Lupa na Ciência: O que se sabe sobre as quatro vacinas contra Covid-19 já em teste em humanos

O que você precisa saber:

  • Quatro candidatas a vacinas contra o novo coronavírus estão em fases finais de testes: uma dos Estados Unidos, uma do Reino Unido e duas da China
  • Duas delas usam tecnologias já aplicadas em desenvolvimento de vacinas. As outras duas testam métodos inovadores, ainda não aprovados comercialmente
  • As empresas estimam que, em caso de resultados positivos, as quatro vacinas poderão começar a ser comercializadas no início do próximo ano
  • Os resultados, no entanto, ainda não são totalmente conhecidos. Somente os estudos de fase I da candidata americana e da inglesa foram publicados em revistas científicas de peso
  • A CoronaVac, da chinesa Sinovac, e a ChAdOx1 nCoV-19, desenvolvida pela Universidade Oxford com a farmacêutica AstraZeneca, estão sendo testadas no Brasil

Na última semana, a farmacêutica americana Moderna Therapeutics anunciou o início da terceira e última fase de exames clínicos para uma potencial vacina contra o novo coronavírus. Ela se somou às outras três iniciativas que já avançaram para essa etapa final: a parceria entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica britânica AstraZeneca, que desenvolve a ChAdOx1 nCoV-19, e a duas empresas chinesas – a Sinovac e a Sinopharm, que também estão trabalhando em vacinas contra a Covid-19. Algumas delas receberam o aval para avançar nas pesquisas mesmo antes da conclusão das etapas anteriores por causa da urgência em se achar uma forma eficaz de frear a pandemia. Esse é um dos motivos pelos quais as imunizações, que normalmente levavam décadas para serem desenvolvidas, estão avançando tão rápido neste momento. 

Para vacinas, os testes em humanos devem seguir três fases: na primeira, a segurança do produto e sua capacidade de estimular o sistema imunológico é testada em um número pequeno de pessoas. A fase II conta com centenas de voluntários de diferentes faixas etárias para avaliar o efeito em cada uma delas e reforçar os dados sobre segurança e eficácia. Na última fase, a vacina é dada a milhares de pessoas, sendo que metade recebe somente um placebo. É nesse momento que o potencial de proteção contra o patógeno é confirmado ou não. Todas essas etapas estão sendo cumpridas pelas empresas, porém algumas estão realizando os testes sobrepostos, ou seja, a fase I simultaneamente à II, ou a II ao mesmo tempo da III.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 23 candidatas a vacinas contra o SARS-Cov-2 sendo testadas em humanos. No entanto, somente essas quatro já alcançaram o último estágio de testes. As empresas estimam que, se os resultados se comprovarem positivos, as vacinas já poderão ser comercializadas no início do próximo ano. 

Moderna Therapeutics traz tecnologia inovadora

A americana Moderna Therapeutics recebeu autorização para avançar à etapa final dos testes com sua vacina contra o novo coronavírus na última semana. Dias antes, a empresa publicou os resultados da primeira fase de experimentos no The New England Journal of Medicine. Segundo a publicação, os testes confirmaram que os 45 voluntários do grupo desenvolveram imunidade para o novo coronavírus.

Chamada provisoriamente de mRNA-1273, esta vacina foi a primeira dentre as quatro mais avançadas a ter os resultados da primeira etapa publicados em uma revista científica de peso. Ela está sendo desenvolvida com uma plataforma de mRNA, ou seja, baseada em fragmentos da carga genética do vírus. Uma das características do SARS-Cov-2 é que ele é formado apenas por um RNA mensageiro, envolto em uma capa proteica. A vacina contém parte desse material genético, onde estão as instruções para produzir a proteína spike – responsável por ligar o vírus às células do corpo humano. De acordo com os estudos, o reconhecimento deste componente desencadeia uma resposta imune sem risco. 

A primeira fase de testes começou ainda em março. Os voluntários (todos entre 18 e 45 anos), receberam duas doses da vacina, com um período de 28 dias entre cada uma das aplicações. Eles foram divididos em três grupos, que receberam quantidades diferentes da imunização (25 microgramas, 100 microgramas, ou 250 microgramas). A resposta imunológica produzida e os efeitos adversos foram acompanhados por exames ao longo de todo o processo. Após a segunda dose, todos os voluntários apresentaram a produção de anticorpos neutralizantes – os mais importantes para a proteção contra uma infecção viral. Os voluntários dessa fase, e também das seguintes, continuarão sendo acompanhados. Isso é necessário para entender quanto tempo duram esses anticorpos e se a quantidade gerada de defesa é suficiente para criar células de memória contra o novo coronavírus.

Nesta primeira etapa, na qual se avalia a segurança do produto, foram reportados alguns efeitos colaterais leves em mais da metade dos voluntários. Entre eles estão cansaço, dor de cabeça, dor no local da injeção e dor muscular. Esses efeitos apareceram principalmente naqueles que receberam 250 microgramas da vacina. Essa dosagem foi excluída nas etapas seguintes de testes. Neste grupo, três pessoas tiveram efeitos mais severos, como febre alta. No entanto, a conclusão do estudo é que a mRNA-1273 se mostrou segura. 

