Quanto vale um disco em 2020? Nem todo vinil é criado igual

Para os artistas mais populares, o álbum em si é apenas uma pequena parte de um negócio multiplataforma, e nem está perto de ser o mais rentável

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O crescimento dos serviços de streaming por assinatura como Spotify e Apple Music separou.

(Foto: Alysse Gafkjen / The New York Times )

*Por Jon Caramanica

Nos últimos anos, Rory Ferreira, também conhecido como o artista de hip-hop de vanguarda R.A.P. Ferreira, notou que no Discogs, um mercado de discos on-line especializado em revendas, as versões físicas de seus álbuns estavam sendo negociadas por várias vezes seu preço original.

Assim, ao planejar o lançamento em vinil de seu último álbum, “Purple Moonlight Pages”, ele decidiu cobrar de acordo. “Não quero acabar com a festa de ninguém. Só quero ter certeza de que também vou ter uma participação justa”, disse ele em uma entrevista por telefone em julho.

Nesse mês, ele lançou o vinil “Purple Moonlight Pages” por US$ 77, um preço extraordinariamente alto, mesmo para um LP duplo. Embora o álbum estivesse disponível em serviços de streaming havia meses, ele vendeu todas as 1.500 cópias disponíveis em seu site. E, no Instagram, começou a responder a comentários sobre o custo, tanto positivos quanto negativos. A um fã exasperado, ele escreveu: “Olha, entendemos. Você não valoriza a si mesmo ou o que você faz. Os outros não estão nessa. Agora, vá chutar pedras.”

Cobrar US$ 77 por um álbum pode ser um exagero até mesmo nas melhores épocas, mas é especialmente ambicioso no atual clima da indústria musical, em que o álbum em si se tornou cada vez mais desvalorizado. O crescimento dos serviços de streaming por assinatura como Spotify e Apple Music separou, em menos de uma década, os álbuns e as músicas de um valor específico em dólares quase que completamente.

Portanto, quanto realmente vale um álbum em 2020? Depende do modelo de negócio.

“Acho que a música tem valor, mas o valor não é monetário. A tecnologia deteriorou isso”, comentou Steve Carless, sócio e cogerente de negócios da Nipsey Hussle. Graças à abstração entre artista e música nos serviços de streaming e à ascensão das mídias sociais, com a intimidade que esta cria entre artistas e fãs, a música física não é mais a principal forma de os artistas conseguirem a atenção e os dólares de seus seguidores.

“A música agora se tornou o veículo. Antes, era o que estava no fim da equação. Agora é o início da equação”, acrescentou Carless.

Resumindo: para os artistas mais populares, o álbum em si é apenas uma pequena parte de um negócio multiplataforma, e nem está perto de ser o mais rentável. Embora ainda haja um negócio saudável em vendas físicas, e às vezes surjam novas maneiras de conseguir um lucro adicional – Taylor Swift recentemente lançou oito edições de luxo diferentes de seu novo álbum, “Folklore” –, geralmente o disco é a coisa que inicia fluxos de receita muito mais ambiciosos: merchandise, turnês, licenciamento e muito mais.

Isso, em um extremo. No outro, estão pequenos artistas ou gravadoras com uma base de fãs dedicada, para quem o álbum permanece no centro da conversa financeira, sendo ainda uma proposta lucrativa por si só.

Tudo isso para dizer que é mais difícil do que nunca determinar, em um sentido puro, o valor de um álbum. Ao contrário das eras do CD ou do LP, quando os preços de mercado dos discos eram essencialmente consistentes, o álbum é agora valorizado em uma escala móvel – para a maioria das pessoas que usam serviços de streaming, o acesso a um álbum é (ou parece ser) gratuito; para as mais dedicadas, porém, há a necessidade de investir seu dinheiro em seus ídolos.

Isso causou estragos nos modelos de negócios das gravadoras, e também nas paradas da Billboard. A fim de incentivar as vendas imediatas, os artistas que querem chegar ao número um na semana de lançamento começaram a vincular álbuns com outros itens mais caros. Hoje, o lançamento de um disco pode muitas vezes se parecer mais com a abertura de uma loja de roupas.

Antes da era do streaming, os artistas tentavam extrair o máximo de valor do próprio álbum.

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(Foto: Alysse Gafkjen / The New York Times)

Talvez o exemplo mais importante seja o disco “Once Upon a Time in Shaolin”, da banda Wu-Tang Clan. O grupo disponibilizou uma cópia, que foi vendida em leilão em 2015 por US$ 2 milhões ao (hoje em desgraça) executivo farmacêutico Martin Shkreli, que a entregou às autoridades em 2018.

Parte da inspiração para o leilão da Wu-Tang foi o lançamento da mixtape de 2013 de Hussle, “Crenshaw”. Hussle, talvez o primeiro artista da era moderna a propor um modelo de preços premium para um meio moribundo, ofereceu cópias físicas de “Crenshaw”, por US$ 100, usando o slogan “Proud2Pay”. (A mixtape estava disponível gratuitamente on-line.) Ele vendeu mil cópias. Para demonstrar que o lançamento de “Crenshaw” não foi um acaso, ele aumentou a aposta com seu lançamento seguinte, “Mailbox Money”, oferecendo cem cópias a US$ 1.000; todas elas também foram vendidas.

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