SC está preparada? Entenda as condições ideais para a volta às aulas presenciais

A menos de um mês da data prevista para a volta às aulas presenciais em Santa Catarina, a segurança de estudantes, funcionários e familiares gera debate. Quais são as condições e estratégias ideais que devem ser adotadas para o retorno bem sucedido?

A expectativa da Secretaria de Estado da Educação é que as unidades escolares abram as portas a partir de 13 de outubro, uma vez que a atual suspensão segue até 12 de outubro.

Secretaria de Estado da Educação prevê retorno das aulas presenciais para o dia 13 de outubro – Foto: Daniel Queiroz/Arquivo/ND

O retorno, contudo, depende de dados favoráveis da pandemia da Covid-19 em Santa Catarina. A decisão de reabrir as escolas e a confirmação da data cabe à Secretaria de Estado da Saúde.

Protocolos detalhados

A Secretaria de Estado da Educação apresentou, no dia 9 de setembro, o plano de retomada das atividades presenciais, cujo objetivo é preparar as instituições de ensino para o retorno seguro às escolas. Isso inclui as redes estadual, municipais e privada.

Até esta sexta-feira (25), o órgão vai consolidar os protocolos sanitários, pedagógicos e o cronograma referente à reabertura das escolas. Entre os pontos que serão detalhados estão a organização e quantidade de horas de permanência dos alunos na sala de aula, e a escala de retorno dos estudantes da rede estadual.

Nas próximas semanas, serão divulgados os protocolos relacionados aos transportes, à alimentação e aos recursos humanos.

A Secretaria ressalta que os estudantes do terceiro ano do Ensino Médio com dificuldade de aprendizagem serão os primeiros a regressar às atividades presenciais. As aulas serão em formato de reforço escolar.

Os conselhos de classe, responsáveis pela seleção dos alunos, foram concluídos na última sexta-feira (18). Com esses dados, a Secretaria espera contabilizar o total de estudantes que voltarão às escolas nas redes públicas (estadual e municipais) e privadas até a próxima sexta.

A Secretaria de Educação informou também que já foram adquiridos equipamentos para adequar as escolas estaduais, como lixeiras e dispositivos de suporte para álcool em gel.

Estrutura adequada

Para o professor de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Fabrício Augusto Menegon, a volta às aulas presenciais é um tema sensível e está acima de condições epidemiológicas favoráveis.

Ainda que os dados da epidemia em Santa Catarina mostrem a redução da taxa de contágio e de novos casos, essa tendência só será confirmada em um prazo de 14 a 21 dias.

O professor se posiciona contra o retorno das atividades presenciais ainda em 2020. Segundo ele, o governo deveria aguardar um cenário mais favorável e aproveitar o tempo para unir esforços e reorganizar as escolas, a fim de que elas voltem com a estrutura adequada para atender os estudantes.

Nesse sentido, Menegon chama a atenção para as reais condições sanitárias das escolas no Estado. “Serão elas suficientes para garantir a permanência das pessoas no ambiente escolar com segurança?”, questiona.

Ele explica que não se trata somente do espaço físico da escola, mas também das pessoas que irão organizar e auxiliar na aplicação do plano de contingência proposto.

“Dever de casa”

De acordo com a médica epidemiologista brasileira Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, nos Estados Unidos, os governantes precisam fazer o “dever de casa” para que as escolas voltem com segurança.

Especialistas alertam para as condições ideais de volta às aulas em meio à pandemia de Covid-19 – Foto: Leonardo Sousa/Divulgação/PMF

Nesse sentido, a condição mais importante para a reabertura é a baixa taxa de transmissão da Covid-19. O ideal é que a taxa seja de cinco novos casos para cada 100 mil pessoas e que a porcentagem de testes RT-PCR positivos seja de 3%.

Quanto mais altas essas taxas, maior o risco de aumentar ainda mais a transmissão da doença com a reabertura das escolas.

Além das condições epidemiológicas que apontem a baixa transmissão da doença, a médica cita como importante:

  • O estímulo ao uso correto e consistente das máscaras
  • Manter o máximo possível de distanciamento social
  • Higiene das mãos
  • Etiqueta respiratória
  • Limpeza e desinfecção de superfícies
  • Capacidade de rastreamento de contato

Como estratégias adicionais, o ideal seria:

  • Prezar pela ventilação, com atividades ao ar livre
  • Utilizar barreiras físicas e atentar para o tamanho das turmas, com rodízios e horários alternativos para alunos e funcionários
  • Fechar áreas comuns como refeitórios
  • Disponibilizar sabonetes, álcool em gel e toalhas de papel para as mãos
  • Refeições pré-embaladas

“Essas estratégias são essenciais, mas não terão grande impacto se a transmissão na região de reabertura estiver alta. Nos Estados Unidos, mesmo com todas as condições, escolas que reabriram, fecharam rapidamente porque surtos começaram a ocorrer, com alunos e funcionários testando positivo para Covid-19.”, disse Denise.

