Paulo Mendes da Rocha doará acervo para instituição portuguesa e colegas arquitetos lamentam decisão

Ele diz que ideias de acervo da Faculdade de Arquitetura da USP e de instituição do Porto são distinto

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, 91, decidiu doar seu acervo para a Casa da Arquitectura, instituição privada localizada no Porto, em Portugal. Considerado um dos maiores nomes da arquitetura brasileira, Rocha diz que as tratativas começaram há mais de dois anos e que não será remunerado ao longo do processo.

A decisão de Rocha, vencedor do prêmio Pritzker em 2006, causou contrariedade na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde lecionou por cerca de quatro décadas. Em nota nas redes sociais, a instituição disse ter feito inúmeras proposta de recebimento do acervo e que lamenta a decisão do arquiteto (veja abaixo).

Docentes da faculdade têm afirmado que o acesso ao material produzido por Rocha ficará mais difícil com a distância imposta pela transferência do acervo do Brasil para a Europa

Rocha diz ao Painel que não vê sentido “na ideia competitiva entre as duas instituições sobre o objeto em questão”. Para ele, as propostas de abrigo do acervo possíveis na FAU ou na Casa da Arquitectura são completamente distintas.

“Se todo professor da FAU doar o acervo para eles, a FAU vai fazer o quê? A FAU não é muito para isso. A FAU tem uma coisa ou outra sobre a biblioteca, mas não um acervo de um escritório. A Casa da Arquitectura levou desenhos, pequenos croquis, estudos, fotografias de desenhos em quadro negro. Um tipo museológico muito caprichoso que não faz competição alguma com a FAU”, afirma.

Aos colegas que lamentam que o acervo ficará mais longe do alcance de pesquisadores, Rocha responde que “estamos mal acostumados em relação a Portugal”.

“Não acho que Portugal esteja fora do Brasil. O fundamental de cada cultura é a língua. Fala-se a mesma língua em Portugal e no Brasil”, diz. “Você tem tudo computadorizado. Agora, se quiser pegar o papel na mão, tem que ir à Portugal, sim”.

O arquiteto frisa algumas vezes que, em sua cabeça, FAU e a Casa da Arquitectura não estão no mesmo registroe não devem ser comparadas. Mas aponta limitações do modelo da univerdade.

“Uma escola é uma escola. [A Casa da Arquitectura] é um museu dedicado especificamente a receber acervo completo da obra de um arquiteto que eles convidam. E não pode enviar, eles convidam”, diz.

Ele explica que, originalmente, não pretendia doar nem vender seu acervo, mas foi surpreendido pelo convite lusitano após ter sido chamado para apresentar uma conferência no Porto. “Quando fui, me puseram esse problema”.

“Quando a FAU faz um convite, geralmente o acervo fica em um depósito que não é a própria instituição. Fica em um museu, o museu Mindlin [Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin], que enfurna lá. Não é a mesma coisa”, observa.

A Casa da Arquitectura receberá o que existe de mais importante na trajetória do arquiteto nascido no Espírito Santo.

“Minha combinação com eles é de que tudo vá para lá, no sentido intelectual do termo, não cumulativo. Eles mandaram especialistas para cá, já gastaram uma fortuna, coisa que a USP não tem. Não tem esse empenho em relação a acervo de arquiteto”, avalia.

Sobre o que espera do projeto museológico em relação à sua produção, diz que receberá o mesmo tratamento de todos que enviaram seus acervos para lá.

“Primeiro, os originais podem ser examinados por quem quiser. Segundo, estará tudo em computador para que estudantes possam consultar sem tocar diretamente nas peças. E, se for oportuno, uma vez ou outra fazem uma exposição da obra do camarada.”

O arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha
O arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha 

Por fim, ele descarta qualquer relação de sua decisão com a crise cultural atravessada pelo país, com corte de investimentos na área por parte do governo federal, fechamento de instituições e ataques a artistas. “Não tem nada a ver, não. Começamos essa conversa há anos.”

O arquiteto José Lira, professor da FAU, escreveu em suas redes sociais que a Casa da Arquitectura, “a despeito de seus méritos, não é uma instituição de ensino e pesquisa, nem muito menos pública, mas uma centro privado de guarda de acervos e exposições de arquitetura. E pior, fora do Brasil.”

“É desanimador saber disso. E num momento de erosão cultural do país. Especialmente doloroso para aqueles dentre nós que há décadas vimos nos esforçando em constituir políticas de acervos de arquitetura por aqui, não só com vistas à sua circulação em mostras e catálogos mais ou menos bem feitos, mas como materiais preciosos para o ensino, a pesquisa, a crítica e a difusão da arquitetura no Brasil”, completou.

Veja abaixo, na íntegra, nota assinada pela direção da FAU-USP:

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com grande pesar, tomou ciência da concretização da doação do acervo do arquiteto e professor emérito desta faculdade para a instituição privada Casa da Arquitectura de Portugal.

Apesar de inúmeras tratativas e propostas de recebimento do seu acervo, a decisão soberana do arquiteto foi diversa da nossa expectativa. O acervo de Paulo Mendes da Rocha teria para nós um duplo significado. Por um lado, a importância do material, nos seus próprios termos, e seu vínculo com a história desta instituição pública de ensino. Por outro integraria o maior acervo público de arquitetura, urbanismo e design onde estão depositados e disponibilizados para a pesquisa, dentre outros, os acervos de Ramos de Azevedo, Dubugras, G. Warchavchik, Rino Levi, Jacques Pilon, Giancarlo Palanti, Carlos Milan, David Libeskind, Ícaro de Castro e Melo, e, Vilanova Artigas. Mais recentemente foram incorporados os acervos do arquiteto Eduardo de Almeida e do escritório de Cauduro e Martino. Somos responsáveis pela guarda de mais de 400 mil desenhos, aproximadamente 100 mil registros fotográficos e algumas centenas de objetos.

Mais de 40 profissionais depositaram na FAU a confiança da guarda e ampla difusão ao ensino e pesquisa de arquitetura, urbanismo e design, os registros de suas trajetórias profissionais. A FAUUSP é reconhecida, nacional e internacionalmente, pelo seu acervo e pela produção do conhecimento realizada a partir de pesquisas nele realizadas. São alunos de graduação, iniciando sua trajetória profissional, até pesquisadores seniores e instituições os consulentes deste material de riqueza excepcional.

O cuidado com este enorme patrimônio cultural é permanente e envolve catalogação, higienização, restauro, digitalização. Parte deste trabalho pode ser visto no nosso banco de dados, disponível on-line, http://acervos.fau.usp.br/s/acervos/page/inicio .

Lamentamos a decisão de Paulo Mendes da Rocha, mas reafirmamos nosso compromisso com a pesquisa e a formação de novas gerações profissionais o que significa esforço permanente em ampliar e qualificar nossos acervos, garantindo sua permanente extroversão.

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