Premier League promove embate de técnicos com suas próprias influências

Protagonismo da liga inglesa é dividido entre os atletas e seus grandes treinadores

A Premier League, que começa sua temporada 2020/2021 neste sábado (12), é a liga nacional mais seguida e admirada no mundo mesmo sem ter os dois principais jogadores do planeta nesta década.

É verdade que a maioria dos ricos clubes ingleses possui elencos com ótimo nível técnico, mas não há liga de futebol que reúna tantos treinadores influentes e vencedores como na Inglaterra, onde eles dividem o protagonismo com os atletas.

O duelo de abertura entre Liverpool e Leeds United, respectivos campeões da primeira e da segunda divisão do país, ilustra bem esse quadro, colocando frente a frente um dos melhores técnicos da atualidade, o alemão Jürgen Klopp, contra o argentino Marcelo Bielsa, cujo respeito advém mais da influência que exerce sobre o futebol contemporâneo que de sua modesta lista de conquistas.

A ascendência de Bielsa, por exemplo, está presente no trabalho de Pep Guardiola, bicampeão da Premier League nas temporadas 2017/2018 e 2018/2019.

Em 2006, prestes a se aposentar como jogador, Guardiola viajou à Argentina para um encontro com Bielsa.

“Se você vai ser treinador, precisa se encontrar com Bielsa para falar de futebol, porque ele sabe tudo”, sugeriu Batistuta, que jogou com Pep na Roma (ITA).

Guardiola foi a Máximo Paz, um pequeno município da província de Santa Fe onde Bielsa tem um sítio. O catalão e o argentino discutiram futebol por aproximadamente 11 horas. Nem mesmo o churrasco na hora do almoço foi uma desculpa para interromperem a conversa.

Contudo, apesar de compartilharem o gosto pelo futebol ofensivo, o que mais Pep absorveu dessa conversa não foram os aspectos táticos, mas sim os ensinamentos de Bielsa sobre o que é ser um treinador.

Ouviu do argentino como é lidar com a imprensa, a comunicação com os atletas, os alertas sobre o ambiente tóxico do futebol competitivo e o desenvolvimento dos jogadores.

“Pep, os bons jogadores são percebidos por você, por mim e pela maioria das pessoas. O mesmo com os jogadores ruins. O maior mérito está em saber que jogador normal se tornará bom”, disse Bielsa, cujas palavras podem ser aplicadas a Raheem Sterling, um atacante veloz, mas errático, que se tornou melhor e mais completo sob o comando de Guardiola no Manchester City.

Marcelo Bielsa diz que não há nada que tenha dito a Guardiola que o espanhol não soubesse. Assim como Guardiola, que teve Mikel Arteta como seu assistente no City, afirma que não teve tanta influência sobre a formação do agora treinador do Arsenal.

Mas Arteta conhece Pep desde o Barcelona. Revelado nas categorias de base do clube catalão na época em que Guardiola era capitão do time principal, o ex-meio-campista sempre o viu como seu modelo de jogador.

Quando passaram a trabalhar juntos em Manchester, tratou de observar e acumular conhecimentos para aplicar depois, no Arsenal, a sua ideia de um jogo ofensivo e protagonista, em que a construção de jogadas se inicia nos passes desde a defesa e termina com muita gente atacando o gol adversário.

O aprendizado de Arteta com Pep foi mais integral, pois somou a experiência humana do dia a dia com as ideias de futebol que ele está implementando agora em Londres, no seu primeiro trabalho como técnico.

Porém, nem sempre a influência se traduz na forma de jogar. É o caso, por exemplo, de José Mourinho, que está diretamente ligado a três técnicos que realizaram trabalhos promissores na última temporada da Premier League.

Sétimo colocado com o Wolverhampton, o português Nuno Espírito Santo conheceu Mourinho no Porto –ambos têm, inclusive, o mesmo agente, Jorge Mendes.

Na época, Nuno era o goleiro reserva da equipe e jogava muito pouco. Apesar das poucas atuações, aproveitou o período junto do treinador para observar como ele trabalhava.

De Mourinho, o agora técnico dos Wolves absorveu os ensinamentos sobre a gestão do elenco e a crença de que, independentemente do rival, o próximo jogo sempre pode ser vencido. Só em 2019, venceu duas vezes o Manchester City de Pep e, mais recentemente, o Tottenham comandado por seu maior influenciador.

Brendan Rodgers, quinto colocado com o Leicester, foi outro que aprendeu do português quando foi técnico nas categorias de base do Chelsea, apesar de enxergarem o futebol no campo de maneiras distintas.

Ex-assistente de Guardiola, Arteta venceu o antigo chefe na semifinal da última Copa da Inglaterra

Ex-assistente de Guardiola, Arteta venceu o antigo chefe na semifinal da última Copa da Inglaterra – Justin Tallis – 18.jul.2020/Reuters

“Nós gostamos de nos comunicar bem com os jogadores e com as pessoas, nós somos ambiciosos e queremos sempre garantir que o nosso trabalho tenha qualidade. Ele foi uma grande influência para mim”, disse Rodgers, que também elogiou o cuidado de Mourinho com os detalhes na preparação dos jogos.

Até mesmo Steven Gerrard, que teve problemas com Brendan Rodgers no Liverpool, afirmou quando deixou o clube que as sessões de treino com o técnico eram “divertidas e imaginativas” e que gostaria de ter trabalhado com Rodgers mais cedo na carreira.

Frank Lampard, o homem que completa a tríade de comandantes diretamente influenciados por Mourinho, foi treinado pelo português no Chelsea na primeira década deste século. Juntos, conquistaram dois títulos da liga inglesa.

Outra referência para o trabalho do jovem treinador é o italiano Carlo Ancelotti, hoje no Everton, que também comandou Lampard no Chelsea na campanha do título inglês da temporada 2009/2010.

O time londrino conquistou aquela edição da Premier League marcando 103 gols. Lampard, que era meio-campista, anotou 22, sua temporada mais produtiva na carreira.

Técnico do Chelsea desde 2019, Frank Lampard levou o Chelsea a um quarto lugar na última liga inglesa com a estrutura tática que é padrão de Mourinho, o 4-2-3-1, aliada à ideia de futebol ofensivo e busca pelo gol que ele observou e viveu com Ancelotti.

Há pouco mais de oito meses no comando do Everton, Carlo Ancelotti, por sua vez, olha para o rival de sua cidade e enxerga na gênese do futebol do Liverpool, atual campeão inglês, os mesmos princípios táticos dos quais ele bebeu quando ainda era jogador.

Ancelotti foi treinado por Arrigo Sacchi, bicampeão europeu com o Milan no fim da década de 1980, uma das principais referências de Klopp. As ideias de Sacchi, já aposentado, estão muito presentes na linha alta de defesa do Liverpool e na pressão sobre o adversário que caracteriza o trabalho do treinador alemão.

“Ele é o técnico mais importante de quem aprendi. O que Arrigo fez está na base de tudo o que eu faço”, afirmou Klopp no início de 2020.

Das ideias de Arrigo Sacchi e de Marcelo Bielsa à juventude de Mikel Arteta e Frank Lampard, a Premier League rediscute o futebol dos últimos 30 anos e dá a chance de marcar a cada rodada, no enfrentamento dos treinadores com as grandes referências (suas e dos outros), as pautas do que poderá ser o futebol de amanhã.

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