Líbano depende da ajuda internacional para nova reconstrução após 30 anos, diz professor libanês

De acordo com o professor e vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), Ali Houssein El-Zoghbi, a tragédia que deixou mais de 100 mortos e aproximadamente quatro mil feridos na capital libanesa demanda um trabalho semelhante ao feito em 1990.

“Entendo que é possível, sim, fazer um plano estratégico para o Líbano, similar a planos que já foram feitos pós-guerra e isso [é] de uma maneira responsável, […], que seja um projeto de sustentação definitiva para o Líbano e que coloque isso na mão de pessoas isentas e responsáveis. O Líbano tem muita gente que pode assumir talvez essa responsabilidade”, disse à Sputnik Brasil.

Descendente de libaneses, El-Zoghbi relembrou que o Líbano vivia um momento muito grave antes mesmo da tragédia, com “uma crise econômica sem precedentes na história, mesmo durante a guerra civil que aconteceu há algum tempo atrás”.

“Essa crise econômica estava provocando uma situação de penúria, de miséria, uma situação bastante drástica, as pessoas com dificuldade de conseguir alimento, emprego, as questões de infraestrutura libanesa que já era bastante precária acabou se agravando, e somando-se a isso nós tivemos a ocorrência impressionante, porque é uma imagem bastante forte, e além disso nós temos centenas de pessoas, milhares de pessoas feridas e ainda estamos contabilizando os mortos”, prosseguiu ele.

O vice-presidente da FAMBRAS reforçou que as explosões em Beirute tiveram um significado singular à comunidade libanesa no Brasil, uma vez que ele estima haver 12 milhões de descendentes libaneses em solo brasileiro, ante os cerca de 6 milhões de habitantes do Líbano – dois grandes fluxos migratórios de libaneses foram registrados no começo e em meados do século XX.

Atualmente, o Líbano conta não só com libaneses, mas também com parcelas importantes de refugiados sírios, que fogem da guerra civil que já dura nove anos, e de refugiados palestinos, que começaram a povoar o país no final dos anos 1940, pelos reflexos das disputas entre israelenses e árabes – o que veio a desembocar na guerra civil libanesa, em 1975.

Para El-Zoghbi, como em eventos trágicos na região em um passado não muito distante, é preciso a participação da comunidade internacional para resolver os aspectos imediatos.

“A infraestrutura libanesa, não é de hoje, é bastante precária, as questões de energia, de água, de saneamento, então são eu diria caminhos que podem ser traçados aí nesse momento a médio prazo, porque a curto prazo realmente é suprir a população com alimentos, com insumos hospitalares, com especialistas na área médica para poder fazer frente a esse momento tão difícil”, avaliou.

A suspeita principal acerca das explosões é a presença da substância nitrato de amônio, altamente inflamável, em um depósito na região portuária de Beirute. Os primeiros indícios já indicam que pode ter existido negligência, e os donos do local já foram presos a pedido das autoridades libanesas. O professor ouvido pela Sputnik Brasil apoia a rápida identificação dos responsáveis.

“A gente lamenta muito o ocorrido e sabemos sim que não é possível que uma situação como essa não tenha responsáveis. Acho que, acima de tudo, os critérios de lidar com esse tipo de componente químico foram totalmente negligenciados e isso é fato, não há como se discutir isso. Obviamente que deve haver um inquérito, uma apuração. O que a gente imagina é que esse inquérito possa coibir situações similares que possam estar acontecendo no Líbano e em outros locais, e ao mesmo tempo impedir que situações como essa aconteçam no futuro”, concluiu ele.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

Segundo a Cruz Vermelha do Líbano, pelo menos 100 pessoas morreram em consequência de uma forte explosão que aconteceu no porto de Beirute nesta terça-feira (4). O número de vítimas pode aumentar ainda mais, pois muitas pessoas ainda estão sob os escombros.

Os danos são avaliados em bilhões de dólares e a tragédia será uma prova de resistência para a economia libanesa, pois o principal porto do país foi totalmente destruído com todos os produtos armazenados no local.

O governo do país já anunciou que os estoques nacionais de grãos devem durar somente até o final do mês e o comércio do produto não será mais realizado no varejo. Especialistas libaneses, consultados pela Sputnik Árabe, confirmam que o país vive uma situação dramática.

Perdas e danos

O economista libanês Bassem Ajaqah destacou que os prejuízos econômicos da tragédia podem ser divididos em dois grupos principais: infraestrutura e produtos.