Conforme a médica, a permanência das escolas fechadas traz consequências, mas os efeitos da retomada das aulas presenciais sem as condições necessárias podem ser ainda mais devastadores, com mortes e sequelas de funcionários, familiares e estudantes.

Crianças e o novo coronavírus

Crianças possuem alta carga viral do novo coronavírus e podem ser mais contagiosas do que adultos, inclusive aqueles internados em UTI (unidades de terapia intensiva), aponta estudo da Escola Médica Universidade de Harvard (EUA).

De acordo com a pesquisa, o potencial de disseminação do vírus entre os mais jovens tem sido subestimado desde o início da pandemia. O estudo, publicado na revista Journal of Pediatrics, apontou o quão infecciosas podem ser as crianças, mesmo aquelas sem sintomas.

Pesquisa de Harvard aponta que crianças possuem alta carga viral do novo coronavírus – Foto: Pixabay/Reprodução/ND

“Ao contrário do que acreditávamos, com base nos dados epidemiológicos, as crianças não são poupadas desta pandemia”, disse Alessio Fasano, diretor do Centro de Pesquisa de Biologia e Imunologia do Hospital Geral de Massachusetts e um dos autores do novo estudo.

Os pesquisadores sinalizam o risco de as crianças retornarem às salas. Eles questionam se a reabertura de escolas, mesmo com protocolos sanitários rigorosos, vale o risco para alunos, famílias e educadores. “Quanto mais entendemos, mais isso aponta que ninguém é poupado nesta pandemia”, pontua Fasano.

Segundo o professor de saúde pública da UFSC Fabrício Augusto Menegon, o problema não está na criança infectada, mas sim na formação do tecido social brasileiro. Isso porque milhares de pequenas moradias são compartilhadas entre crianças e outros familiares, inclusive pertencentes aos grupos de risco.

“Retomar as aulas presenciais é expor a criança a um ambiente coletivo onde existe maior chance de ser infectada. Essa criança volta para casa, não manifesta sintomas, não se protege, e acaba transmitindo o vírus para as pessoas de seu convívio, como pais e avós”, diz o professor.

Reaberturas bem sucedidas

O jornal norte-americano The Wall Street Journal noticiou no dia 17 de agosto que diversas escolas pelos Estados Unidos voltaram a fechar poucos dias depois da reabertura, por causa de novos surtos do coronavírus.

Escolas nos estados de Indiana, Louisiana, Oklahoma, Tennessee e Georgia fecharam as portas após estudantes e funcionários testarem positivo para Covid-19. O portal Daily Beast informou que ao menos quatro professores morreram da doença nos Estados Unidos após a retomada das aulas presenciais.

Novos surtos da doença também levaram ao fechamento de 22 escolas na França, no início de setembro, dias após a reabertura.

Por outro lado, também houve casos bem sucedidos de retomada das aulas presenciais. O professor Fabrício Menegon cita os exemplos da Alemanha, Coréia do Sul e Nova Zelândia.

“A Coréia do Sul conseguiu a testagem em massa da população. Com isso, controlou pequenos surtos, isolou casos positivos e neutralizou a disseminação da doença. A Alemanha e a Nova Zelândia monitoraram de forma eficiente o surto, impondo estratégias corretas para que a população fizesse a sua parte”, explicou.

A Dinamarca reabriu as escolas de educação infantil garantindo a segurança das crianças e sem apresentar piora nas taxas de contágio.

Quando as escolas dinamarquesas reabriram, havia apenas 185 novos casos por dia no país, embora apenas os pacientes com sintomas médios a graves estivessem sendo testados.

Confira algumas medidas adotadas na Dinamarca:

  • Contenção do surto, adotando o lockdown em todo o país durante um mês;
  • Os alunos mais novos, do 1ª ao 5ª ano, foram autorizados a voltar primeiro;
  • As aulas eram limitadas a grupos de 10-12 alunos e um professor ao longo do dia. Os pais não eram permitidos nas escolas, exceto em circunstâncias especiais;
  • Os tempos de entrada foram escalonados, com o uso de portas diferentes, quando possível. A mistura de grupos de alunos – em playgrounds, por exemplo – não era permitida;
  • Sempre que possível, as aulas eram ministradas ao ar livre. Os parques públicos foram reservados entre as 8h e as 15h30 para as aulas. Hotéis, bibliotecas, museus e centros de conferências foram colocados à disposição das escolas;
  • Os assentos/mesas foram separados por pelo menos 2 metros e, após um período, foi reduzido para 1 metro;
  • Máscaras nunca foram obrigatórias para crianças ou professores. No entanto, o uso de coberturas faciais foi recomendado para alunos que se sentissem mal e para os que usassem transporte público;
  • Os alunos inicialmente tinham que lavar as mãos a cada 1,5 horas, inclusive ao chegar à escola, após cada intervalo, antes de ir para casa, antes e depois de comer e depois de usar o banheiro. Depois de um tempo, essa medida foi flexibilizada.