Impeachment: vice-governador conversa com deputados sobre saída de Witzel

RIO – Ex-chefe de gabinete do deputado estadual Márcio Pacheco (PSC), o vice-governador Cláudio Castro circula com facilidade por corredores e salas do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Na última terça-feira, porém, preferiu a discrição do centro administrativo da Casa, na Rua da Alfândega 8. Os cuidados com a privacidade encontram explicação no motivo da visita: Castro começou a negociar acordos com deputados, a serem honrados caso venha a assumir o governo fluminense com um possível impeachment de Wilson Witzel.

Oficialmente, as idas do vice à Alerj servem para “distensionar o ambiente”, de modo a reduzir o risco de impeachment e “tentar salvar o cara”, como gosta de repetir, mostrando sempre seu agradecimento pela confiança do governador desde as eleições de 2018. Mas não foi esse o tema do encontro de terça-feira com os deputados estadual Bruno Dauaire (PSC) e federal Wladimir Garotinho (PDS) no sexto andar do prédio da Alfândega.

Depois de rejeitar o convite de Witzel para ser líder do governo na Alerj, Dauaire cobrou apoio de Castro para se fortalecer no Norte Fluminense, especialmente em Campos dos Goytacazes, onde disputa espaço com os deputados João Peixoto (DC) e Rodrigo Bacellar (Solidariedade). Dauaire, que desistiu de defender Witzel na Casa após levar um pito do ex-governador Anthony Garotinho, que o apoia em Campos, quer que a máquina estadual o ajude em sua base eleitoral. Como o nome mais cotado para assumir a liderança na Alerj de um eventual governo de Cláudio Castro é o do deputado Márcio Pacheco, um de seus padrinhos políticos, Dauaire não nutre esperanças de ter esse papel.

Procurados, o vice Cláudio Castro e o deputado Bruno Dauaire não quiseram comentar o encontro.

Dossiês da inteligência

Como gosta de circular no ambiente político, Castro não consegue fugir de inevitáveis pedidos dos que apostam na sua investidura. Um deles já teria reivindicado uma secretaria. Tido como um personagem discreto, Castro é visto por parte dos deputados que apostam no impeachment como uma pessoa simpática, mas que ainda não deu provas de ter pulso para assumir um governo cercado de crises. Interlocutores do vice desconfiam que setores da área de inteligência estariam preparando dossiês contra Castro, especialmente com foco na Fundação Leão XIII, entidade assistencialista sob controle da vice-governadoria.

No ano passado, o Departamento de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DGCOR-LD) da Secretaria de Polícia Civil promoveu, em parceria da Controladoria Geral do Estado (CGE) e do Ministério Público do Rio, a Operação Catarata, para cumprimento de sete mandados de prisão temporária e 19 de busca e apreensão com o objetivo de apurar a prática dos crimes de associação criminosa, fraudes licitatórias contra a administração pública, falsidade ideológica e crimes conexos envolvendo contratos da fundação.

A operação correspondeu a um dos poucos momentos no qual Castro abandonou o conhecido autocontrole para reclamar de gente do próprio governo. Para ele, a CGE, de onde partiram as informações para a Catarata, se preocupou muito mais em “fazer espetáculo” do que em agir tecnicamente.

Dias tensos

Os dias têm sido tensos para Castro. Ao mesmo tempo em que precisa demonstrar solidariedade ao governador, honrando o perfil de conselheiro discreto, o vice se esforça para transmitir confiança aos interlocutores. Além do desafio de superar a imagem de um político pouco expressivo, ele enfrenta um problema pessoal: uma gagueira que só dá trégua quando ele canta músicas religiosas — Castro, assim como Márcio Pacheco, é músico e evangelizador ligado ao movimento católico Canção Nova.

Advogado, de 41 anos, Castro, assim como Pacheco, teve no Detran-RJ, então comandado pelo hoje deputado Hugo Leal, o início da sua vida pública. Em 2004, foi chefe de gabinete de Pacheco na Câmara Municipal e depois o seguiu na Alerj, acumulando 12 anos na função. Com a ascensão política do padrinho e o desempenho como cantor, Castro se elegeu vereador em 2016. Dois anos depois, foi escolhido para compor a chapa com Wilson Witzel pelo interesse da campanha de atrair o apoio do ex-prefeito de Nova Iguaçu Nelson Bornier, um dos caciques do PSC de Castro.

No ano e meio de governo, procurou portar-se como um conselheiro de Witzel. Admite a amigos, contudo, que nem sempre é ouvido porque o governador prefere “agir como juiz”, deixando-se levar pelas próprias convicções.

No início do mês, os problemas de Castro aumentaram quando viu Pacheco ser denunciado pelo Ministério Público por prática de “rachadinha”. Um experiente deputado estadual, porém, garante que não há motivos para preocupações: “Ele não precisa fazer nada , o governo vai cair no colo dele”. Na música, “Nossa vitória”, uma parceria com Pacheco, Castro entoa que “o Senhor reservou uma vitória pra nós; nos ouviu do mais alto dos céus; Ele nos preparou pra batalha final”.

Com Agências