial de sua força de trabalho e traçar metas de diversidade para seu quadro de funcionários e seus programas de publicação.

Michael Pietsch, executivo-chefe do Hachette Book Group, disse que a falta de diversidade no interior das editoras torna difícil recrutar profissionais não brancos para cargos de liderança.

“Todo o mundo vai ficar mais aberto a buscar fora da indústria pessoas com os talentos empresariais e as sensibilidades que precisamos e que sejam capazes de crescer”, ele disse. “Todo o mundo vai ter que ampliar sua visão.”

Lucas, que vai assumir a direção da Pantheon e da Schocken em 2021, disse em entrevista que procurou um emprego em editoras quando terminou a faculdade, mas não encontrou. Ela assumiu cargos no teatro e no cinema, antes de se tornar editora da revista de arte Guernica.

Em 2016 ela foi nomeada diretora executiva da National Book Foundation, onde elevou o perfil da organização, ajudou a promover o trabalho de escritores não brancos e comandou um esforço para disponibilizar 1,4 milhão de livros a crianças que vivem em conjuntos habitacionais subsidiados pelo Estado.

“Sempre brinco dizendo que sou reformadora habitacional”, disse Lucas. “Você entra numa casa antiga, clássica e bela que é ótima e você procura maneiras de levá-la para o futuro e assegurar que ela continue firme, forte e moderna. A ideia é amar a tradição, mas também o futuro.”

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