Na segunda etapa, os exames estão sendo realizados com 600 voluntários nos Estados Unidos – incluindo pessoas com mais de 55 anos. As doses aplicadas são de 50 microgramas e 100 microgramas. Os resultados ainda não foram divulgados. Na última fase, aprovada para iniciar em 27 de julho, 30 mil voluntários saudáveis nos Estados Unidos serão vacinados. A metade deles receberá a dosagem de 100 microgramas, e a outra metade, placebo. Esta fase será iniciada mesmo antes do término da anterior. Se confirmado o efeito positivo da mRNA-1273, a empresa disse que poderá fornecer cerca de 500 milhões de doses da vacina anualmente a partir de 2021.

Universidade de Oxford tem a pesquisa mais avançada

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a vacina cujo desenvolvimento está mais avançado é a ChAdOx1 nCoV-19, da Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica britânica AstraZenecaEla começou a ser testada em humanos em abril, e os resultados das etapas I e II, que foram feitas simultaneamente, foram publicados nesta segunda-feira na revista The Lancet. 

Neste estudo, cerca de mil voluntários residentes na Inglaterra, saudáveis e com idades entre 18 e 55 anos, foram selecionados. Metade recebeu a dose de ChAdOx1 nCoV-19 e a outra metade, uma vacina contra meningite, que é comumente aplicada em jovens. Todos os participantes foram orientados a anotar possíveis sintomas da doença e/ou efeitos colaterais da vacina  em um diário. Exames de sangue foram realizados rotineiramente para avaliar se eles desenvolveram anticorpos contra a doença.  De acordo com os resultados publicados na The Lancet, a vacina foi capaz de ativar diferentes partes do sistema de defesa daqueles que receberam a ChAdOx1 nCoV-19, indicando que eles desenvolveram uma resposta imune eficaz contra o novo coronavirus. Isso, no entanto, só se confirmará com os resultados da última etapa. O estudo apontou, ainda, que não houve efeitos adversos graves, mas foram relatados sintomas leves como dor no local da injeção, calafrios e dor de cabeça.  Semanas antes dessa publicação, a instituição já havia sido autorizada a avançar para a fase final, em testes no Reino Unido, no Brasil e na África do Sul. Desde junho, 3 mil brasileiros estão recebendo a dose da imunização. 

O desenvolvimento desta vacina parte de um “vetor viral não replicante”. A ChAdOx1 nCoV-19 é fabricada a partir de uma versão enfraquecida do vírus do resfriado comum, que é modificado para não se reproduzir em humanos. Nele, é adicionado um fragmento do RNA do novo coronavírus, que contém as instruções para a produção da proteína spike. A ideia é fazer com que o corpo reconheça isso e desenvolva uma resposta imune à essa proteína, o que ajudaria a impedir que o SARS-CoV-2 entre nas células humanas e as infecte. 

Essa tecnologia já havia sido avaliada anteriormente em animais para outras síndromes respiratórias causadas por coronavírus, como SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio). Assim, já havia indicativos sobre a segurança do medicamento, então foi possível avançar mais rápido na pesquisa atual. Mas, até hoje, nenhuma vacina com essa tecnologia foi comercializada. De acordo com a Universidade de Oxford, se a eficácia na fase II for de, no mínimo, 70%, mesmo com os testes ainda em andamento, será possível registrar a vacina até o final do ano. Nesse caso, será solicitada uma autorização de emergência para a comercialização. Mesmo com tantas incertezas, a farmacêutica Astrazeneca já garantiu que irá produzir 30 milhões de doses da vacina.

Chinesa CoronaVac aposta em tecnologia antiga

Também sem publicar os resultados dos testes em humanos de sua pesquisa em revistas científicas de peso, a chinesa Sinovac já conseguiu avançar para a última etapa do estudo. Um dos países que recebe os testes é o Brasil, onde nove mil profissionais de saúde começam a receber as doses da CoronaVac nesta segunda-feira (20). 

A Sinovac já é conhecida por outras vacinas e entrou na corrida contra o novo coronavírus com uma tecnologia que domina há anos. A empresa aposta no uso do próprio vírus inativado para induzir o corpo a uma resposta contra o SARS-Cov-2. Comparada às tecnologias mais recentes, trabalhar com uma vacina “à moda antiga” tem a vantagem de ser um processo conhecido. Porém, esse método envolve um custo maior e mais esforço de logística. Ela demanda que o vírus seja cultivado em laboratório em grande escala e com segurança, e depois inativado por meio de uma série de processos químicos. 

A fase da inativação é importante porque garante que o vírus estará morto e não infectará quem recebe a dose. Contudo, isso também reduz a capacidade de induzir uma resposta no corpo do hospedeiro. Por isso, é necessária uma outra etapa, que consiste na adição de um coadjuvante na vacina: um composto à base de alumínio. Em artigo publicado na revista Nature no início de junho, especialistas explicam que essa substância ajuda a alertar o organismo sobre o invasor e a induzir a produção de altos níveis de anticorpos neutralizantes. 

