Segunda noite de protestos contra violência policial na Colômbia deixa 1 morto

Ministro pede desculpas em nome da polícia nacional, por violações ou desprezo das regras por membros da instituição

Ao menos uma pessoa morreu na segunda noite consecutiva de protestos contra a violência policial na Colômbia, nesta quinta-feira (10), elevando o número de mortos para 11, com ao menos 403 feridos.

A vítima foi uma mulher atropelada por um ônibus roubado durante as manifestações, na região de Suba, em Bogotá. Os protestos se concentram na região metropolitana da capital colombiana, mas atos acontecem também em outras cidades do país, como Medelín, Cucuta e Cali.

Entre os dez mortos na noite anterior de manifestações, ao menos sete eram jovens com idades entre 17 e 27 anos mortos a tiros, segundo a prefeita de Bogotá, Claudia López. Em Soacha, na região metropolitana da capital, o governo registrou outras três mortes.

Manifestantes se protegem atrás de barricadas durante confrontos com a polícia em protesto na cidade de Cucuta, na Colômbia
Manifestantes se protegem atrás de barricadas durante confrontos com a polícia em protesto na cidade de Cucuta, na Colômbia – Schneyder Mendoza – 10.set.20/AFP

As manifestações são uma reação a um vídeo que mostra o advogado Javier Ordóñez, 46, sendo imobilizado por policiais e atingido diversas vezes por uma arma de choque do tipo “taser”.

Segundo relatos de testemunhas à imprensa local, Ordóñez, pai de dois filhos que trabalhava como taxista, teria resistido a uma ordem de prisão. A polícia afirma que o advogado estava bebendo na rua com amigos, o que violaria as regras de distanciamento social impostas para combater o coronavírus.

Apesar de Bogotá ter iniciado uma flexibilização da quarentena, a área metropolitana, onde Ordóñez foi atacado, ainda está sob medidas de restrição de mobilidade.

No vídeo, que viralizou, é possível ouvir Ordoñez, já imobilizado, dizendo “por favor, parem” e “agente, eu lhe suplico”. Logo, começam gritos de “assassinos”, e pedras são atiradas contra os policiais.

O jornal colombiano El Tiempo afirma que um relatório sobre a necrópsia de Ordoñez aponta que, já sob custódia da polícia, ele recebeu múltiplos golpes na altura da cabeça e do ombro e que morreu em consequência de um ato de brutalidade policial.

Além dos dois agentes que aparecem no vídeo, outros cinco oficiais foram afastados de suas funções. Uma investigação iniciada pela polícia foi transferida para a Procuradoria.

A resposta policial às manifestações reacendeu o debate sobre a violência policial no país. Nesta sexta (11), o ministro da Defesa, Carlos Holmes, pediu desculpas em nome da polícia nacional, “por qualquer violação da lei ou desprezo das regras cometido por qualquer membro da instituição”.

Na quinta, o ministro havia dito que “promover a violência contra servidores públicos é um delito” e que “há um movimento detectado por meio das redes sociais com esse propósito”. “Esse movimento tem origem internacional e está dirigido contra todas as polícias de diferentes países do mundo”, disse Holmes.

O ex-presidente e ex-senador em prisão domiciliar, Álvaro Uribe, pediu toque de recolher e militares nas ruas. Parlamentares da bancada de seu partido, o governista Centro Democrático, seguiram o discurso da lei e da ordem utilizado por Uribe.

“Assassinaram Javier Ordoñez e dispararam indiscriminadamente em cidadãos”, escreveu no Twitter.

Segundo López, foram sete mortos e 76 feridos por tiros nos atos—68 na quarta e oito na quinta.

“[Policiais] desobedeceram instruções expressas e públicas da prefeitura. Então a quem obedecem? Justiça, ação e reforma são urgentes”, continuou.

Apesar do discurso duro, ela se solidarizou com os 194 policiais feridos nos confrontos em todo o país e visitou alguns deles. Na quinta-feira, ela também havia condenado a violência dos manifestantes.

“Condenamos o abuso da polícia, mas também condenamos a violência e o vandalismo por parte dos manifestantes. O abuso e a violência não se resolvem com mais violência”, disse.

Para a prefeita, apesar de abusos e confrontos terem continuado na segunda noite de protestos, houve uma redução na violência devido a uma parceria entre os governos municipal e federal para prevenir vandalismo e brutalidade policial.

O saldo das duas noites de atos contabiliza dezenas de carros, motos, ônibus e caminhões de lixo incendiados, além de 60 delegacias atacadas. Ao menos 194 policiais e 248 civis ficaram feridos. Noventa pessoas foram presas, a maior parte em Bogotá.