Queimada que atingiu reserva destruiu território sagrado aos indígenas: ‘Vai além da questão ambiental’


Segundo os bombeiros, fogo foi controlado quase 12 horas após o início. Chamas atingiram plantações, pastagens e causou prejuízo aos moradores; ninguém se feriu. Queimada atingiu 10 mil metros quadrados da reserva de Araribá, em Avaí
Vanessa Aguiar/TV TEM
A queimada que atingiu uma mata nativa na reserva indígena Araribá, em Avaí (SP), destruiu áreas de preservação ambiental, plantações e pastagens das quatro aldeias do território, causando prejuízo às famílias. Segundo os peritos, cerca de 10 mil metros quadrados foram destruídos.
Além da perda ambiental e material, o escritor indígena Tiago Nhandewa, professor na aldeia Nimuendaju, explica que os moradores também sofreram por ver o território que eles consideram sagrado sendo consumido pelo fogo.
Queimada atinge área de vegetação de aldeias em reserva indígena de Avaí
“Vai além da questão ambiental, para nós o nosso território é sagrado. Então quando acontece um fogo desse, está atingindo tudo: o solo que é sagrado, a área em que buscamos matéria-prima para fazer artesanato, nossas plantas medicinais. É muito triste”, lamenta Tiago.
De acordo com o morador, o fogo começou na aldeia Kopenoty por volta das 9h de domingo (13) e logo se alastrou e atingiu as aldeias vizinhas. Para evitar que as chamas chegassem às casas e destruíssem mais partes da reserva, a comunidade indígena se mobilizou na tentativa de conter o incêndio.
“Durante toda a manhã a gente foi se mobilizando, mas por volta das 12h chegou na nossa aldeia. Eu cheguei na minha casa já era 19h porque foi uma luta o dia todo”, lembra Tiago.
Os bombeiros foram acionados no início da tarde e o incêndio só foi controlado à noite, quase 12 horas depois. “Eles trouxeram materiais para combater o fogo, mas não deu para salvar muita coisa. As matas estão secas, aí acaba que se alastra rápido”, comenta o morador.
Indígenas tentaram controlar as chamas antes de acionarem os bombeiros em Avaí
Tiago Nhandewa/Arquivo pessoal
Estragos
O incêndio destruiu a área de preservação ambiental da aldeia e causou a morte de muitos animais, como tatus, preás, cobras e lagartos. Segundo Tiago, muitas plantações também foram consumidas pelas chamas, como as de mandioca, batata e milho.
“As famílias daqui trabalham com agricultura familiar e hoje também com agricultura comercial, então vendem os produtos para fora para terem uma renda. Acabou atingindo eles também, que perderam o que investiram nas roças”, lamenta o escritor.
Ninguém ficou ferido no incêndio e as chamas não chegaram a atingir as casas, apesar de ter queimado áreas próximas a elas. O centro cultural da reserva, utilizado pelos indígenas para trilhas e educação ambiental, também foi perdido.
Tiago informou que os moradores ainda não sabem o que causou o fogo, mas que eles sofrem com as queimadas há mais de 15 anos, principalmente nos períodos em que o tempo está mais seco.
“Nos anos anteriores nós apuramos casos acidentais, alguém que está limpando alguma área ou queimando lixo. Mas também pode ser criminoso, alguém que por alguma razão coloca fogo em terra indígena”, completa Tiago.
* Colaborou sob supervisão de Mariana Bonora.
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