“Me pergunto se amanhã serei eu que estarei aqui”, conta enfermeira de UTI de coronavírus em Joinville

Há quatro meses, profissionais de saúde de Joinville dedicam-se ao momento mais difícil da pandemia: curar os pacientes com sintomas mais graves

foto mostra joice, a técnica em enfermagem da entrevista, com máscara e faceshield
Joice Ermes da Silva é uma das profissionais que atua na linha de frente do coronavírus no Hospital São José, em Joinville

(Foto: Arquivo Pessoal)

Como é trabalhar em uma UTI de Covid-19? A técnica em enfermagem Joice Ermes da Silva, 36 anos, de Joinville, descobriu isso de forma voluntária. Ela foi a primeira a levantar a mão quando, na segunda semana de março, a diretoria do Hospital São José convocou os profissionais da saúde para montar a equipe que assumiria os trabalhos na UTI para pacientes com coronavírus, e perguntou quem aceitava a transferência temporária de setor.

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“Você é louca!”, ouviu dos colegas. A maior parte dos médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem que trabalham na UTI já atuavam como intensivistas antes da pandemia e foram apenas deslocados para a unidade montada em caráter emergencial. Joice, que trabalha há 13 anos no Hospital São José, atuava na unidade do hospital onde ficam internados pacientes com altas complexidades e, na maioria das vezes, gravemente debilitados por doenças neurológicas, o “setor JS”. 

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A rotina era dura – cuidar de pacientes acamados e fragilizados das 6h às 12h30min, seis dias por semana, com jornada dobrada aos finais de semana. Mas nada se compara à realidade que encontrou desde março, quando os pacientes infectados pela Covid-19 começaram a chegar.

Rotina com dipirona e medo 

Todos os dias, às 6 horas da manhã, ela já está frente a frente com o pior momento da pandemia: aquele em que as pessoas desenvolveram um quadro de pneumonia severa e precisam de tratamentos mais complexos e cuidados intensivos. Antes, ela precisa fazer a paramentação. Coloca o “pijama” do hospital, como chamam o uniforme dos enfermeiros; o propé, que protege os calçados; a máscara n95, duas toucas para garantir que nenhuma mecha do cabelo fique desprotegida, o avental e duas luvas. Por fim, a faceshield, a máscara que cobre todo o rosto.

Dores de cabeça e muito dipirona tornaram-se rotina, para ela e para os colegas, causadas pelo peso dos equipamentos de proteção sobre as orelhas e apertando a testa e o nariz durante horas — aos fins de semana, são 12 horas de plantão. Ficar sem tomar água para não precisar ir ao banheiro — e, para isso, retirar cuidadosamente todos os equipamentos, correndo o risco de infectar uma parte do corpo ou da própria roupa — também é um novo hábito. Mas estes estão longe de ser os itens da nova rotina que realmente a preocupam.

— Antes da pandemia, pronar pacientes era um “bicho de sete cabeças”, se fazia muito raramente. Agora, fazemos várias vezes por dia, mas ainda é a parte mais difícil: virar um paciente que está entubado, ligado a vários fios, para deixá-lo de barriga para baixo por quase 24 horas. É um procedimento que, se feito de forma errada, pode levar a pessoa ao óbito — relata.

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Em pacientes com quadro grave de Covid-19, a “posição prona” se revelou uma ferramenta importante para garantir a troca de gases feita pelos pulmões quando a pessoa já não consegue mais fazê-la sozinha. Por segurança, precisa ser feito por pelo menos cinco pessoas, trabalho geral- mente executado pelos técnicos em enfermagem, como Joice.

— No começo, tínhamos muito medo. Ainda temos, essa é a palavra que melhor define o que vivemos. Mas, nos primeiros dias, tínhamos medo até de tocar em tudo: era uma coisa nova, ninguém sabia lidar com esse vírus. Víamos os médicos que conhecemos há anos e admiramos pelo trabalho que fazem, e eles também estavam apavorados — recorda.

“A força dos outros colegas me ajuda a passar por isso”

Em março, Joice olhava para a UTI do São José, que inicialmente tinha 10 leitos, e pensava: “não é possível que um dia tenha tanta gente para ser internada aqui”. A reflexão era dividida entre a esperança de quem tem em casa um filho de 12 anos, outro de um ano e 11 meses e um marido que faz parte do grupo de risco, e a insegurança de quem entendia nos olhos arregalados dos infectologistas e pneumo-logistas que o futuro traria os momentos mais difíceis das vidas de todos eles.

Em 8 de julho, já não havia mais espaço para ilusão: a ocupação chegou a 100% pela primeira vez e, desde então, em quase todos os dias há pacientes sendo transferidos para outros hospitais da região, porque quase não há mais vagas nas UTIs de Covid-19 da rede pública de Joinville (que agora conta com 40 vagas no São José e 20 leitos no Hospital Regional). Nesta sexta-feira (17), o São José tinha seis leitos disponíveis e o Regional, quatro leitos vagos.

Entre as pessoas internadas na UTI onde Joice trabalha, está um colega do hospital, com quem ela divide parte da rotina há mais de uma década dentro do Hospital São José. É um temor que ela divide com os colegas de profissão que vivem a mesma rotina e, por isso, transformaram-se em uma família nestes quatro meses de pandemia.

— Todos os dias, olho e me pergunto: “Será que amanhã serei eu aqui, internada? Será que vou sobreviver até o fim desta pandemia?”. A força dos outros colegas, de saber que estamos juntos, é que me ajuda a passar por isso — pontua.

Com Agências

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