Em meados de junho, a Sinovac divulgou um comunicado sobre as fases 1 e 2 de testes clínicos. A primeira foi realizada com 143 pacientes, e a seguinte com 600 voluntários – todos com idades entre 18 e 59 anos. Os estudos foram randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo. No anúncio, a empresa disse apenas que teve 90% de sucesso em induzir a produção de anticorpos neutralizantes nos voluntários, e que efeitos colaterais graves não foram registrados. 

Mas o que se sabe com mais detalhes sobre essa vacina vem dos estudos pré-clínicos, realizados com macacos. Os dados foram publicados no início de julho na revista Science e apontaram que os animais imunizados com as dosagens mais altas adquiriram uma proteção eficaz contra o novo coronavírus. Passadas duas semanas da última dose, não foi possível identificar fragmentos do vírus ou sinais de infecção em amostras coletadas no trato respiratório ou nos pulmões dos macacos imunizados e depois expostos ao patógeno. 

Detalhes importantes sobre a CoronaVac, no entanto, ainda não são conhecidos. Mesmo assim, a empresa chinesa está construindo uma instalação para fabricar até 100 milhões de doses da vacina anualmente.

Vacina da Sinopharm vem de parceria com os Emirados Árabes Unidos

O China National Biotec Group (CNBG), integrante da farmacêutica estatal chinesa Sinopharm, também entrou recentemente na última fase de estudos para uma vacina contra a Covid-19. Os testes são conduzidos em Abu Dhabi, em parceria com o Grupo 42 (G42), empresa de inteligência artificial e computação em nuvem, e o Departamento de Saúde da cidade. 

Na terceira fase, até 15 mil voluntários serão recrutados nos próximos meses, em Abu Dhabi. Segundo os pesquisadores, a empresa escolheu essa região porque há pessoas de cerca de 200 nacionalidades diferentes residindo lá. Os voluntários serão divididos em diferentes grupos, que vão receber diferentes doses da vacina e também um placebo. 

Essa vacina também se baseia na tecnologia já conhecida que usa uma versão inativada (morta) do vírus que causa a doença. Estudos anteriores já mostraram que uma das desvantagens desse tipo de imunização é que ele normalmente não oferece uma proteção tão forte como a das vacinas vivas atenuadas, que usam uma forma enfraquecida do patógeno. Por isso, em muitos casos, é necessário tomar mais de uma dose para que se desenvolva, de fato, imunidade. Esse é o caso da vacina contra a meningite B, desenvolvida com a mesma tecnologia. A vantagem é que os efeitos colaterais tendem a ser mais leves ou inexistentes, já que se trata do vírus morto. 

Não há muitas informações sobre os resultados das fases iniciais, que aplicaram diferentes doses em mais de mil pessoas. O governo de Abu Dhabi afirmou, em um comunicado, que, nas duas primeiras etapas, 100% dos voluntários que receberam as doses com intervalo de 28 dias geraram anticorpos imunizantes contra o novo coronavírus. A empresa estima que, se aprovada, a vacina estará disponível no mercado até o início de 2021. 

Ainda restam dúvidas sobre proteção a curto e longo prazo

Apesar das boas notícias sobre o avanço dos estudos relacionados às vacinas contra o novo coronavírus, especialistas alertam que ainda há dúvidas importantes a serem respondidas sobre o grau de eficácia delas. A primeira: ainda não se sabe por quanto tempo uma pessoa curada da Covid-19 ou que desenvolveu anticorpos com vacina permanece imune – ou seja, não se sabe se essa pessoa está vulnerável a uma segunda infecção. A segunda diz respeito às mutações do vírus. Já se sabe que ele se tornou mais infeccioso, mas não é possível estimar se as mudanças interferem na eficácia das vacinas, que, em sua maioria, estão sendo desenvolvidas a partir das primeiras versões que circularam do SARS-Cov-2. 

Também não há informações concretas sobre como será a distribuição dessas vacinas, caso a comercialização seja aprovada. Valores a serem cobrados e países que terão preferência para receber as doses comercialmente ainda são incógnitas. Uma ação global chamada Covax Facility, que envolve 165 países, pretende garantir acesso global, rápido e igualitário às vacinas contra o novo coronavírus. O projeto é uma parceria da entidade com a Aliança Global para Vacinas e Imunização (Gavi), fundação criada por Bill Gates para combater epidemias, e a Coalização para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi). A meta é distribuir 2 bilhões de doses pelo mundo até o final de 2021, mas alcançar esse objetivo depende da aprovação dos produtos e da negociação com as empresas que fabricarão as vacinas. 

Fontes:

Organização Mundial da Saúde (OMS)
https://www.who.int/news-room/feature-stories/detail/standardization-of-vaccines-for-coronavirus-disease-covid-19

The New England Journal of Medicine. Artigo disponível em:
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2022483

Revista Nature. Artigo disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41577-020-0358-6

Revista Science. Artigo disponível em:
https://science.sciencemag.org/content/early/2020/05/06/science.abc1932

Com Agências