‘Me considero à deriva’, diz atriz Ingrid Guimarães

A atriz e apresentadora Ingrid Guimarães estava com passagens compradas para embarcar no dia 18 de abril para a China, onde gravaria nova temporada do “Além da Conta”, programa que comanda no GNT.

“Você acredita? Por algum motivo louco a gente achava que [o coronavírus] não ia chegar nos Estados Unidos”, diz, entre risos. “Então mudamos para gravar em Nova York, o segundo pior lugar [de disseminação da Covid-19]. E acabamos dentro de casa, no Brasil, quase o terceiro pior lugar”, continua.

De uma apartamento alugado perto de sua casa, no Rio de Janeiro, ela gravou cinco episódios do “Além da Conta #Confinados”, que estreou em maio. Nele, fazia esquetes humorísticas sobre as mudanças comportamentais durante a pandemia e conversava com convidados —pessoas famosas, anônimos e especialistas. E agora se prepara para estrear a temporada “Novo (A)Normal” do programa no próximo dia 22.

“Falei de tudo o que vivi e do que as pessoas à minha volta viveram. Desde a mais paranoica, que lavava ovos, até as que estavam zen. E eu queria matar quem tava super zen, porque eu estava zero. Como você fica tranquila com esse país? Com tudo o que tá acontecendo?”

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“As minhas amigas até me perguntavam [quando pedia relatos da quarentena]: ‘Você vai me sacanear?’. Eu sempre falo pra elas pensarem bem [risos]. Não me manda meditação de 21 dias a essa altura que eu vou fazer esquete. Não tô com paciência”, continua, rindo.

No começo da quarentena, ela conta que passou por um momento de refletir e de se questionar se era possível fazer piada diante do cenário do país. “Fiquei bem em crise com isso. Tudo estava tão triste… Qual é o limite para fazer o humor?”

Ingrid diz que tratou desses questionamentos com outros humoristas, como Fábio Porchat e Paulo Gustavo. “E eles me disseram que isso também fazia parte da nossa função. O humor é o grande alívio da quarentena. Nessa hora, ele tem o papel importantíssimo de trazer leveza e alegria.”

“Pô, num dia de pandemia, em que a pessoa teve que cozinhar, lavar, passar, cuidar de filho e ter medo de perder o pai e a mãe, uma gargalhada é melhor do que um Lexotan [medicamento indicado para tratamento de ansiedade], continua. “Sou muito orgulhosa de ter nascido com o dom do humor, porque ele salva as pessoas de muitas coisas.”

A atriz conta que fez questão de entrevistar o humorista Marcelo Adnet para o programa —“o grande rei da quarentena”. “Ele pega e fala tudo aquilo que a gente queria falar, com raiva, e fala com humor”, diz. “Acho espetacular o humor falar de política de maneira leve, sem ser agressivo, sem ser naquele lugar que a gente entra facilmente de polarizar e que não leva a nada.”

A atriz diz que começa a trabalhar em um texto com mais ou menos duas semanas de antecedência, e que teve um cuidado redobrado com as piadas no momento da quarentena.

“Tem que tomar cuidado para não ser politicamente incorreta. Porque está muito 8 ou 80, todo mundo na montanha russa de emoções, né? Tem que tomar cuidado até como aborda [uma situação], ainda mais num país onde a classe social é muito diferente. Os meus problemas não são os mesmos de quem mora na comunidade.”

Ela afirma que está mais difícil fazer humor em “tempos de politicamente correto”. Por um lado, diz, ele é importante e, como todo movimento que precisa ser mudado, “de início ele é radical”. “Em relação ao racismo, por exemplo, já está tarde e tem que começar mesmo. Não posso falar ‘criado mudo’, não posso fazer piada de cabelo. Não posso mesmo! E isso não vai diminuir o humor.”

“Mas tem outras coisas que se a gente ficar muito cerceada, você não faz o humor. É preciso ter bom senso”, continua. Ingrid diz que, antes, escrevia uma piada para a cena e pronto. E que hoje ela “escreve, relê, dá pra colega reler, dá pra uma terceira pessoa que pode estar sendo ofendida, pede para que a pessoa que é o alvo dê opinião, para, então, botar a piada no negócio”.

A atriz conversou com a coluna por chamada de vídeo direto de seu apartamento no Rio, onde mora com o marido, o artista plástico René Machado, e a filha de dez anos, Clara. Ela vestia um moletom cinza e estava de cara lavada. “Isso não vai ser gravado, né? Não vou aparecer com essa cara de quem acordou faz pouco tempo?”, disse, entre risos.

