“Nosso objetivo é diminuir o número de internação e que as vidas sejam preservadas”, diz médica em defesa do uso de cloroquina e ivermectina

Médica Ana Paula Gomes Cunha é autora da carta assinada por mais de 300 médicos que propõe a adoção do tratamento precoce à Covid-19 em Santa Catarina

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Profissional defende o uso de medicações como a hidroxicloroquina e ivermectina, mesmo sem comprovações científicas, na fase inicial da doença para reduzir o número de casos

(Foto: Taiara Barbosa, Divulgação)

Vivemos um momento crítico no combate ao novo coronavírus em Santa Catarina. A curva do número de casos está em aceleração, assim como a quantidade de catarinenses que perdem a batalha para o vírus. Ao mesmo tempo, os leitos para o tratamento da Covid-19 no Estado se aproximam do limite. Em meio a esse cenário, um debate ganhou repercussão: o tratamento precoce de casos, para evitar o colapso do sistema e, consequentemente, salvar vidas.

Em Santa Catarina, quem assumiu o protagonismo da discussão foi a médica endocrinologista Ana Paula Gomes Cunha. Mesmo sem estar na linha de frente na luta contra a Covid-19, desde o início da pandemia ela dedicou-se ao estudo de pesquisas referente ao tratamento ambulatorial do novo vírus. Então, decidiu escrever uma carta, que foi assinada em conjunto por mais de 300 médicos de Santa Catarina no começo de julho. O documento propõe a criação de protocolos para o uso de medicações sem comprovada eficácia científica, com prescrição e acompanhamento médico, no tratamento precoce dos casos. A carta foi encaminhada às autoridades.

– O objetivo da carta é que todos saibam que existe um grupo de médicos, que são estudiosos e são favoráveis ao tratamento precoce da Covid-19, para o intuito de reduzir o número de internações hospitalares – esclarece a médica.

Questionada sobre a falta de comprovação científica das medicações no combate à Covid-19, ela defende que há evidências suficientes para o uso, desde que os medicamentos sejam prescritos por médicos, obedecendo às indicações e contraindicações de cada um, as particularidades de cada caso e haja um acordo entre médico e paciente.

– Não existe “menos evidência científica”. A gente tem evidências importantes, não nível A, porque não tem para nada nesse nível, nem a favor, nem contra. (…) É o que a gente tem hoje, a gente não tem tempo para esperar novos estudos científicos prospectivos, bem controlados, que são estudos que nos levam ao nível de evidência A. O paciente é o amor de alguém. A gente tem que tratar o paciente como se fosse alguém da nossa família, com todo amor e carinho.

A profissional ressalta que o movimento é apolítico, apartidário e que trabalha pela união da população e dos governos na luta para vencer o coronavírus. E faz questão de reforçar sobre a importância das medidas de prevenção, independentemente do tratamento precoce:

– A melhor forma de prevenir a Covid-19 são essas: a higiene, lavar as mãos, o uso de álcool, o distanciamento social, seguir as orientações governamentais… Uma coisa não exclui a outra.

Confirma mais detalhes na entrevista a seguir:

Qual é o principal objetivo da carta entregue às autoridades no início deste mês?

Essa carta é para a população catarinense e para os gestores de SC, tanto municipais quanto estaduais. O objetivo da carta é que todos saibam que existe um grupo de médicos, que são estudiosos e são favoráveis ao tratamento precoce da Covid-19, para o intuito de reduzir o número de internações hospitalares. Desde que tenha autonomia médica, ou seja, o médico decide se deve prescrever ou não para o paciente, e o paciente conversa com o médico se quer ou não aquele tratamento.

A gente sugeriu neste documento fazer um protocolo em cada município, com as suas realidades, ou um protocolo estadual. Por quê? A maioria dos médicos da ponta fica insegura de prescrever hidroxicloroquina, que é tão falada que faz mal. Não, não faz mal para todas as pessoas. Então, se tivéssemos um atendimento, em cada município, que todo médico da Unidade Básica de Saúde e tivesse o protocolo do seu município e decidisse prescrever ou não aquele protocolo, seria tudo muito mais fácil. Porque a grande maioria está perdida. Existem tantas publicações, não sabe qual seguir.

Então, se a gente tivesse isso já organizado pelo Estado ou pelos municípios, poderia ajudar o médico na escolha de fazer o tratamento correto no início dos sintomas e assim prevenir o número de internações. Esse é o nosso objetivo.

Como tem sido a repercussão? Você tem notícia de cidades que acataram a proposta?

Existem algumas cidades ou convênios (médicos) que já estão acatando algumas propostas de protocolo. Infelizmente, a gente teve até que tirar a carta do ar (nas redes sociais), porque invadiram o nosso grupo, a gente ficou preocupado e fechamos. O nosso grupo é formado por médicos e de Santa Catarina.

