Por um novo movimento espírita

Movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Foto: Pixabay
Movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Foto: Pixabay

Movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Foto: Pixabay

O movimento espírita precisa conversar com os pobres, dialogar com os deserdados, ouvir e falar com os abandonados pela sociedade

Por Franklin Félix e Sergio Mauricio

Amigos/as leitores/as, nas próximas semanas iremos compartilhar aqui nesta coluna o posicionamento do coletivo de Espíritas à Esquerda, convidando-os/as para se juntarem a nós, tomarem partido e descerem do muro contra as injustiças sociais.

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Uma grande instituição do movimento espírita brasileiro anunciou mais uma de suas palestras sobre temas comportamentais (que ocupam a maior parte de seu calendário): distanciamento geracional e recomendações genéricas sobre o comportamento esperado de pais e filhos espíritas.

Palestras e reuniões que abordam apenas o aspecto comportamental do indivíduo são de pouca efetividade. Não conseguem mexer no cerne do problema das relações sociais, traduzido no imenso abismo entre dramas e necessidades daqueles que são capazes de pagar por um caro evento e aqueles que representam a maioria absoluta do povo que é pauperizada e incapaz sequer de alcançar as propostas daquelas falas impolutas e alienadas da realidade social brasileira.

Enquanto essa gente come e dorme nas melhores condições, muita gente passa fome e não tem um abrigo minimamente decente para repousar seu corpo cansado. E a culpa é justamente do sistema socioeconômico perverso, que explora o trabalhador e impede seu acesso a melhores condições de vida, mantido a partir dos privilégios da classe economicamente mais abastada. É importante destacar essa relação para que não se argumente a falta de vínculos entre essas situações.

Também é por conta desse discurso anódino e insosso, sem alcance transformador e que encolhe o tamanho das propostas espíritas revolucionárias, que o movimento espírita não consegue expandir-se e adentrar as classes economicamente mais vulneráveis. Qualquer análise estatística dos dados demográficos nacionais mostra essa triste realidade: os espíritas são privilegiados econômica e socialmente.

O movimento espírita precisa levar o discurso potente e transformador do espiritismo aos mais necessitados. Seu foco precisa mudar urgentemente para os problemas da indigência material e social dos desvalidos.

O movimento espírita precisa conversar com os pobres, dialogar com os deserdados, ouvir e falar com os abandonados pela sociedade, e não apenas dar-lhes um pão eventual que apenas sacia a fome de sentido de vida dos exploradores. O espiritismo precisa tornar-se popular, falar a linguagem do povo, para que não continue a ser essa tolice diletante que hoje cheira a naftalina nas casas e instituições espíritas sem um real objetivo transformador.

Um novo movimento espírita, reinventado, repensado a partir daquilo que hoje é apenas latente dentro das obras espíritas, precisa libertar-se das amarras que intentam conservá-lo impotente dentro duma ortodoxia sem frutos, seca, para que alcance seu propósito precípuo: a transformação do homem e da sociedade em que se vive, porque o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização.

 

O que fazer?

Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta. Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o vinho derramará e os odres se estragarão. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e assim ambos ficam conservados (Mt 9, 16-17)

 

Focando no aspecto pragmático da nova práxis espírita, deve-se deixar claro que essa proposição tem como orientação precípua, como dito, de que “o espiritismo é uma ferramenta poderosa de libertação e conscientização”. Não se pretende propor apenas reformar o movimento espírita, arejando-o com ideias sociais e interpretações políticas, mantendo sua estrutura burguesa e suas instituições carunchosas, pois isso seria apenas remendar a roupa velha. Mas, a partir da compreensão espiritual e material das relações humanas contida nas obras espíritas, transformar a sociedade, as relações de classes e a exploração do trabalho e do homem.

É preciso um novo movimento espírita que se apresente firme e claramente à luta contra todo tipo de exploração, contra todo tipo de discriminação e contra a precarização das condições materiais de vida. Isso significa que novas instituições, com novas práticas, precisam assumir esse papel essencial para a consecução daquilo que foi proposto como transformação da realidade por Jesus e pelos espíritos que auxiliaram Kardec, porque não será possível fazer isso a partir das instituições que hoje, infelizmente, representam um movimento espírita inócuo e sem serventia.

Portanto, a primeira proposta colocada a partir dessas reflexões é a organização de novos grupos que se pautem por uma visão transformadora. Mas não aquela transformação puramente individual, que ignora as relações humanas dialéticas, e sim a visão que compreenda que toda transformação humana passa necessariamente pela mudança radical nas relações sociais, porque, afinal, ninguém é capaz de se auto-transformar ignorando as condições do contexto em que se insere.

Esses novos grupos e instituições devem ter como objetivo primacial a construção da estratégia de sua inserção na luta pela superação da cruel realidade social existente. Suas reuniões, estudos e ação social devem ter esse propósito colocado como horizonte, como meta à sua atuação, exemplificando o poder revolucionário da filosofia espírita. De que adianta decorar perguntas e respostas de livros e não ser capaz de usar esse tipo de conhecimento para transformar a realidade ao seu redor? E transformar não é apenas dar o pão no momento de fome extrema, que também é importante, mas construir uma sociedade em que ninguém tenha mais que sentir fome.

Muito se ouve e se lê de espíritas autodenominados progressistas sobre a necessidade de se ocupar espaços espíritas existentes, numa luta inglória e ineficaz para levar seu discurso aos ouvintes de alguma instituição. Entende-se que essa estratégia não traz os resultados necessários por dois motivos principais: a) o público dessas casas espíritas não interessa ao movimento espírita renovado e socialmente engajado, pois seu foco deve ser o povo, a classe trabalhadora que precisa, além de justas condições materiais de vida, de consciência social e política e de educação; b) as instituições espíritas conservadoras —pois intentam conservar o status quo da realidade— são como roupas velhas, carcomidas, nas quais um remendo qualquer só será capaz de fazê-las rasgar, sem entretanto se as fazer transformar. Seus odres estão velhos e o vinho novo ofertado não terá o condão de os melhorar.

E, indo além, deve-se abandonar definitivamente tolos escrúpulos com as propostas de união ou unificação do movimento espírita. Não interessa a nenhum espírita engajado socialmente unificar-se ou unir-se a ninguém para uma luta inconsequente e que não tenha como objetivo claro a transformação da realidade social. Pois se não houver explícito interesse nessa transformação, a omissão pusilânime atuará como resistência a essa proposição. Ou seja, “aquele que não está comigo está contra mim; e aquele que comigo não ajunta espalha” (Mt 12,30).

Por fim, não interessa e não basta aos espíritas apenas compreender a realidade, incluindo-se a condição da imortalidade, mas ser capaz de agir coletivamente para a transformação dessa mesma realidade.

*Sergio Mauricio, membro do coletivo Espíritas à Esquerda, é engenheiro, filósofo e mestre em Ciências Sociais

 

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