‘Jamais faria manipulação’, diz responsável por dados de queimadas do Inpe após fala de Mourão


Vice-presidente afirmou nesta terça-feira (15), sem citar provas, que ‘alguém’ no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais faz ‘oposição’ ao governo do presidente Jair Bolsonaro e prioriza a divulgação de dados negativos sobre queimadas. Vista aérea de área queimada na Amazônia, perto de Apuí, no Amazonas, no dia 11 de agosto.
Ueslei Marcelino/Reuters
O pesquisador Gilvan Sampaio, responsável pela área de Ciências da Terra à qual o monitoramento de queimadas é ligado, disse que “jamais faria manipulação de dados” após o vice-presidente Hamilton Mourão afirmar, sem citar nome ou provas, que “alguém” no Inpe que faz “oposição” ao governo do presidente Jair Bolsonaro e prioriza a divulgação de dados negativos sobre queimadas.
De acordo com o cientista, na sexta-feira (11) o Inpe enviou um esclarecimento ao gabinete do vice-presidente após ele negar incêndios na Amazônia.
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“Sou servidor de carreira do Inpe e jamais faria manipulação de dados. O Inpe enviou na sexta um esclarecimento ao gabinete do vice-presidente. Como ele falou isso hoje, acredito que ainda não tenha chegado até ele”, disse o pesquisador, que ao assumir o cargo disse que não aceitaria manipular dados.
Gilvan assumiu o posto deixado pela pesquisadora Lubia Vinhas em julho. O Inpe foi procurado, mas informou ao G1 que não irá comentar a fala do vice-presidente.
Queimadas na Amazônia
Cido Gonçalves/G1
Acusação de esvaziamento
O vice-presidente do Sindicato Nacional de Gestores em Ciência e Tecnologia (SindCT), Fernando Morais, aponta que a acusação do vice-presidente Mourão deixa claro que existe uma tentativa de esvaziamento do Inpe.
“O entendimento do Sindicato, que é também o da maioria dos servidores, é que existe um projeto de desmonte do Inpe. De extinção nas funções de satélite, de desmatamento, enfim. Querem desmontar o Inpe para que não haja contestação das coisas que eles querem fazer”, disse Fernando.
Ele considera infundada a acusação de uso de dados científicos para fins políticos.  “Pesquisador do Inpe, no geral, não quer saber de política. Eles sabem que a política não é a praia deles. Eles querem fazer ciência. São apolíticos. Não têm envolvimento. Não estão usando para fazer política nem politicagem. Estão defendendo a ciência e u instituto de ciência internacionalmente reconhecido”, disse.
‘Contradição’
Na semana passada, Mourão reclamou sobre os dados do Inpe ao ser questionado a respeito de uma reportagem do jornal “O Globo”, que mostrou que o instituto detectou que o número de focos de calor registrados na Amazônia entre 1º de janeiro e 9 de setembro deste ano foi o maior para o período desde 2010 – 56,4 mil, alta de 6% em relação ao mesmo período de 2019.
Mourão disse que o Inpe estava “se contradizendo”, já que os dados que ele recebeu indicavam redução nas queimadas. Entretanto, os dados citados por Mourão cobriam um período mais curto que o informado na reportagem: entre 1º de janeiro e 31 de agosto.
“Eu vi essa notícia ali que você está comentando e digo, ora, pô, então está em desacordo com o que eles mesmos me mandam”, disse Mourão.
Em agosto, o sistema de monitoramento do Inpe indicou que a Amazônia teve 29.307 registros de queimadas. Houve uma queda de cerca de 5,2% em relação a agosto do ano passado, quando foram registrados 30,9 mil focos de calor.
O número, entretanto, foi 12,4% maior que a média histórica registrada para o mês, que é de 26.082 focos, e o segundo maior registrado desde 2010.
As queimadas na Amazônia continuam mesmo depois de um decreto do Ministério do Meio Ambiente (MMA) publicado no dia 16 de julho (e que começou a valer na mesma data), que suspendeu por 120 dias o uso de fogo em ambos os biomas.
O texto diz que a proibição se aplica “no território nacional”, apesar de determinar que “ficam autorizadas as queimas controladas em áreas não localizadas na Amazônia Legal e no Pantanal, quando imprescindíveis à realização de práticas agrícolas, desde que autorizadas previamente pelo órgão ambiental estadual”.
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