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O que a gente sabe de alguns municípios que estão fazendo o protocolo é São Martinho (no Sul do Estado), um convênio em Chapecó, e os convênios estão discutindo os protocolos, inclusive aqui em Florianópolis. Em Brusque, tem uma médica que está desenvolvendo um protocolo. Palhoça vai fazer, São José foi conversado com a prefeita (Adeliana Dal Pont) e ela ficou de conversar com o grupo para decidir se iam aplicar ou não. E Florianópolis já falou que não faria protocolo, o que acho uma pena.

O protocolo ou o que quer que chamem, facilita para o médico da ponta. O médico que quer passar uma medicação se sente mais seguro com o protocolo, quais são as indicações, as contraindicações. Como existe com outras doenças.

A intenção é dar mais opções aos médicos, assim como prevenir e reduzir o número de internações hospitalares. Como você vê o risco da automedicação, que a gente sabe que, infelizmente, é algo comum no Brasil?

Nunca deve haver a automedicação. A hidroxicloroquina, que é o principal remédio do tratamento precoce, necessita de uma receita controlada, que tem validade de em torno de 10 dias. Então, o paciente não consegue comprar sem ter uma receita médica. A azitromicina é um antibiótico e também precisa de receita médica para ser comprada.

Outras medicações, temos o zinco, precisa ser manipulado e para isso necessita de receita médica, e a ivermectina. A ivermectina é uma medicação que você pode comprar sem receita médica, tanto que já está em falta em muitas farmácias, e existe no SUS. Mas a maioria dos medicamentos você precisa de receita médica.

Infelizmente, não tenho nenhuma informação dos resultados de lá. Acredito que sejam precoces também, né? Acabei de dar uma entrevista sobre a ivermectina. É uma medicação antiparasitária e também antiviral, inibe a replicação viral. Existem estudos in vitro em relação à Covid-19 em que ela diminui a replicação viral.

Não temos grandes evidências, mas como é uma medicação barata, existe no sistema público de saúde e ela tem poucos efeitos adversos, poucas contraindicações e tem essa função antiviral, é uma medicação que acabou entrando nos protocolos para o tratamento precoce da Covid-19.

Você acredita que a utilização dessas medicações pode ajudar a mudar o cenário da pandemia em Santa Catarina?

Creio que se forem prescritas por um médico, nas fases adequadas, sim. Pode mudar o cenário da saúde e das internações em Santa Catarina. Acredito que é o que aconteceu em Belém (PA). A meu ver, eles conseguiram controlar as internações justamente depois que começaram a aplicar esses protocolos de tratamento ambulatorial. Então, acredito sim que o uso dessas medicações possa fazer uma mudança no cenário do nosso Estado.

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Ana Paula: “Creio que se forem prescritas por um médico, nas fases adequadas (as medicações) podem mudar o cenário da saúde e das internações em SC”

(Foto: Taiara Barbosa, Divulgação)

A utilização desses medicamentos passa pelo acordo entre médico e paciente e/ou familiares. Como tem sido esse processo? Você tem informações d o nível de aceitação e utilização desse tratamento em Santa Catarina?

A gente está com alguns problemas, infelizmente. Não consigo entender o que está acontecendo. Não sei dizer se são os médicos que são contra, por questões políticas. Sei que existem médicos que são contra por falta de evidências nível A, mas já peguei alguns pacientes que foram ao médico, no posto de saúde, tinham a indicação do tratamento precoce e o médico fala que “esse remédio é perigoso, não é para usar”. Quem tem a obrigação de orientar o paciente somos nós, médicos. Infeliz ou felizmente, nem todos são a favor, pois vivemos em democracia, certo?

Mas a população mais esclarecida e a que tem menos acesso têm que saber que existem médicos que são favoráveis ao tratamento precoce e que eles têm direito, se quiserem, a esse tratamento precoce. O que ocorre é que parece que alguns municípios dificultam o paciente a conseguir essas medicações que existem no SUS, pra justamente não fazer o tratamento. São contra o tratamento precoce.

Estou muito preocupada com o quadro que temos hoje em SC e essa rixa que existe entre quem é a favor ou contra o tratamento. Nós, que somos a favor do tratamento precoce, não estamos em nenhum momento querendo obrigar que todos façam, de forma alguma. A gente é favorável à autonomia médica e à autonomia do paciente. E não é uma guerra. A gente quer salvar vidas.

O nosso objetivo é diminuir o número de internação e que vidas sejam preservadas. Somos apartidários, não somos ligados à política, simplesmente pela vida, a favor da vida humana que a gente acredita nesse tratamento. É o que a gente tem hoje, a gente não tem tempo para esperar novos estudos científicos prospectivos, bem controlados, que são estudos que nos levam ao nível de evidência A. A gente não tem tempo para isso. O paciente é o amor de alguém. A gente tem que tratar o paciente como se fosse alguém da nossa família, com todo amor e carinho.