No dia anterior, Ingrid tinha comemorado seus 48 anos em um churrasco com a família, com quem está passando a quarentena —que alterna em períodos em seu apartamento e em uma casa da família em Búzios, sempre fazendo testes para a Covid-19 e seguindo orientações dos órgãos de saúde, diz. “Reunir dez pessoas da família já é uma sensação de estar numa rave em Ibiza.”

“Fico até com vergonha de falar um pouco da minha rotina na pandemia, e até evitei mostrar, porque sou tão, tão, tão privilegiada. E isso me fez sentir culpada e me questionar sobre o que eu estava fazendo com esse privilégio.”

Assim como outros artistas fizeram, Ingrid cedeu espaço em seu perfil no Instagram para um ativista abordar questões raciais. “Se você me perguntar quais assuntos me mobilizaram mais nessa quarentena, foram o racismo estrutural e o machismo estrutural”, afirma.

A atriz acredita que uma “coisa bacana” causada pela pandemia no coronavírus é o crescimento de movimentos da sociedade civil de solidariedade. “Muita gente ajudando e se envolvendo pela primeira vez. Sempre ajudei, mas nunca tinha me envolvido tanto quanto agora. E passei a me questionar o por quê disso. Onde eu estava, que não estava nesses movimentos? Isso tem que ser parte da nossa vida, assim como você malha.”

“Temos que nos preocupar com o outro. Ainda mais num país que eu considero que é sem liderança. A gente tem que ser a nossa própria liderança, não podemos contar com nenhum tipo de apoio do governo para ajudar. Temos que nos organizar, nos unir. A gente não se organiza para fazer um filme, uma peça?”

Ela conta que passou por vários momentos de angústia e de revolta com a atuação do governo federal no combate à pandemia. “Essa história do descaso com a nossa saúde. Com os exemplos que são passados… E essa história do Leblon [com bares lotados na reabertura do comércio] nada mais é do que um retrato desse exemplo que a gente tem na liderança do nosso país hoje. A história do ‘tudo pode’.”

“Perdemos a poesia, a sensibilidade, o senso. Me considero à deriva”, continua. “E quem não mudou na pandemia, não muda mais, tá? Esquece. Essas pessoas que acham tranquilo correr, andar sem máscara. São pessoas que acham tranquilo sair e dane-se, é isso mesmo. E são pessoas que fizeram o país estar como está, que elegeram as pessoas que estão aí.”

Ela critica a postura do governo federal com a Cultura. “É claro que o dinheiro agora tem que ir para a saúde e a educação, que são o básico de um país. Agora, você não pode simplesmente dizimar a cultura”, diz.

“Fico pensando: essas pessoas gostam de arte? Sinto que são pessoas despreparadas para falar da nossa cultura. Então se o governo não reconhece ela como algo importante, quem ele botar agora [no cargo de secretário] quase pouco importa.”

Ela ressalta: “Nada contra o Mário Frias, mas eu acho que a gente na cultura já desistiu. Estamos nos unindo entre nós para para criar nossos próprios movimentos. Eu não espero mais absolutamente nada”.

Ingrid diz que se preocupa com a crise no setor causada pela pandemia. “Cara, vai ser muito difícil para os atores daqui para frente. Não para mim, mas para os que vivem de teatro, vivem de grupos, artistas de rua, de circo… Eu sou contratada, tenho uma vida que posso pegar meu dinheiro e produzir minhas próprias coisas.”

E afirma que quer descobrir jovens atores e comediantes e trazê-los para seus projetos. “Se eu nasci em Goiânia e demorei tanto tempo para conseguir o meu espaço, imagina quem não é da zona sul, quem é da favela, de outra cidade. E como sou geradora de emprego, também quero botar eles nos filmes, nos projetos. Você não pode só descobrir, tem que arrumar trabalho.”

A atriz conta que tem tido um sonho recorrente, pensando em como será a reabertura de teatros e cinemas no pós-pandemia. ​“Tenho esse sonho otimista de que as coisas vão melhorar, as pessoas vão estar muito a fim de ir ao teatro, ao cinema, não querendo mais ver coisas na TV. Fico imaginando aqueles teatros lotados e eu em cima do palco. Sonho com o dia em que vou comprar um ingresso e sentar numa plateia para ver, de verdade, um ator trabalhando ao vivo. Que delícia!”

Com Agências

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