Os números pedem mais mulheres no mercado financeiro

Em 2017, uma escultura de bronze chamou a atenção do mundo financeiro e estampou jornais, revistas e selfies por todo o mundo. Batizada de “fearless girl” (garota sem medo), uma menininha encarava o Touro de Wall Street, animal que simboliza o mercado de altas das ações, no distrito financeiro de Nova York.

Nesta semana, três anos depois, um estudo do banco Goldman Sachs mostrou que as mulheres têm domado o mercado com sucesso.

De quase 500 fundos multimercado dos EUA acompanhados pelo banco, os com pelo menos um terço dos cargos de gestão ocupados por mulheres saíram-se melhor na crise do coronavírus. Em média, tiveram 1 ponto percentual a mais de retorno neste ano.

Acontece que os fundos com a presença feminina compraram mais ações de empresas de tecnologia, que se recuperaram mais rápido do baque do mercado.


Estátua ‘Fearless Girl’ no distrito financeiro de Nova York, Estados Unidos
Drew Angerer/Getty Images/AFP

Muito além de uma guerra dos sexos, o estudo aponta que diversificar faz bem aos investimentos também na hora de escolher quem vai decidir a alocação dos valores.

Em outra crise recente, a de 2008, o fundo islandês de private equity Audur Capital, totalmente gerido por mulheres, chamou atenção ao passar sem um arranhão pela quebradeira generalizada, como lembra o livro “O lado invisível da economia: uma visão feminista”, de Katrine Marçal.

Apesar dos bons sinais, uma espiada nos números de investidores na Bolsa mostra que as mulheres ainda estão bastante afastadas do nosso mercado de renda variável.

Menos de um quarto de todos os CPFs cadastrados para comprar e vender ações no Brasil são de investidoras.

Enquanto o número de investidores na Bolsa saltou de 633 mil para 2,1 milhões, em 2 anos, o percentual de participação feminina foi de 22% para 24%. Em relação ao valor investido, ficam com a fatia ainda menor (21%).

Um levantamento feito pela corretora Easynvest com exclusividade para a coluna mostra que, entre seus 1,4 milhão de clientes (37% mulheres), a diversificação é mais forte entre as investidoras.

Enquanto, na parte de renda variável, homens concentram 78% dos seus investimentos em ações, mulheres deixam 71%, nesse tipo de papel, aumentando suas posições em fundos imobiliários (FIIs) e ETFs (fundos de investimento negociados como ações).

História recente

A participação feminina no mercado financeiro ainda pode ser chamada de novidade. Até 1962, conta em banco era um atributo exclusivamente masculino, por lei.

A consultora financeira Paula Bazzo credita majoritariamente a isso o fato de mulheres serem menos incentivadas a falar sobre dinheiro, o que acaba por influenciar a postura de assumirem menos risco em relação a seus investimentos.

Ainda que sejam responsáveis pelo sustento de quase metade dos lares, como apontado pelo IBGE, não têm tanto costume de falar sobre o que fazer com dinheiro quanto os homens, diz Paula, cuja consultoria, chamada Batom no Azul, é especializada em atender mulheres.

Como mudar o cenário e, futuramente, ter mais fundos também geridos por mulheres, passa por simplesmente conversar mais sobre o assunto, de modo a aumentar a familiaridade com o tema, desmistificando termos e siglas.

O resultado de uma maior participação feminina foi quantificado no rendimento dos fundos pesquisados pelo Goldman Sachs. No caso do mercado brasileiro de ações, fica mais difícil dizer, dada a baixa presença de mulheres no comando das companhias listadas em Bolsa.

Ainda assim, é mais do que simbólico que os papéis mais valorizados do Ibovespa desde o início do ano sejam da Magazine Luiza, sempre associada à figura da presidente de seu conselho, Luiza Trajano. Suas ações MGLU3 subiram praticamente 90%, enquanto o índice caiu quase 15%.

Diversificar a carteira de investimentos inclui diversificar o pensamento de quem toma as decisões sobre o que fazer com o seu dinheiro.

Marcos de Vasconcellos

Jornalista, empreendedor e fundador do site Monitor do Mercado.



  • Veja outros artigos desse colunista

  • Envie sua notícia

  • Erramos?

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

Termos e condições

Todos os comentários
Comente*

* Apenas para assinantes da Folha