Lupa na Ciência: Pesquisa sugere que asma não é fator de risco para a Covid-19

O que você precisa saber:

– Pesquisa publicada recentemente indicou que os asmáticos não correm maior risco de desenvolver quadros graves da Covid-19

– O estudo concluiu que a porcentagem de asmáticos com Covid-19 internados em hospitais era semelhante à taxa de asma na população de cada um dos países avaliados

– Em contrapartida, no caso da gripe sazonal – provocada pelo vírus influenza – a porcentagem de internados asmáticos era maior do que a da população como um todo, de acordo com dados dos últimos quatro anos nos Estados Unidos

– O estudo avaliou, também, quantos hospitalizados precisaram ser intubados em um hospital americano e constatou que os asmáticos não tinham mais intubações que os demais

– Os dados geraram controvérsia e os próprios autores reconhecem que ainda faltam evidências mais robustas para garantir que não há essa relação entre asma e quadros mais graves da doença causada pelo SARS-CoV-2

– Frente às dúvidas, diversas entidades seguem considerando asmáticos no grupo de risco, apesar das novas evidências

Uma pesquisa publicada no final de agosto na revista científica Annals of the American Thoracic Society concluiu que a asma não deve ser considerada um fator de risco para quadros graves da Covid-19. Pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, fizeram uma revisão de estudos internacionais sobre o tema publicados até o início de maio e descobriram que a porcentagem de pacientes asmáticos hospitalizados com a Covid-19 era semelhante à prevalência de asma na população em geral. Isso significa que a doença não aumentaria as chances de internação. Além disso, concluíram que, entre os hospitalizados, os asmáticos não tinham maior probabilidade de serem intubados, quando comparados aos demais pacientes.

As conclusões da pesquisa corroboram o que já havia sido indicado em um estudo publicado em fevereiro no European Journal of Allergy and Clinical Immunology. Na ocasião, pesquisadores chineses avaliaram os quadros clínicos de centenas de pacientes internados com a Covid-19 e não identificaram asmáticos entre eles. 

Essas conclusões, no entanto, estão longe de serem um consenso entre a comunidade científica. Entidades de saúde como o Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos seguem incluindo os asmáticos no grupo de risco, apesar das novas evidências. Em uma atualização publicada em 11 de setembro, o CDC reforçou que pessoas com asma moderada a grave podem ter maior risco de desenvolver quadros mais severos da doença provocada pelo novo coronavírus.

Aqui no Brasil, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia segue a mesma linha e afirma que “os portadores de asma, particularmente os classificados como formas graves, estão incluídos no grupo de risco para complicações” decorrentes da Covid-19. 

Na contramão, a Asthma and Allergy Foundation of America, uma organização não governamental americana para pesquisa na área, indica que não há evidências sobre um maior risco de infecção pelo novo coronavírus nem de severidade dos quadros da doença por pessoas com asma. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica apenas que “pessoas com doenças subjacentes, como as respiratórias crônicas, obesidade, diabetes ou câncer, têm maior risco de desenvolver quadros graves da Covid-19”.

Fator de risco para outras infecções virais

A asma é uma das doenças crônicas mais comuns em todo o mundo. Ela é caracterizada por uma hipersensibilidade nas vias respiratórias que, a partir de alguns estímulos como alterações climáticas, poeira e gripe, resulta em inflamações constantes na região dos brônquios, prejudicando a respiração. Como ela é considerada um fator de risco para a maioria das infecções respiratórias virais e bacterianas, foi incluída também para a Covid-19 logo no início da pandemia.  Só que, a partir da observação das características de pacientes internados em diferentes países, pesquisadores começaram a questionar se ela realmente poderia agravar os quadros da infecção pelo SARS-CoV-2.

Na pesquisa da Annals of the American Thoracic Society, o grupo de cientistas passou por duas etapas para chegar às conclusões. Inicialmente, realizou uma metanálise de 15 estudos de diferentes países sobre o predomínio da asma em pacientes hospitalizados com infecção confirmada pelo SARS-CoV-2 e comparou com as taxas de asmáticos na população de cada um dos países. A seguir, repetiu o mesmo com o vírus influenza, responsável pela gripe comum. Metanálise é uma metodologia que busca integrar os resultados de dois ou mais estudos realizados com uma mesma questão de pesquisa para chegar a uma conclusão única a partir de todos eles. 

