Ozonioterapia, cogitada em Itajaí, é criticada por entidades médicas e tem projeto para regulamentação

Polêmico método com aplicação retal proposto pelo prefeito de Itajaí para pacientes com coronavírus divide opiniões e é autorizado apenas como uso experimental

Método com aplicação de ozônio foi anunciado pelo prefeito de Itajaí para pacientes com covid-19
Método com aplicação de ozônio foi anunciado pelo prefeito de Itajaí para pacientes com covid-19

(Foto: Reprodução G1)

A ideia de usar aplicações retais de ozônio para tratar pacientes com o novo coronavírus virou centro de uma polêmica depois que o prefeito de Itajaí, Volnei Morastoni (MDB), anunciou a adoção do método no município. O método é autorizado apenas para uso experimental por entidades médicas e tem um projeto de regulamentação em análise no Congresso.

Entidades médicas como o Conselho Federal de Medicina (CFM) alertam que a chamada ozonioterapia é uma prática experimental, permitida somente em estudos que sigam critérios definidos e acompanhem a evolução dos pacientes. A prefeitura de Itajaí alega que para adotar o método o município se inscreveu em um estudo da Associação Brasileira de Ozonioterapia (Aboz), que vai analisar o impacto dessa técnica na evolução dos casos positivos de covid-19.

Fato é que a ozonioterapia já causa polêmica antes mesmo de ter seu uso defendido para pacientes com covid-19. Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados busca permitir o uso da terapia com ozônio para tratamento de outras doenças, como câncer, doenças virais e dores articulares.

A relatora do projeto é a deputada federal catarinense Carmen Zanotto (Cidadania). Ela explica há muitas divergências entre entidades médicas sobre o uso da ozonioterapia. Isso ficou explícito em audiências feitas sobre o tema e, segundo ela, dificulta até mesmo o avanço da proposta no Congresso.

A deputada catarinense foi uma das que viajou a Portugal para conhecer detalhes do uso da técnica.

– Por lá ela é usada para tratamento de dor crônica em grandes articulações, mas com protocolos muito rígidos, e só em duas unidades hospitalares de referência em dor crônica – afirma a parlamentar.

No mês passado, um debate na Câmara dos Deputados discutiu a possibilidade de uso da ozonioterapia como auxiliar no tratamento contra a covid-19. Novo impasse. Médicos favoráveis alegaram que a prática poderia reduzir o agravamento e o tempo de internação, enquanto entidades críticas, como o próprio CFM, sustentaram que não há comprovação científica da eficácia e que ela seria admitida em trabalhos experimentais.

A deputada catarinense preferiu não opinar sobre a decisão da prefeitura de Itajaí de adotar o uso das aplicações de ozônio contra o novo coronavírus por não conhecer detalhes da proposta do município.

– Esse momento é de muita preocupação com a pandemia. Preciso saber no que o prefeito, que é médico, está se baseando para esse tratamento. E se vai fazer parte do grupo de pesquisa. Porque o uso seria só para pesquisa, e não como tratamento, ao menos pelo que aponta o Conselho Federal de Medicina – pontua.

Para o Ministério da Saúde (MS), a ozonioterapia é classificada como uma Prática Integrativa e Complementar (PIC) – tratamentos que usam recursos terapêuticos baseados em conhecimentos tradicionais. Segundo o ministério ela também pode ser usada como tratamento paliativo para doenças crônicas.

A Associação Catarinense de Medicina (ACM) também informou que considera a prática experimental e que não apoia tratamentos experimentais durante a pandemia de covid-19 por considerar que eles devem ser restritos a centros de pesquisa.

– Acreditamos que existem outras estratégias que podem ser adotadas, e a questão da ozonioterapia precisa ser discutida antes porque é um procedimento experimental – pontua o presidente da ACM, Ademar José de Oliveira Paes Jr.

O Conselho Regional de Medicina (CRM-SC) também se manifestou nesta terça-feira ratificando a posição do CFM, de que o método é apenas experimental.

Para adotar a aplicação retal de ozônio, a prefeitura de Itajaí solicitou inscrição em uma pesquisa da Associação Brasileira de Ozonioterapia (Aboz), que seria aprovada pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde (Conep).

O presidente da entidade, Arnoldo de Souza, explica que o estudo prevê o uso da técnica para um grupo de pacientes e o acompanhamento de outro grupo que faça somente uso dos tratamentos convencionais. Segundo ele, isso garante a ozonioterapia como uma prática integrativa.

Na prática, o tratamento consiste na aplicação de uma mistura de oxigênio e ozônio no paciente. Arnoldo explica que o efeito do tratamento ocorreria porque o ozônio, ao entrar em contato com fluidos do corpo, transforma-se em um agente anti-inflamatório, que também melhoraria a saturação e o perfil vascular. No caso de Itajaí, seriam feitas 10 aplicações em dias consecutivos.

– Isso tudo ocorre em outras patologias. É em cima dessa atuação que, por analogia, estamos propondo essa intervenção – detalha.

A entidade também aponta que o ozônio é um oxidante natural, com propriedades bactericidas e antivirais, e que a técnica é utilizada também em outros países como Canadá, Estados Unidos e Alemanha.

Um dos pontos que causaram polêmica é a forma de aplicar a ozonioterapia no caso de Itajaí, a aplicação retal. Segundo o presidente da associação, esta forma foi escolhida na pesquisa por ser “tão eficiente quanto as outras” e também mais barata. Segundo ele, o preconceito explica parte da polêmica que cerca a pesquisa, mas ele considera que a repercussão que o assunto ganhou após a fala do prefeito de Itajaí é positiva.

– A questão está no preconceito. Usar via que preconceituosamente as pessoas tratam de forma pejorativa. Mas tirando isso, é bom (a polêmica sobre o tratamento). Nós que defendemos não temos medo do debate. Isso nos atrai porque estamos baseado em fortes substâncias científicas – garante.

A prefeitura de Itajaí informou nesta terça-feira (4) que pretende manter o uso da ozonioterapia e que o estudo recomenda que o método seja adotado em pelo menos 142 pacientes. No entanto, informou que não há prazos para que a pesquisa seja iniciada na cidade. O Ministério Público de SC chegou a recomendar que o município não adote as aplicações de ozônio contra a covid-19.

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