‘Kubrick por Kubrick’ refuta clichês sobre o diretor de ‘2001’

  • Onde Exibição na Mostra Play (plataforma online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
  • Produção França/Alemanha, 2020
  • Direção Gregory Monro

A obra de Stanley Kubrick é feita de, pelo menos, duas camadas. De um lado, está a sucessão instigante de filmes, produzidos em ritmo pausado e com resultados nunca menos que espetaculares.

De outro, emerge o mito do artista, a figura do Kubrick recluso, do maníaco perfeccionista, da celebridade avessa ao culto, o que em certa medida intensifica a ideia de uma obra densa, que requer “explicações”.

Entre as duas camadas, a crítica se manteve oscilante.

A obsessão pelo nome, pela substância-autor, nos impele a sondar a personalidade, como se ali se ocultasse seu segredo, a chave capaz de abrir todas as portas.

A variedade, sobretudo de gêneros, da condensada filmografia de Kubrick estimula a busca de solução para o “mistério”, como se a personalidade do autor, sua biografia, fosse um aval para as interpretações.

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O maior mérito de “Kubrick por Kubrick”, que está em exibição na 44ª edição da Mostra de São Paulo, é não pretender abarcar toda a amplitude da obra nem reiterar o status de mito de seu criador.

Há, certamente, reverência e admiração, mas aqui, ao contrário de tantos outros documentários sobre cineastas, a criação recebe atenção maior do que o criador.

O ponto de partida do trabalho de Gregory Monro são as entrevistas que o crítico francês Michel Ciment realizou ao longo de anos com Kubrick e que estão reunidas no livro “Conversas com Kubrick”, lançado em 2013 pela editora Cosac & Naify.

Monro usa os áudios desse material e compila vídeos em que o cineasta aparece dirigindo, além de alguns depoimentos pré-existentes de seus colaboradores.

Logo no início do documentário, Kubrick esclarece sua aversão a entrevistas, alegando que, quando o artista declara suas intenções, a expressão artística perde aquilo que a torna singular, a multiplicidade de significados.

Dentre os colaboradores, as evocações que Malcolm McDowell faz de seu trabalho em “Laranja Mecânica” são decisivas para relativizar algumas ideias prontas acerca do método kubrickiano.

Desse modo, o filme de Monro se torna mais do que a versão audiovisual do livro de Michel Ciment.

Sua construção não se baseia só em exemplos que reiteram as declarações de Kubrick em resposta às indagações exímias do crítico francês.

Ou seja, se reafirma que não há um Kubrick final, absoluto, mas muitos Kubricks.

Assim como não há uma “verdade verdadeira” nas leituras que a crítica faz dos filmes, só ângulos que ajudam a ver o que pode não ter sido visto.

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