O pote da calma

É simples. Você só precisa de um pote de plástico com tampa, água morna, cola-glitter e purpurina. Tem uns 298 mil vídeos no YouTube ensinando. Mistura, mistura, mistura. Chacoalha, chacoalha, chacoalha. E pronto. Pelo menos umas 14.936 mães adeptas do método montessoriano, com seus pelo menos 14.936 canais sobre maternidade na internet, dizem que o pote da calma vai —pasmem— acalmar as crianças. Só que, e é aí que reside toda a magia da vida real, elas estão erradas.

Ritinha ficou muito irritadiça porque, na hora de apertar a caralha da cola-glitter, toda a força da união de nossas quatro mãos não foi o suficiente. A buçanha da cola estava emperrada. Apertamos tanto que faltou ar. Esmurramos a desgraça do tubo, sentamos nele, pisamos, mordemos, tentamos furar com tesoura, depois faca, depois faca de churrasco. Eu já estava em busca de uma furadeira quando minha bebezinha decidiu que odiava demais aquela cola-glitter e ordenou, implacável: “Mamãe, joga no lixo”.

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Exemplo de pote da calma
Reprodução/YouTube

O pai, que presenciava tudo sem alma, pois estava abduzido por um joguinho em seu celular (depois os homens questionam onde foi parar o clima de paquera & sedução de outrora), perguntou se a cola havia “empenado”, e eu disse que esse verbo estava errado para aquele caso. Ele disse que errado estava o verbo “emperrar”. Ofendida (sobretudo porque eu não tinha certeza), decidi trazer para a discussão uma antiga rusga jamais superada. O fato de que eles, cariocas, chamam a Monga, a mulher-macaca do circo, de Conga. Chamam porta-malas de mala. Mala é mala, porra. Imagina se para-raios se chamasse raio? E se porta-coisas se chamasse coisa? E se porta-copos se chamasse copo? Acho que ele foi ficando tão puto porque eu não parava de falar que conseguiu abrir a porcaria da cola-glitter numa tentativa só.

Nisso, a água morna já estava fria. Eu fui despejá-la dentro do pote, e Ritinha brigou: “Esquenta de novo!”. Eu disse que não precisava, e ela começou a chorar muito e espernear e chutar e gritar: “Esquenta de novo! Esquenta de novo! Esquenta de novoooooo!”. Esquentei de novo. Ficou quente demais. Ela queria colocar a água, e eu não deixei, pois poderia queimar a mão. Pedi que esperasse esfriar, e ela começou a chorar muito e espernear e chutar e gritar: “Eu quero hoje! Eu quero hoje! Eu quero hojeeeeee!”. Expliquei que ela estava tentando dizer a palavra “agora”, e não a palavra “hoje”, e ela começou a gritar: “Hojeeeeeeeeeeee, e não agoraaaaaaaa! Hojeeeeeeeeeee, e não agoraaaaaaaa!”.

Mas nada disso se compara ao que ainda estava por vir. Quando abrimos o saquinho de purpurina, Rita derrubou a maior parte no chão e se desesperou. Porque caiu justamente numa área suja com a desgrama da cola-glitter emperrada-empenada, a purpurina não dava sinais de que suportaria ser retirada daquela superfície e, a posteriori, depositada no líquido. Minha cachorra, Chica, ficou doida com aquele troço brilhando no chão e começou a lamber. Eu não sabia se acalmava a criança, se jogava o celular do Pedro pela janela ou se googlava “cola-glitter cachorro veneno”. Rita começou a gritar: “Tira o au-au daqui, tira o au-au daqui”. Pedro berrou: “Ahhhh, nããão”, porque perdeu uma vida no joguinho do celular. Chica latia desesperada porque Rita estava batendo nela com a garrafinha cheia de água (novamente fria). Me imaginei com aquela máscara do filme “Pânico”, aparecendo de surpresa na casa de todas as 14.936 mães blogueiras montessorianas ou das 11.845 mães influencers da ludoterapia ou das 17.943 mães creators do leve maternar ou das 16.934 mães terapeutas da disciplina positiva. Eu só queria achar a furadeira e ir pra casa delas.

Tati Bernardi

Escritora e roteirista de cinema e televisão, autora de “Depois a Louca Sou Eu”.


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