A ausência de evidências científicas e a guarida de órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) para a utilização desses medicamentos não fragiliza o tratamento?

Na verdade, se a gente for pensar nisso, não existe “menos evidência científica”. A gente tem evidências importantes, não nível A, porque não tem para nada nesse nível, nem a favor, nem contra. Segundo, a gente tem série de casos, estudos observacionais e retrospectivos. Na semana passada saíram dois estudos nos Estados Unidos falando da hidroxicloroquina, sobre pacientes internados. Têm poucos estudos de tratamento ambulatorial precoce, a maioria é de pacientes internados.

E a OMS já mudou muita coisa, né? Lá no início da pandemia no Brasil, a indicação era não usar máscara, e hoje em dia a máscara é uma obrigação. Os protocolos de atendimento foram mudados quatro ou cinco vezes. A orientação antes do Ministério da Saúde era que o paciente só fosse procurar um médico quando tivesse tosse, falta de ar, sinais de complicação da doença, e hoje o Ministério da Saúde indica procurar um médico nos primeiros sintomas, para poder ver se tem indicação de fazer o tratamento precoce ou não da Covid-19.

Os estudos vão sendo lançados todas as semanas, tanto de um lado, quanto de outro. Uma verdade hoje na medicina, amanhã pode ser totalmente contrária.

O uso de remédios sem evidências não coloca o conhecimento científico em xeque?

Na verdade, não. O médico é preparado para trabalhar com medicina baseado em evidências. Só que, num momento de pandemia como agora, em que a gente não tem tempo para esperar os estudos científicos de nível de evidência A para a gente poder prescrever os nossos pacientes com a melhor indicação possível, existe consenso que há medicações com indícios e algumas evidências que podem diminuir o número de internações e o número de mortes. Isso é fundamental.

Tanto é que o Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde estão indicando ir ao médico no momento precoce, se não o nosso sistema de saúde muito provavelmente não vai dar conta. E eles não estão falando isso porque acham, no achismo. Estão se baseando em evidências científicas. Não as que gostaríamos de ter, mas temos evidências, sim. Tudo pode mudar daqui a uma semana? Sim, tudo pode mudar. É o que a gente espera. Que venham mais estudos que possam corroborar com aquilo que a gente está falando, ou mostrar qual lado melhor que a gente deve seguir.

Como fazer para que o uso e, possivelmente, o sucesso desses medicamentos no combate à Covid-19 não impactem as ações de prevenção, com as pessoas deixando de usar máscaras, de fazer a higienização e o distanciamento social, por exemplo?

A maneira de conversar. Na carta, a gente coloca que de forma alguma o tratamento precoce impede (os métodos de prevenção). A melhor forma de prevenir a Covid-19 são essas que você falou agora: a higiene, lavar as mãos, o uso de álcool, o distanciamento social, seguir as orientações governamentais… Uma coisa não exclui a outra. E a coisa mais importante é essa, o distanciamento social e as medidas de higiene de forma rigorosa, isso é indiscutível. Só que acredito que devemos rever o jeito que nós médicos, a imprensa e o governo está falando com a população.

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A gente nunca imaginou que fosse ter isso quando fez a carta, não esperávamos tantas assinaturas em tão pouco tempo. A gente não esperava que fosse haver uma dicotomia, entre sim e não, e ficar nisso a discussão. Somos favoráveis ao tratamento precoce, mas o meu objetivo não é que os médicos fiquem contra ou a favor, acredito que o importante é a sociedade saber o que pode ser feito, mas é fundamental a higiene e o distanciamento social.

Não é a hora de médicos e especialistas se unirem na busca de algo eficaz?

O que todos nós queremos, especialistas e médicos em geral, é encontrar esse tratamento eficaz. O grande ponto é que baseado nas evidências que a gente tem, não existe nada hoje, em nível de evidência A, que seja eficaz no combate à Covid-19. Ou a gente fica esperando o paciente complicar e ser internado, ou a gente vai tentar o tratamento precoce para reduzir o número de internações, para a gente poder dar conta.

Não é que a gente não tem uma união. Se o pessoal que é contra mostrar pra gente uma medicação que tenha algum grau de evidência, a gente não está brigando. Não é um grupo contra o outro, de forma alguma. Somos médicos e tenho certeza que todos querem salvar vidas. Estamos extremamente preocupados com o rumo que as coisas estão tomando aqui em Santa Catarina. Acho que existe a parte política nessa história, e é muito triste pra mim como médica. Não é indicação política qual tratamento seguir, isso está errado. Você está lidando com vidas.

Com Agências

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