Livro revela que Trump minimizou intencionalmente gravidade da pandemia

Presidente afirma que sabia que Covid-19 era mais mortal do que gripe comum, mas que não quis criar pânico

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu em entrevistas para o jornalista Bob Woodward que escondeu intencionalmente da população americana a gravidade do coronavírus.

As declarações do republicano foram divulgadas nesta quarta-feira (9) pelo jornal The Washington Post e pela rede de TV CNN. Ambos os veículos tiveram acesso antecipado ao novo livro de Woodward, “Rage” (raiva), que tem lançamento programado para a próxima semana.

Woodward é um dos mais respeitados jornalistas da história americana, conhecido principalmente por ter revelado, ao lado de Carl Bernstein, o escândalo de Watergate.

A série de matérias sobre o caso feita pela dupla para o Washington Post entre 1972 e 1974 acabou por levar o então presidente americano, Richard Nixon, à renúncia.

O presidente Donald Trump discursa durante comício de sua campanha de reeleição em Winston Salem, na Carolina do Norte
O presidente Donald Trump discursa durante comício de sua campanha de reeleição em Winston Salem, na Carolina do Norte – Sean Rayford – 8.set.20/Getty Images/AFP

Na obra a ser publicada, o veterano repórter diz ter conversado com o presidente no dia 7 de fevereiro. Dez dias antes, Trump tinha sido informado por seus assessores que a situação era gravíssima, revela o livro.

“Você apenas respira o ar, e é assim que [o vírus] se dissemina”, disse o presidente a Woodward. “Então isso é muito complicado. Isso é muito delicado. É também algo muito mais mortal do que uma gripe forte. Isso é mortal”, completou Trump na ligação —o aúdio do trecho foi divulgado pelos dois veículos.

Na mesma época, porém, Trump afirmava em público que a pandemia não era tão grave e que a Covid-19 não era mais perigosa que a gripe comum. Em 26 de fevereiro, em viagem à Índia, o republicano afirmou que o número de novos casos de coronavírus nos EUA “em poucos dias vão cair para próximo de zero”, mesmo sabendo que a situação ainda ficaria mais grave.

Mais de um mês depois da entrevista anterior, em 19 de março, os dois voltaram a conversar. Na ligação, Trump revelou que a situação era mais grave do que pensava.

“Agora está sendo revelado que [atinge] não apenas pessoas idosas, Bob. Só hoje e ontem alguns fatos vieram à tona. Não são só idosos”, disse Trump sobre quem eram as vítimas da Covid-19. “Pessoas jovens também, muitas pessoas jovens”, completou o presidente americano.

Na sequência do diálogo, o republicano defendeu suas ações. “Eu sempre quis minimizar [a pandemia]”, disse Trump, segundo o livro. “Eu ainda prefiro minimizar, porque não quero criar pânico.”

Foi só no fim de março que o presidente começou a mudar de tom sobre a pandemia e passou a alertar publicamente a gravidade da situação, embora por vezes de maneira errática.

Woordward ainda revela na obra que no dia 28 de janeiro o republicano teve uma reunião no Salão Oval da Casa Branca para debater a situação do coronavírus.

O subconselheiro de segurança nacional, Matthew Pottinger, disse no encontro que informações vindas da China —então epicentro da pandemia— indicavam que o coronavírus era uma emergência tão grave quanto a gripe espanhola, que deixou cerca de 50 milhões de mortos em 1918.

“Essa será a maior ameaça à segurança nacional que você vai enfrentar em sua Presidência. Isso será a coisa mais difícil que você vai enfrentar”, disse a Trump o conselheiro de segurança nacional, Robert O’Brien, de acordo com o livro, na reunião.

Woodward disse que entrevistou Trump 18 vezes durante a realização da obra, incluindo as ligações telefônicas. Todas as conversas foram gravadas com autorização do presidente.

Na última delas, em julho, o presidente afirmou que não tinha respondabilidade sobre o que aconteceu e voltou a culpar Pequim pela crise sanitária. “O vírus não tem nada a ver comigo. Não é minha culpa. É [culpa] da China deixar o vírus escapar.”

O livro inclui ainda detalhes da cúpula do governo, incluindo uma série de críticas ao presidente feita por antigos auxiliares. A lista inclui o ex-secretário de Defesa James Mattis, o ex-secretário de Estado Rex Tillerson e o ex-diretor de inteligência nacional Dan Coats.

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