Pandemia: escolas indígenas no Ceará só devem retomar aulas presenciais em 2021


A informação foi dada pela coordenadora da Organização dos Professores Indígenas do Estado do Ceará (Oprince), Cristina Pitaguary. O Ceará já soma 760 casos confirmados de Covid-19 entre indígenas
Madson Pitaguary
As escolas indígenas presentes no Ceará só devem retomar às aulas presenciais no próximo ano, segundo a coordenadora da Organização dos Professores Indígenas do Estado do Ceará (Oprince), Cristina Pitaguary. Segundo ela, a grande maioria das 44 escolas indígenas no Estado não tem condições estruturais de garantir o distanciamento social e demais medidas sanitárias recomendadas.
Em agosto, 72 representantes – entre gestores escolares, professores e lideranças indígenas se reuniram e decidiram que, mesmo em eventual decreto liberando as atividades, as instituições educacionais indígenas não retornarão presencialmente neste ano. “A maioria das escolas foi contra o retorno às aulas. O que as comunidades pedem é que as escolas possam ser estruturadas para a gente poder voltar, mesmo em 2021”, destaca Cristina.
“A gente tem escola que ainda funciona em casas alugadas, em cômodos pequenos, que nem água tem, escola que não tem pátio, quadra que possa estar distribuindo esses alunos”.
O documento foi protocolado e enviado no dia 15 deste mês e teve parecer dos gestores por meio de ofícios. Segundo Cristina, a entidade aguarda uma reunião com a Seduc para debater estes pontos. “Ontem (24), a gente sentou para definir as pautas, mas ainda não temos a data marcada. A gente vai ficar firme com esse documento. Só vamos retornar em 2021 e com a melhoria estrutural das escolas indígenas”, explicou.
O Ceará já soma 760 casos confirmados (45 atualmente) entre indígenas, segundo boletim da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará (Fepoince), divulgado nesta semana. Além disso, 17 dos 19 municípios com territórios indígenas já têm registros da Covid-19. Na última semana, o Estado apresentou uma redução de 8% no número de novos casos, mas houve um avanço nos territórios indígenas nos municípios de Crateús e Monsenhor Tabosa.
Seduc
O Ceará tem 44 escolas indígenas – 39 estaduais e 5 municipais. Pela rede estadual são atendidos 7,5 mil alunos, em 16 municípios.
Em nota enviada ao G1, a Secretaria da Educação do Ceará informou que “estão autorizadas a retornar a partir do dia 1º de outubro as escolas da rede estadual, incluindo as indígenas, que apresentarem condições estruturais e de segurança, conforme o Protocolo 18 – das Atividades Educacionais”. Conforme a Secretaria, o processo de retomada das escolas indígenas segue os mesmos critérios usados nas demais instituições.
A Secretaria disse, também, que “fará visitas de monitoramento, na próxima semana, às escolas da rede pública estadual que estão aptas às atividades presenciais, para definir a possível data de retorno”. Também haverá a realização de consulta pública com estudantes para avaliar o interesse pelo retorno.
Conforme a Seduc, retornarão às atividades presenciais as escolas que se encaixem nos seguintes critérios:
Que apresentem infraestrutura adequada;
Que possuam Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para alunos e funcionários;
Que estejam aptas quanto ao cumprimento das normas de segurança sanitária estabelecidas no Procolo 18 – Atividades Educacionais divulgado pelo Governo do Ceará;
Que todos os profissionais tenham feito o exame para diagnóstico da Covid-19.
Pandemia e ensino
As escolas indígenas também precisaram ser fechadas durante a pandemia para evitar a propagação do vírus. As comunidades são consideradas um grupo em extrema vulnerabilidade durante a pandemia. Um dos receios com um possível retorno é que o vírus volte a circular com mais intensidade nos territórios indígenas presentes no 19 municípios cearenses.
“Os professores estão fazendo seu trabalho através do Whatsapp e temos os alunos que não têm internet, que são poucos, que as escolas imprimem as atividades e fazem a entrega”, explica Cristina.
A coordenadora leciona há 15 anos no município de Pacatuba, na escola indígena Ita-Ara. Para ela, está sendo um desafio manter o ensino durante o isolamento. “Às vezes, é marcado na própria escola um horário que os pais podem ir pegar as atividades, com limite para não aglomerar. Há também o atendimento de alunos especiais. Na minha escola, eu faço esse acompanhamento. São cinco alunos, com horário marcado, uma hora cada”, pontua.