O grupo viu que a proporção de pacientes com asma entre os hospitalizados com a Covid-19 era relativamente baixa e se equivalia, na maioria dos casos, às taxas de asmáticos na população de cada local avaliado. Em contrapartida, a partir de dados coletados nos últimos quatro anos nos Estados Unidos, identificaram que pessoas com asma representaram mais de 20% dos hospitalizados pela gripe sazonal. Esse número é significativamente mais alto que as taxas de asmáticos no país. De acordo com o CDC, cerca de 7,7% dos adultos e 8,4% das crianças têm asma por lá

Na segunda parte da pesquisa, os cientistas realizaram um estudo observacional – que analisa dados ​​coletados ao longo de determinado período de tempo – de 436 pacientes com Covid-19 internados no hospital da Universidade do Colorado e avaliaram a probabilidade de serem intubados. De acordo com os dados do hospital, os asmáticos não eram mais propensos à forma grave da doença, necessitando de internação em unidades de tratamento intensivo e intubação. Para chegar a essa conclusão, os autores levaram em conta fatores como idade, sexo e peso dos pacientes, que, se não considerados, podem interferir nos resultados.

“Embora a prevalência de asma seja variável entre os estudos publicados, ela tende, na média, a ser semelhante à prevalência da população e, certamente, muito menor do que seria esperado durante a gripe sazonal. Os resultados desse estudo sugerem que a asma não parece ser um fator de risco significativo para o desenvolvimento de quadros graves da Covid-19 que requerem hospitalização ou intubação”, concluíram os autores do estudo.

Mais estudos são necessários

A explicação para esse fenômeno ainda não é clara, mas os pesquisadores têm algumas hipóteses. Eles acreditam que asmáticos possuem uma expressão menor da enzima usada pelo novo coronavírus para infectar as pessoas. Já é sabido que o SARS-CoV-2 utiliza uma enzima específica do corpo humano, a ECA-2 (ou, em inglês, ACE-2), como uma “chave” para penetrar nas células e se multiplicar dentro delas. As regiões do organismo onde há maior expressão dessa enzima costumam ser as mais afetadas pelo novo coronavírus. Os pesquisadores supõem, também, que os inaladores com corticóides (bombinhas), usuais entre asmáticos, podem tornar mais difícil a entrada do vírus no organismo porque colaboram na redução dessa enzima nas vias respiratórias. Esse ponto é controverso. Um estudo publicado em julho na revista Nature, que buscou estimar quais os fatores associados a uma maior chance de morte pela Covid-19, apontou que a asma severa (definida como aquela que demandou o uso recente de corticoides), era um deles. 

Enquanto a comunidade científica não chega a um consenso sobre o assunto, os pesquisadores da Universidade do Colorado reforçam que as conclusões deles não significam que os asmáticos não possam vir a desenvolver quadros graves da Covid-19, e que esse grupo deve ter os mesmos cuidados que os demais. Além disso, explicam que a quantidade de evidências coletadas até o momento ainda não é suficiente para que se chegue a conclusões definitivas sobre o assunto. 

Fontes:

Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Informações disponíveis em:
https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/need-extra-precautions/asthma.html

Annals of the American Thoracic Society. Artigo disponível em:
https://www.atsjournals.org/doi/pdf/10.1513/AnnalsATS.202006-613RL

Organização Mundial da Saúde (OMS). Informações disponíveis em:
https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/coronavirus-disease-answers?gclid=Cj0KCQjwhvf6BRCkARIsAGl1GGhW0tVejwTeyXWPOwqJRhLAOPrSsFUrJ0VN2xeRmmKrlg4b0k5Sx80aAmBpEALw_wcB&query=asthma

Nature. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41586-020-2521-4

European Journal of Allergy and Clinical Immunology. Artigo disponível em:
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/all.14238

Nota: o projeto Lupa na Ciência é uma iniciativa da Agência Lupa contra a desinformação em torno do novo coronavírus e da Covid-19 e conta com o apoio do Google News Initiative. Para saber mais, clique aqui.

Philippa Willitts/Flickr

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