Plano para uma vacina global pode permitir que os países ricos comprem mais


Uma iniciativa da Gavi, uma parceria público-privada, permite que os países que financiarem a pesquisa por uma vacina tenham doses suficientes para 20% de sua população. Mas isso não os impedirá de adquirir mais vacinas por fora desse acordo. Voluntária recebe vacina em testes da Covid-19 em Brisbane, na Austrália, na segunda-feira (13).

Políticos e líderes de saúde pública se comprometeram publicamente a uma divisão de uma eventual vacina eficaz que combate a Covid-19, mas a principal iniciativa para viabilizar isso pode permitir que os países ricos reforcem seus próprios estoques ao mesmo tempo em que menos doses estejam disponíveis para os países pobres.
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Os ativistas avisam que sem uma tentativa mais forte de responsabilizar as empresas farmacêuticas, os políticos e os os líderes de saúde pública, as vacinas serão acumuladas pelos países ricos em uma corrida para inocular suas populações primeiro.
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Recentemente, os EUA compraram uma grande quantidade de uma droga que combate a Covid-19. Depois disso, há previsões de um cenário perturbador se uma vacina for desenvolvida com sucesso.
Dúzias de vacinas estão sendo pesquisadas, e alguns países, como o Reino Unido, França, Alemanha e os EUA, já encomendaram milhões de doses antes mesmo da eficácia delas ter sido provada.
Nenhum país consegue comprar doses de todas as candidatas, muitos das nações pobres vão ter que fazer uma compra mais especulativa.
A principal iniciativa é liderada pela Gavi, uma parceria público privada que foi iniciada pela Fundação Bill e Melinda Gates que compra vacinas para cerca de 60% das crianças do mundo.
Em um documento enviado aos potenciais doadores no mês passado, a Gavi disse que aqueles que derem dinheiro para a instalação da vacina para a Covid-19 terão a oportunidade de se beneficiar de um portfólio maior de vacinas da doença, de acordo com um comunicado.
A Gavi disse aos governos doadores que quando uma vacina eficiente for encontrada entre aqueles que estão sendo experimentadas, esses países receberão doses para 20% de sua população, para que cada nação use como bem entender.
Isso significa que os países ricos podem firmar acordos deles mesmos com as farmacêuticas e também alocações sem contrapartidas da Gavi. Os países doadores são incentivados a doar vacinas se eles tiverem mais do que suficiente.
“Ao permitir um plano de segurança para os países ricos, eles poderão comprar toda a oferta de antemão, o que limita o que a Gavi poderá distribuir para o resto do mundo”, disse Anna Marriott, da Oxfam.
O diretor-executivo da Gavi, Seth Berkley, disse que a crítica não é construtiva. Agora, disse ele, não há vacina para todos, e eles tentam resolver esse problema.
Berkley afirmou que a Gavi precisa tornar o investimento em uma vacina atraente para os países ricos. A Gavi vai tentar convencer esses países que se eles já contratarem as vacinas, os países não iriam tentar obter mais.
Ele admite que não há um mecanismo que reforça esse mecanismo, no entanto.
“Se, no fim do dia, esses acordos legais forem quebrados ou os países apreenderem os estoques ou não permitirem o fornecimento de vacinas (aos países pobres) é um problema”, disse Berkley.
A Gavi pediu aos países uma declaração de intenção dos interessados ​​em aderir à sua iniciativa até sexta-feira passada. Esperava-se a inscrição de cerca de 48 países de renda alta e média, além de quase 90 países em desenvolvimento.
Richard Hatchett, diretor-executivo da Coalizão de Inovações em Preparação para Epidemias, que está trabalhando com Gavi e outros, disse que conversará nas próximas semanas com países que assinaram acordos com empresas farmacêuticas para garantir seus próprios suprimentos.
Uma possibilidade: eles podem pedir aos países que contribuam com seu estoque privado de vacinas para o estoque global em troca do acesso a qualquer candidato experimental que se mostre eficaz.
“Teremos que encontrar uma solução, porque alguns desses acordos foram feitos e acho que precisamos ser pragmáticos”, disse ele.
Após uma reunião no mês passado, a União Africana disse que os governos deveriam “remover todos os obstáculos” para igualar a distribuição de qualquer vacina bem-sucedida.
O chefe dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África, John Nkengasong, disse que Gavi deveria estar “pressionando fortemente” para convencer as empresas a suspender seus direitos de propriedade intelectual.
“Não queremos nos encontrar na situação das drogas para o HIV”, disse ele, observando que as drogas que salvam vidas estavam disponíveis nos países desenvolvidos anos antes de chegarem à África.
Shabhir Mahdi, pesquisador principal do teste de vacinas de Oxford na África do Sul, disse que cabe aos governos africanos pressionar por mais iniciativas de compartilhamento de vacinas, em vez de depender das empresas farmacêuticas para tornar seus produtos mais acessíveis.
“Se você espera que seja de responsabilidade da indústria, nunca receberá uma vacina no continente africano”, disse Mahdi.
No mês passado, Gavi e a Coalizão de Inovações para Respostas a Epidemias (Cepi, na sigla em inglês) assinaram um acordo de US$ 750 milhões com a AstraZeneca para dar aos países em desenvolvimento 300 milhões de doses de uma injeção sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford. Mas esse acordo aconteceu depois que a empresa farmacêutica já havia assinado contratos com o Reino Unido e os EUA, que são os primeiros na fila a receber entregas de vacinas no outono do hemisfério Norte (portanto, primavera no Brasil).
“Estamos trabalhando incansavelmente para honrar nosso compromisso de garantir acesso amplo e equitativo à vacina da (Universidade de) Oxford em todo o mundo e sem fins lucrativos”, disse Pascal Soriot, diretor-executivo da AstraZeneca. Ele disse que seu contrato com Gavi e Cepi marcou “um passo importante para nos ajudar a fornecer centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo aquelas em países mais pobres.”
O presidente chinês Xi Jinping, da China, também prometeu compartilhar qualquer vacina Covid-19 que desenvolver com os países africanos – mas apenas quando a imunização for concluída na China.
A Organização Mundial da Saúde disse anteriormente que espera garantir 2 bilhões de doses para pessoas em países de baixa renda até o final de 2021, inclusive por meio de iniciativas como a de Gavi. Cerca de 85% dos 7,8 bilhões de pessoas no mundo vivem em países em desenvolvimento.
Kate Elder, consultora sênior de políticas de vacinas do Médicos Sem Fronteiras, disse que a Gavi deveria tentar extrair mais concessões de empresas farmacêuticas, inclusive obrigando-as a suspender as patentes das vacinas.
“A Gavi está em uma posição muito delicada porque depende totalmente da boa vontade” das empresas farmacêuticas, disse Elder. Ela disse que o sistema de como as vacinas são fornecidas aos países em desenvolvimento precisa ser revisado para que não se baseie na caridade , mas por necessidade de saúde pública.
“Estamos apenas pedindo que nossos governos escrevam esses cheques em branco para a indústria sem condições vinculadas no momento”, disse ela. “Agora não é hora de realmente responsabilizá-los e exigir que nós, como público, recebamos mais por isso?”
Yannis Natsis, um oficial de política da Aliança Europeia de Saúde Pública, disse que a última coisa que se pensa nas autoridades dos países ricos é compartilhar com os pobres.
“Os políticos estão assustados se não derem dinheiro às empresas, os cidadãos do próximo país receberão as vacinas primeiro e parecerão muito ruins”, disse Natsis.

Com Agências

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