Mortes: Professora ensinou que nunca é tarde para estudar

A família foi a maior dedicação da paraense Raimunda Coeli Maia Pinto em seus 90 anos de vida. Educou os filhos antes de conseguir seu próprio diploma e se tornar professora. Os familiares a apresentam como alguém que se preocupava com o próximo, mas que, nos últimos dias de vida, se viu desamparada por um sistema de saúde colapsado em meio a uma pandemia.

É descrita pela neta Amanda Corrêa como a pessoa mais doce e bondosa com quem teve o prazer de conviver. Adventista do Sétimo Dia, ela praticava a sua fé ajudando os mais carentes. Bordava lençóis e colchas para vender e utilizava a renda na caridade. “Minha avó era, verdadeiramente, o amor de nossas vidas e o elo que ligava todos nós”, diz.

Foi mãe de dez filhos, mas sofreu a perda de dois ao longo da vida, um com apenas seis meses de nascimento por gastroenterite e outra com 45 anos por problemas renais.

Formou-se no segundo grau já idosa, por meio do projeto Minerva – um programa de rádio feito pelo governo para educar adultos.

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Raimunda Coeli Maia Pinto em seu aniversário de 90 anos
Arquivo pessoal

Tornou-se motivo de orgulho para a família ao virar professora. Lecionou para crianças do ensino fundamental durante um ano, antes de se aposentar pela idade. “Ela nos deixou uma linda lição de que nunca é tarde para começar a estudar”, diz Amanda.

Por muitos anos dividiu a casa com os filhos e netos. No fim, morava apenas com a sua quarta filha, Miriam Pinto Rosas.

O novo coronavírus chegou à sua casa em maio, no auge do colapso do sistema de saúde de Belém. Raimunda bateu na porta de cinco hospitais de seu plano de saúde até encontrar um com leito disponível. Nunca chegou a fazer o teste para coronavírus, mas teve a suspeita de Covid-19 indicada pelo médico devido ao comprometimento dos pulmões.

A notícia de sua morte veio no dia 15 de maio, por telefone. Após uma vida tão ligada à família, seu enterro foi acompanhado por apenas três pessoas: um filho, o namorado de uma de suas filhas e o neto que criou após a morte de sua filha de 45 anos. Os demais tiveram que acompanhar tudo por uma videochamada.

Doze dias depois, morreria sua terceira filha. Sua companheira de lar, Miriam teve 50% dos pulmões comprometidos pela Covid-19 e passou dias em um ventilador do SUS. Morreu no dia 27 de maio, aos 66 anos. “O que mais doeu foi não poder dar um adeus digno para nenhuma das duas”, afirma Amanda.

Com Agências

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