“Os prejuízos à infraestrutura ou prejuízos diretos se referem a todos os valores móveis e imóveis danificados ou destruídos durante a explosão. Nessa categoria incluímos a completa destruição do porto de Beirute. Segundo os nossos cálculos, o valor será muito superior a US$ 100 milhões [R$ 529 milhões]”, disse Ajaqah à Sputnik Árabe.

O especialista também destacou a destruição irrecuperável de outros produtos armazenados no local, o que deve afetar a economia nacional.

“Prejuízos, em primeiro lugar, se referem à destruição completa de estoques de produtos, farinha e grãos. Podemos incluir aqui problemas logísticos de transporte dos produtos no futuro, pois o porto da capital recebia e embarcava até 70% de todos os produtos nacionais”, afirmou o economista.

A catástrofe também provocará o fechamento de empresas que ficavam localizadas nas instalações destruídas, ou que dependiam delas. Assim, milhares de pessoas perderão o emprego.

Por outro lado, alertou a economista Marwa Othman, Líbano não tem condições econômicas de reconstruir a cidade e a economia do país.

“Segundo dados preliminares, a reconstrução da capital vai custar US$ 30 bilhões [R$ 159 bilhões] aos cofres públicos. Acredito que essa cifra pode aumentar em algumas vezes. A cidade precisará ser reconstruída do zero. A escala da catástrofe, como podem ver, é impressionante. Líbano não consegue lidar com isso sozinho. Precisamos muito de ajuda, e o mais rápido possível. A explosão deixou o Líbano à beira do abismo”, disse a entrevistada.

Problema maior do que parece

Líbano importa mais de 70% de matéria prima e de produtos para sua economia. Após a explosão, o principal “hub” logístico do país está em ruínas. Compensar essa perda a curto prazo será praticamente impossível.

O Ministério do Transporte anunciou na noite desta terça-feira (4) que um grande volume dos produtos agora será fornecido através do porto de Trípoli, na Líbia. No entanto, as capacidades do porto do país vizinho não são grandes. Segundo Bassem Ajaqah, as cargas também podem ser enviadas por Porto de Said no Egito e porto de Tiro no Líbano. No entanto, essas medidas não solucionam os problemas econômicos e logísticos.

“Mesmo se toda a carga puder ser distribuída entre os portos em Trípoli, Tiro e Said, as complicações serão inevitáveis. Em primeiro lugar, essas alterações demandam muitos recursos e tempo. Em segundo lugar, a capacidade desses portos não é grande. Isso significa que os volumes de importações no Líbano ficarão seriamente reduzidos. Em consequência, o país vai perder muito dinheiro”, explicou o economista.

Por outro lado, Marwa Othman acredita que Líbano não possui recursos no momento para implementar mudanças em sua cadeia produtiva.

“Entendam bem, o nosso Estado está na bancarrota. Mesmo sem uma explosão em Beirute, o Ministério do Transporte não teria condições de realizar manobras logísticas desse tipo. Agora, menos ainda”, disse a especialista.

Crise de abastecimento

O Líbano não possui uma produção agrícola suficiente para abastecer o país, em função das particularidades geográficas e climáticas. O porto de Beirute acumulava a função de depósito de grãos e outros produtos alimentícios. Em função da tragédia desta terça-feira (4), o país vive sério risco de desabastecimento.

“Infelizmente, temos todos os motivos para acreditar que o Líbano está chegando no mesmo nível de 1912, o ano de mais fome na história do país, quando centenas de pessoas morriam por inanição e não tinham meios para subsistência. Líbano não tem recursos para administrar a situação da segurança alimentar e ninguém vai fornecer grãos ou farinha de graça. Suspeito que outros produtos alimentícios também ficarão em falta logo”, alertou Marwa Othman.

Para a economista, o país não vai conseguir se manter em pé sem ajuda da comunidade internacional para reconstruir a infraestrutura da capital e fornecer produtos de primeira necessidade.

“Devemos reconhecer que Líbano está à beira de uma catástrofe humanitária. O governo deve, sem demora, solicitar ajuda aos vizinhos e às organizações internacionais. O país pode simplesmente não sobreviver aos meses necessários para a reconstrução da cidade”, concluiu.

Rua do bairro Mar Mikhael, na capital libanesa, Beirute, após fortes explosões atingirem a zona portuária da cidade

Gostou deste blog? Por favor, compartilhe :)

https://jornaltijucas.com.br/feed/
Seguir por E-mail
YOUTUBE
Leitores On Line