Redutos de fim de noite em SP, bares Filial e Genésio lutam para reabrir

Quando Garibaldi Otávio colocou os pés pela última vez no piso quadriculado do Filial, lá se iam quase três anos que ninguém o via por ali. Jornalista e poeta, ele havia se mudado para o Recife em 2007 e estava na cidade para lançar seu único livro. Depois da noite de autógrafos, decidiu passar pelo tradicional ponto da boemia paulistana na Vila Madalena.

Entrou, sentou-se ao lado da parede revestida de madeira e não precisou fazer mais nada.

“Hoje vai o uísque para a imprensa, Gari?” Parado à sua frente, Aílton, um dos garçons mais conhecidos da noite em São Paulo, sabia exatamente o que o jornalista iria pedir —como se o tivesse visto no dia anterior.

Onze anos depois, Gari, morto em 2013, é uma lembrança entre os amigos, Aílton voltou para Ilhabela —de onde havia saído diretamente para trabalhar no bar—, e o Filial… Bem, o Filial corre o risco de não mais abrir as portas.

Não só ele. Do outro lado da rua Fidalga, bem em frente, o Genésio está na mesma situação, ambos duramente afetados pela crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

Os cinco sócios não têm mais como mantê-los e negociam com possíveis investidores para que possam reabrir. Fechados desde o início da pandemia do novo coronavírus, os dois bares eram os pontos que fechavam mais tarde no bairro. À 1h, as mesas da calçada eram recolhidas, as portas encostadas e todos ficavam do lado de dentro até alta madrugada.

“Em 15 dias deve ter uma decisão, mas o mais provável é não ficar com a gente e passar para um grupo maior que tenha como manter”, diz Helton Altman, um dos quatro irmãos que, com mais um sócio e amigo, comandam o Filial e o Genésio há, respectivamente, 20 anos e 18 anos.

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Segundo ele, os dois bares ainda têm 40 funcionários, mas seus contratos de trabalho foram suspensos. Outubro deve ser o último mês dessa suspensão.

“Tem gente ajudando parente em lanchonete na garagem de casa, tentando se virar. Disse para eles que, mesmo se arrumarem emprego nesse período e a gente conseguir reabrir, chamo de volta”, afirma Helton. “Mas até agora estão todos assim, tentando se virar. Eles me mandam mensagens com rezas, orações…”

Em abril, uma festa com 12 horas seguidas de música ao vivo estava marcada para comemorar os 20 anos do Filial. O coronavírus, no entanto, não permitiu. Até esta segunda-feira (28), o país tem 142.161 mortos e 4.748.327 pessoas infectadas pelo novo coronavírus desde o início da pandemia.

A realidade do Filial e do Genésio está longe de ser exceção. Levantamento da ANR (Associação Nacional dos Restaurantes), em parceria com a consultoria Galunion, do setor de alimentos, apontou em agosto que 22% dos donos de estabelecimentos afirmam que não conseguirão manter seus negócios após a pandemia.

Em dados absolutos são 200 mil empresas do setor em todo o país que sinalizaram dificuldades para sobreviver.

Os donos do Filial e do Genésio ainda tentaram trabalhar apenas com as entregas de comida, mas isso não foi suficiente. Esse serviço representava cerca de 10% do faturamento normal e acabou sendo cancelado.

“Nossa gastronomia era uma chamamento para as pessoas se encontrarem, entrarem e sentarem”, diz Helton, explicando por que as entregas não sustentaram as casas.

Para piorar a situação, o último mês com faturamento normal para os dois bares foi janeiro. Em fevereiro, com o Carnaval, as ruas da Vila Madalena foram fechadas para evitar as aglomerações que costumavam causar problemas no bairro. Com isso, os bares sofreram queda no movimento mesmo antes do início da pandemia.

Ou seja, dos nove meses de 2020, em apenas um Helton e os sócios trabalharam com movimento normal em seus dois bares.

Em 2019, eles já haviam sido obrigados a fechar a outra casa, o Genial, no mesmo bairro, devido à crise econômica. “Desde 2016, com o impeachment da Dilma, o movimento já não era o mesmo”, afirma. Além desse, eles também eram donos do Mundial, que já havia fechado antes.

Segundo ele, a esperança inicialmente era voltar em junho ou julho, mas agora não vê como a reabertura possa acontecer neste ano sem um novo parceiro ou sem vender os dois bares.

“Eu sou boêmio há 40 anos e não gostaria de sair nesta situação. Como sentar num bar assim?”, afirma. “Infelizmente, essa pandemia não vai acabar rápido, um presente do nosso presidente [Jair Bolsonaro].”

Helton, os irmãos e o amigo ainda tentaram acesso o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, do governo federal, mas não conseguiram receber a ajuda que permitiria arrumar as contas durante a pandemia. “Nem o site do banco funcionava. Infelizmente, o governo não fez nada para esse tipo de comércio”, diz.

Hoje, os dois bares são portas fechadas na Vila Madalena à espera de uma solução que deve vir com novos donos ou, no mínimo, um novo sócio.

Enquanto isso, as histórias dos boêmios e de garçons que conheciam os clientes pelo nome e suas preferências etílicas e gastronômicas são, cada vez mais, apenas histórias.

Naquela noite de 2009, depois de algumas “doses para a imprensa”, Gari atravessou a rua, entrou no Genésio e ouviu: “Uísque, Gari?”. À sua frente, Calixto, cabeça branca, gravata borboleta e décadas de mesas servidas, outro dos rostos mais conhecidos da noite em São Paulo.

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