Pesquisador explica ‘receita’ da explosão demográfica mundial em livro

“Devotarei o resto da minha vida ao objetivo de Deus e hei de ajudá-lo a tornar o mundo inglês”, declarou certa vez, em um de seus muitos momentos grandiloquentes, o político e empresário Cecil Rhodes (1853-1902), um dos arquitetos do Império Britânico na África. Rhodes nasceu, é claro, na Inglaterra, mas sua crença nos desígnios de Deus não dependia só do bairrismo ou do poderio militar anglo-saxão.

Ao longo do século 19, o fato é que os habitantes do Reino Unido pareciam mesmo ser os principais beneficiários do “crescei e multiplicai-vos” bíblico. Os moradores da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia foram os primeiros seres humanos da história a escapulir de modo sustentável daquilo que os especialistas chamam de “armadilha malthusiana”, ou seja, o mecanismo que sempre fazia com que o crescimento da população fosse impedido, no longo prazo, pela incapacidade de produzir alimentos para encher cada vez mais barrigas.

A ironia é que o primeiro sujeito a perceber a existência de tal arapuca demográfica foi também um britânico, o reverendo Thomas Malthus (1766-1834). Ele formulou os princípios das limitações naturais do crescimento populacional justamente no momento em que seus conterrâneos estavam aprendendo a desmontar a armadilha malthusiana. O avanço nas técnicas agrícolas e a nascente Revolução Industrial passaram a alimentar e vestir os habitantes do Reino Unido com eficiência nunca vista, fazendo a população do país disparar e viabilizando a colonização de vastas regiões do globo, do Canadá à Nova Zelândia, passando pela África do Sul. Os EUA, principal “filhote” britânico, seguiram o mesmo figurino à risca.

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A história da ascensão populacional inglesa abre “A Maré Humana”, esclarecedor livro do demógrafo Paul Morland (britânico, lógico), pesquisador da Universidade de Londres. E, trocando-se os protagonistas e certos detalhes locais, ela funciona como uma espécie de refrão do livro, conforme Morland amplia seu foco, primeiro para os outros países europeus, depois para as potências do Extremo Oriente (o Japão, hoje em declínio, e a China, em ascensão) e finalmente para a “fronteira final” demográfica, o continente africano.

Falar em leis universais do crescimento populacional pode parecer estranho e excessivamente determinista, mas o fato é que a documentação histórica, cuidadosamente analisada por Morland, revela uma série de constantes, apesar das diferenças de contexto político ou cultural.

A primeira é que, assim que uma sociedade consegue desarmar a bomba-relógio malthusiana, a tendência é que ela enfrente um período considerável de menor mortalidade infantil e de aumento da expectativa de vida. Ou seja, com população crescendo de modo acelerado. Passo 2: mais próspera e urbana, com mais acesso à educação, essa população vai acabar diminuindo o número de filhos por mulher (em especial se as mulheres também tiverem acesso à educação).

Nessa fase, os números continuam crescendo por inércia populacional (embora cada mulher tenha menos filhos, agora há tantos adultos jovens na população que ainda é fácil produzir crianças a rodo). Por fim, o passo 3: o número de filhos por mulher cai para abaixo do necessário para manter a população crescendo (ficando em torno de dois ou menos bebês) e a parcela mais numerosa dos habitantes é formada pelas pessoas com trinta e muitos ou quarenta e poucos anos.

Esses três passos resumem quase toda a história populacional da Terra do fim do século 18 até o dia de hoje. A maioria das nações da Terra, aliás, já está com ao menos um pezinho no passo 3 (as principais exceções hoje são diversos países do Oriente Médio e a África ao sul do Saara como um todo, mas até eles parecem estar seguindo por esse caminho).

Outros temas também reaparecem com regularidade impressionante mundo afora. O primeiro: ao contrário do que acreditava Cecil Rhodes, nunca se pode contar com a bonança demográfica eterna de qualquer nação. Em 1960, quando a Nigéria se tornou independente, ela tinha 45 milhões de habitantes, população menor do que o Reino Unido, seu antigo senhor colonial; hoje, os 200 milhões de nigerianos são três vezes mais numerosos que os britânicos.

A demografia foi ainda um dos grandes motores dos conflitos internacionais na primeira metade do século 20. Britânicos temiam a fertilidade dos alemães, que por sua vez temiam o colosso demográfico russo, e a soma de todos esses medos foi um dos combustíveis da Primeira da e Segunda Guerra Mundial. E parece haver um ponto “Cachinhos Dourados” da demografia: ter muita gente dentro das suas fronteiras ajuda a ganhar força econômica e geopolítica, desde que esse mundaréu de gente não esteja sujeito à pobreza abjeta. China e Índia, dois protagonistas desta e das próximas décadas, são exemplos disso.

A Maré Humana

  • Preço R$ 54,90 (ebook)
  • Autor Paul Morland
  • Editora Zahar
  • Tradução Maria Luiza Borges
  • Tamanho 370 págs.

Com Agências

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