Pentágono faz relato alarmista sobre capacidades militares da China


São Paulo

A China já tem uma Marinha maior do que a dos Estados Unidos e pode, em cinco anos, dobrar seu arsenal nuclear com capacidade de atingir a terra de Donald Trump.

O relato, alarmista, foi entregue pelo Pentágono ao Congresso americano, em um documento anual sobre as capacidades militares de Pequim.

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Mísseis balísticos chineses DF-26, com capacidade nuclear, em desfile militar em Pequim

Andy Wong – 3.set.2015/Pool via Reuters

Ele surge no momento de maior tensão entre Washington e Pequim em décadas, com a Guerra Fria 2.0 do governo Trump gerando pontos de atrito em áreas que vão da autonomia de Hong Kong à venda de tecnologia 5G, com especial ênfase em provocações militares de lado a lado.

Usualmente, tais relatórios compilam dados públicos e fazem estimativas conservadoras, mas o momento parece ter carregado o texto com tintas dramáticas —sempre úteis na hora de pedir mais dinheiro para programas como o dos novos submarinos nucleares da classe Columbia, estimado em US$ 110 bilhões (R$ 590 bilhões hoje).

Segundo o documento, a Marinha chinesa hoje tem 350 embarcações, entre navios e submarinos. Os EUA têm ao todo 293, lembra o Pentágono. A conta, contudo, é torta.

Os EUA operam, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres), 121 embarcações chamadas de “combatentes principais”: porta-aviões, cruzadores, destroieres, fragatas.

Já a China navega 82 desses navios para grandes engajamentos —para chegar aos 130 da categoria que aponta, o Pentágono incluiu corvetas (navios menores) de uso litorâneo.

Só no quesito porta-aviões, os dois de propulsão convencional que usa não fazem frente à projeção de poder alcançada pelos 11 colossos movidos a energia nuclear dos EUA.

Mas o texto aponta numa direção correta: hoje Pequim é a principal potência de construção naval, em tonelagem entregue por ano, no mundo. E isso pode bastar no médio prazo para asseverar sua autoridade sobre as áreas que clama como suas, por exemplo, no mar do Sul da China.

O documento com razão vê a região, que os EUA consideram de uso internacional em boa parte, como um foco potencial de conflito.

O texto indica outros dois pontos em que a China já empata ou ultrapassou os EUA no campo militar.

Um deles é o de defesa aérea de longa distância, baseada principalmente nos poderosos sistemas russos S-300 e S-400, além de produtos domésticos. A isso se soma uma crescente frota de aviões modernos, que Pequim planeja ver 100% atualizada em 2035.

O outro, o programa de mísseis chineses. O país hoje tem 1.250 mísseis, com alcances que variam de 500 a 5.500 km, lançados de solo. Isso é vital para a interdição de teatros de operações nas águas em torno da China —e ameaçam diretamente bases americanas do Japão à ilha de Guam.

Segundo o Pentágono, os chineses têm pouco mais de 200 ogivas nucleares. É a primeira vez que os EUA fazem tal estimativa publicamente. O número é inferior ao estimado pelo Federação dos Cientistas Americanos, entidade cuja avaliação é considerada o padrão-ouro do setor, que aponta cerca de 320 bombas.

Seja como for, o documento prevê que nos próximos dez anos o arsenal chinês dobrará, e que em metade desse tempo já haverá o dobro de ogivas em mísseis capazes de atingir território americano —hoje, nas contas do Pentágono, são cerca de 100.

O alarmismo do texto parece tirado do fato de que setores nacionalistas chineses têm advogado por uma ampliação do arsenal nuclear de Pequim até 1.000 ogivas. Só que nada indica que eles serão atendidos.

Os EUA têm 1.750 operacionais e a Rússia, 1.570, fora aquelas estocadas pelas antigas superpotências da Guerra Fria. Washington também quis ver Pequim em tratados de limitação de ogivas, sem sucesso.

O texto também aponta como evidência das ambições nucleares chinesas a entrada em operação de uma versão capaz de ser reabastecida no ar e que pode lançar mísseis com ogivas nuclear do velho bombardeiro de origem soviética H-6.

Com isso, a China atingiu a chamada tríade nuclear, a capacidade de disparar suas bombas de terra, ar e mar. Só que a visão foi questionada no próprio Parlamento americano.

A chefe de análise militar do Serviço de Pesquisa do Congresso, Amy Woolf, afirmou que a colocação era alarmista. Os EUA, disse segundo agências de notícias, “sempre acreditaram que a tríade era estabilizadora porque reduz a vulnerabilidade de forças de retaliação, reforçando a dissuasão”.

Em outras palavras, ter vários meios de lançar a bomba são uma garantia para não ser atacado primeiro.

A China, por sua vez, previsivelmete desancou o relatório. Segundo agências chinesas, o Ministério das Relações Exteriores afirmou nesta quarta (2) que o texto entregue na véspera era “cheio de mentalidade da Guerra Fria” e buscava opor Pequim a Taiwan.

Há vários trechos dedicados às intenções chinesas para reabsorver a ilha, que considera uma província rebelde. A hipótese de uma tomada à força é descartada como muito arriscada, mas são ressaltados os exercícios militares simulando bloqueios e invasão de ilhas menores pertencentes a Taipé.

O relato, ressalte-se, só diz respeito a 2019. O grande crescimento de atividade militar no estreito de Taiwan e no mar do Sul da China dos últimos meses, parte da disputa entre as duas maiores economias do mundo, só irá ser relatado no ano que vem.

Por fim, ainda que tenha acelerado em 6,6% seu gasto militar no ano passado e mantido uma trajetória constante de crescimento, Pequim tem um orçamento bélico quase quatro vezes menor do que o dos EUA, sem capacidade de projeção global de poder como o adversário.


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