Márcio França oficializa candidatura em SP, fala em dar exemplo e rejeita rótulo de bolsonarista

Postulante do PSB vendeu imagem de ponte entre extremos e declarou guerra ao PSDB, do qual foi aliado

O ex-governador Márcio França (PSB) confirmou sua candidatura à Prefeitura de São Paulo nesta sexta-feira (11) com um discurso em que refutou as associações de seu nome ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e se apresentou como um nome que pode construir pontes em meio à polarização.

Ex-aliado do PSDB —ele foi vice do tucano Geraldo Alckmin e assumiu o governo paulista por nove meses em 2018, após Alckmin renunciar para disputar o Planalto—, França declarou guerra ao candidato à reeleição e favorito da disputa, Bruno Covas (PSDB), apoiado pelo governador João Doria (PSDB).

Sem mencionar explicitamente Bolsonaro, o ex-governador reiterou ser um político de convicções fortes e buscou afastar a possibilidade de pegar carona na popularidade do presidente para se crescer na disputa, a exemplo do que fez Doria dois anos atrás, com o voto “BolsoDoria”.

“Não há hipótese de me fazerem pular para algum lugar que eu não acredite. Se eu não acreditar, eu não vou”, afirmou.

O ex-governador Márcio França, candidato a prefeito de São Paulo pelo PSB 

“Se eu ganhar aqui, nós vamos lá falar com ele [Doria], de prefeito para governador. Prefeito não é menos que governador nem que presidente da República. E o Bolsonaro é o presidente da República. Nós vamos falar com ele. Não há problema”, disse.

A fala, durante a convenção do PSB, realizada na Câmara Municipal, reforça declarações recentes em que tentou afastar os rumores de seu alinhamento a Bolsonaro, que ganharam peso depois que França se encontrou com o presidente durante um evento no mês passado.

Como mostrou a Folha, França, que foi tachado de comunista na disputa pelo governo estadual com Doria em 2018, tem mantido uma postura ambígua em relação ao governo federal, evitando críticas diretas e preferindo atacar as gestões do PSDB no estado.

Sua campanha, que tem como principal partido aliado o PDT do ex-presidenciável Ciro Gomes, notório detrator de Bolsonaro, iniciou uma ofensiva para combater a tese.

Diante das críticas na esquerda, o ex-governador tem respondido que preza o diálogo e conversa com quem for preciso, independentemente de partido. Ele frisa, contudo, que possui diferenças ideológicas com Bolsonaro e não tem proximidade com ele.

“Se nós tivermos a chance de poder fazer esse movimento em São Paulo, certamente a gente ajuda a mudar o Brasil. A gente vai mostrar que é possível conviver [governantes] completamente antagônicos. Não há problema nenhum”, disse nesta sexta, pregando respeito entre os diferentes.

Filho do candidato, o deputado estadual Caio França (PSB) reforçou ao microfone a retórica do pai. “Nem Márcio Cuba [apelido dado por Doria] nem Márcio Bolsonaro. Não é um nem outro. É Márcio França”, disse, responsabilizando indiretamente o PSDB pela campanha contra o ex-governador.

“Eles [tucanos] morrem de medo de enfrentar a gente no segundo turno. Eles vão fugir o tempo todos nos debates. Vão querer enfrentar o [Guilherme] Boulos [PSOL], o [Jilmar] Tatto [PT], para não ter que nos enfrentar”, afirmou o parlamentar.

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-governador Márcio França, pré-candidato a prefeito de São Paulo, durante encontro em São Vicente (SP).
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cumprimenta o pré-candidato a prefeito de São Paulo Márcio França (PSB), durante evento em São Vicente (SP) – Reprodução

O postulante do PSB reconheceu que terá um trabalho duro para fazer frente à força dos tucanos. Por ironia, a vitória de Doria, que renunciou em 2018 e deixou a cadeira para seu vice Covas, teve participação de França, que, à época aliado do PSDB, costurou acordos da candidatura tucana em 2016.

“Vamos ter muito trabalho. Eles não são crianças. É claro que eles não vão eles próprios falarem, eles vão botar algumas línguas de aluguel, aqueles bonecos de ventríloquo. Porque eu também não sou tatu, eu sei como eles fazem. Eles vão ajudar alguns candidatos, que vão fazer o papel de brigar com a gente.”

O ex-governador então citou o ataque a ele feito pela candidata Joice Hasselmann (PSL), na semana passada. O PSB foi à Justiça contra um vídeo postado pela deputada federal em que ela chama França de gângster e diz que ele pretende roubar caso se eleja. O juiz mandou Joice apagar o post.

“Do nada não foi, né? Ela está sob a orientação espiritual de alguma coisa ali passando perto do Morumbi”, comentou França, em alusão ao bairro onde fica o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Em outro momento, o ex-governador deixou claro que sua briga é com o PSDB e que pretende romper o ciclo de administrações tucanas no estado e na prefeitura. “Eles farão de tudo, tudo o que você pensar. E nós estamos preparados para isso.”

“Só há uma disputa aqui: é nós contra eles. O resto é tudo pinto, como a gente fala, é tudo pato. E eles [tucanos] vão tentar fugir, [mas] a gente tem que respeitar todo mundo”, completou, afirmando ter tido bom relacionamento com o ex-governador Mário Covas e se dar bem com seu neto e agora oponente.

França exaltou ainda a adesão à sua coligação do Solidariedade, partido que cogitou apoiar a candidatura de Bruno Covas. A aliança, anunciada nesta quinta-feira (10), se deu após o desentendimento da cúpula do partido com a ex-prefeita e ex-senadora Marta Suplicy, que se filiou à sigla no início do ano.

Marta queria que a legenda presidida nacionalmente pelo deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SP), endossasse o nome do PSDB. Ela chegou a ser cotada para a vaga de vice, mas, diante da recusa dos tucanos em aceitá-la na posição, o Solidariedade decidiu interromper a negociação.

A ex-prefeita anunciou o apoio a Covas, mesmo sem o aval da legenda, e deve se desfiliar do Solidariedade. O atual prefeito convidou Marta para coordenar uma frente suprapartidária que fará parte de sua campanha, atraindo nomes que não são filiados a partidos e apoiam sua reeleição.