Sem provas, Mourão diz que opositor no Inpe prioriza divulgação de dados negativos

Declaração foi feita nesta terça-feira (15) pelo vice-presidente ao ser questionado sobre as queimadas na Amazônia. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais nega manipulação. Sem provas, Mourão diz que opositor no Inpe prioriza divulgação de dados negativos
O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta terça (15) que alguém no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais prioriza a divulgação de dados negativos sobre queimadas.
O vice-presidente não apresentou nenhuma prova disso e os responsáveis pela pesquisa no Inpe rebateram.
O vice-presidente fez o comentário ao ser questionado sobre as queimadas na Amazônia.
“Eu recebo o relatório toda semana. Até dia 31 de agosto, nós tínhamos cinco mil focos de calor a menos do que 31 de agosto do ano passado, entre janeiro a agosto. Agora, o Inpe não divulga isso. Por quê? Não é o Inpe que está divulgando, é o dr. Darcton lá, que é o diretor do Inpe, que falou isso? Não. É alguém lá de dentro que faz oposição ao governo. Eu estou deixando muito claro isso aqui. Aí, quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga”, disse.
Mourão estava certo quando falou que até o mês de agosto houve queda na quantidade de focos de incêndio na Amazônia, mas os números são outros.
Entre janeiro e agosto de 2020, foram registrados pouco mais de 44 mil pontos de queimadas no bioma Amazônia, 2,8 mil a menos que no mesmo período de 2019, e não cinco mil, como disse o vice-presidente.
“Esses dados, esses resultados do Inpesão atualizados diariamente, todo processamento é automático, não há nenhuma interferência humana no sentido de modificar qualquer dado, e assim vem sendo há décadas’, afirmou Alberto Setzer, coordenador do programa de queimadas do Inpe.
Os satélites do Inpe mostram que os focos de calor na Amazônia voltaram a aumentar em setembro. Até segunda-feira (14), o número de focos deste mês já passava de 20 mil. Em apenas duas semanas do mês, a Amazônia já teve mais queimadas do que setembro inteiro de 2019. De janeiro até dia 14 de setembro, o Inpe já registrou 64.500 focos de incêndio na região, alta de 11% comparado ao mesmo período de 2019.
Qualquer pessoa pode acessar os dados desta reportagem, basta ter internet. O Jornal Nacional não solicitou esses números ao Inpe, eles estão disponíveis no site do instituto, nesse caso, uma área especial dedicada a queimadas.
Basta entrar no site, filtrar por estado ou por região do país ou ainda por bioma e a pessoa vai ter acesso ao número de focos de incêndio mês a mês desde 1998.
“Nós temos no site do Inpe centenas de exemplos e de ilustrações mostrando como é feita essa detecção, o que o satélite detecta, qualquer interessado pode não só acessar as tabelas, os resultados, como exemplo do que monitoramos, esses dados são disponíveis para qualquer usuário”, explica Alberto Setzer.
O responsável pela área de monitoramento por satélites do Inpe não quis comentar a declaração do vice-presidente, mas enfatizou que os dados são públicos e o que instituto os coloca os números à disposição do governo e da sociedade.
“O Inpe faz a detecção e quem analisa os possíveis impactos é o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente, nós não analisamos se aquele mês foi bom ou ruim, em termos de número de queimadas, nós só contabilizamos os números e os órgãos que tomam as ações necessárias é que vão de fato atuar nessa questão”, diz Gilvan Sampaio, coordenador de ciências da Terra.
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