‘Não existe receita’, diz professora sobre aprendizagem durante a pandemia de Covid-19 no RS


Pais, estudantes e profissionais da educação falam sobre os desafios enfrentados com a suspensão das aulas por seis meses. Saúde é prioridade para a maioria da comunidade. Salas da aula estão vazias desde o fechamento das escolas em março por conta do coronavírus
Divulgação
Com as escolas fechadas desde março devido à pandemia do coronavírus, alunos, professores, pais e demais envolvidos no sistema de aprendizagem tiveram de se adaptar com uma nova forma de ensino.
Impossibilitados de estarem juntos, presencialmente, com colegas e professores, estudantes falam da ausência do ambiente de sala de aula, pais comentam as dificuldades em ajudar os filhos com os conteúdos e professores explicam as dificuldades do ensino a distância.
“A situação é inusitada e não existe receita nem para escola, nem para os alunos e nem para os pais”, pontua a professora Thaís Bozzetto, que dá aula em uma escola pública de Porto Alegre.
O G1 RS conversou com pessoas desses três grupos, tanto de escolas públicas como privadas, e em diversas cidades do Rio Grande do Sul.
Alunos
A falta do convívio com os colegas é uma reclamação unânime, mas as dificuldades em aprender sem a presença física do professor também são destaques na fala dos estudantes.
“É como se o conteúdo tivesse que ser estudado o triplo de vezes pra entrar na cabeça”, comenta a estudante Theodora Borowsky Andrade.
Theodora está no primeiro ano do ensino médio, e estuda em uma escola particular de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
“O ambiente de casa, mesmo que mais confortável, não é muito apropriado pro estudo. Quer dizer, pra esse tipo de estudo, como aula. Vez ou outra eu, por exemplo, acabo me distraindo com qualquer ruído da rua”, pontua.
Já para Tamires Sales Elesbão, de Caxias do Sul, na serra gaúcha, ficar em casa nesse período tem sido questão de saúde.
“Sou do grupo de risco, pois sou asmática. Aprendo mais na escola, lá tem um professor para esclarecer bem a dúvida”, diz.
Pensando no futuro, a aluna do sétimo ano da rede municipal se questiona como deve ser o retorno às aulas presenciais.
“Vai ser muito estranho, eu acho. Não vamos poder fazer contato com colegas ou amigos e vai ter um certo distanciamento. Vai ser tudo novo, um tempo de adaptação para todos”, projeta.
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Professores
O sentimento dos alunos é compartilhado pelos profissionais da educação. Apesar de pontuarem diferenças essenciais no que diz respeito a preparo, quando comparado o ensino à distância privado ao do ensino público, professores concordam que a ausência da presença física poderá trazer déficits.
“A grande perda dos alunos vai ser no desenvolvimento daquelas habilidades que só se constroem através da intervenção do professor. Existem alguns conteúdos que podem ser absorvidos através da leitura expositiva, do vídeo, mas outras habilidades só se constroem através da intervenção presencial do professor”, explica a educadora Gabriela Barbosa.
Gabriela atua na rede municipal das cidades de Caxias do Sul e Farroupilha, ambas na Serra. Para ela, o desafio na retomada das aulas é recuperar o aprendizado dessas que necessitam de amparo profissional.
“O maior desafio, após a retomada das aulas presenciais, vai ser recuperar esse delay [atraso] de aprendizagem que ficou de 2020, e ao mesmo, tempo iniciar as habilidades propostas pro ano corrente”, aponta.
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RBS TV/Reprodução
Para o educador Marcelo Guimarães, que atua na rede estadual de educação em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, os alunos estão perdendo em socialização.
“Os alunos tinham aquele momento de uma troca de ideia entre eles e uma vivência rica que acaba vários em pensamentos se cruzando, e a gente não tem. Isso é o ponto crucial que eu acho que vai ficar devendo neste ano letivo”, esclarece.
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Pais
Além de adequar rotinas profissionais, muitos pais estão dividindo o tempo em casa ajudando os filhos com as atividades escolares. Mesmo observando dificuldades e reconhecendo que o ensino remoto não é o ideal, aprovam o método em defesa da saúde.
“Eu sempre valorizei a educação e, nesse período, eu passei a valorizar ainda mais”, afirma Márcia Sales Elesbão.
Mãe da aluna de 13 anos, que está matriculada no sétimo ano da educação fundamental de Caxias do Sul, Márcia não vê esse como um ano letivo perdido.
“O ano a gente recupera. A vida das nossas, a gente não recupera nunca mais. Uma vez perdida, nunca mais”, defende.
Ao mesmo lado está a advogada Cassiana Lip. Mãe, ela é uma das administradoras de um grupo que defende o direito ao ensino não presencial durante a pandemia do Rio Grande do Sul.
“Todo o aprendizado é bem-vindo. Mesmo quando ele é inferior ao que nós tínhamos antes, porque as aulas presenciais realmente são essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todos, mas nesse momento da humanidade a gente precisa trabalhar com essas aulas à distância”, esclarece.
Além da preocupação com o aprendizado, os pais questionam os impactos psicológicos que essa ausência de aulas trará aos filhos.
“A gente observou que, no início da pandemia, nos primeiros dois meses, ele deu uma retrocedida no comportamento. Ele ficou mais fechado, por vezes mais agressivo. Existe toda uma função da idade, é difícil”, pontua Luciane Nascimento Fernandes Duarte, mãe de um estudante de 13 anos, ambos moradores de Porto Alegre.
Em maio deste ano, o G1 ouviu especialistas, que fizeram o alertam: mais importante do que recuperar o conteúdo perdido é se preocupar com a saúde mental das crianças e dos adolescentes, e o que a pandemia pode ensiná-los.
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