Imóveis decorados virtuais remodelam lógica de lançamentos no setor imobiliário

Depois da onda de incertezas por conta da pandemia do novo coronavírus, o setor imobiliário celebra aquecimento e vê com otimismo a retomada. De acordo com a terceira edição da pesquisa “Covid-19: impactos e desafios para o mercado imobiliário”, realizada pela BRAIN Inteligência Corporativa em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), 22% das pessoas que pensavam em adquirir um imóvel efetivaram a compra em junho, superando março em 6 pontos porcentuais. Das 554 empresas entrevistadas, 36% afirmaram que a compra ocorreu durante a pandemia.

Alguns fatores contribuíram para o quadro positivo, como a queda da taxa Selic e a migração de investidores do mercado de ações, mas também o fato de o setor ter abraçado ferramentas de realidade virtual para atrair o público. Durante uma live de divulgação dos resultados do levantamento, Carlos Petrucci, economista-chefe do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), ressaltou os lançamentos virtuais como um legado da pandemia para o futuro, prevendo híbridos de plantões de vendas físicos e digitais. A digitalização das empresas de construção e incorporação, que se intensificou com o distanciamento social, torna-se essencial para que o setor se ajuste aos novos tempos.

Professor do curso de arquitetura e urbanismo da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Roberto Fialho diz que as ferramentas de simulação já faziam parte da rotina da profissão, mas têm evoluído muito e cada vez mais rápido.

“(São) ferramentas de software que permitem a imersão do observador no espaço e com a possibilidade de experienciar diversas situações de luminosidade, opções de mobiliário e configurações da construção como, por exemplo, a remoção de paredes e aberturas diferentes”, diz. Para ele, as possibilidades digitais oferecem uma flexibilidade muito grande em relação à “imobilidade” do apartamento-modelo físico.

Projeto de decoração virtual produzido pelo estudioZAR. Foto: Projeção digital

Com a função de um protótipo, segundo Fialho, a unidade decorada proporciona a experiência do espaço, das dimensões e da funcionalidade do imóvel, vivência que mesmo os desenhos arquitetônicos mais humanizados não permitem.

Para ele, a realidade virtual cumpre bem o papel. Ainda que após a pandemia haja quem prefira a experiência do ambiente construído, ele acredita que os decorados virtuais vieram para ficar. “Da mesma forma como o trabalho remoto, tratado como um tabu antes da pandemia e que hoje virou o sonho de consumo da maioria”, compara.

Sócios do estudioZAR, os arquitetos David Arias e Nelson Kabarite criaram em abril o Quarantine Project, desenvolvendo projetos em realidade virtual a partir da planta baixa do imóvel. Como resultado, conquistaram clientes em lugares tão diversos como São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Bolívia e Ushuaia.

“Os renders em 3D já ajudam bastante, mas a realidade virtual termina de fechar a noção do espaço para o cliente”, relata Arias, que hoje vê os decorados virtuais como o passo de maior precisão possível antes da vivência in loco.

Lançamentos 100% em realidade virtual

É neste cenário que empresas como a Neorama, especializada em narrativas audiovisuais arquitetônicas, entram como peça-chave para o setor. Com a restrição dos modelos tradicionais de visitas, a empresa apostou em um sistema de realidade virtual que recria digitalmente o estande de vendas, permitindo que o cliente final se movimente em tempo real pelo projeto.

Elaborados por arquitetos de interiores, os decorados virtuais seguem o mesmo nível de detalhamento e especificações técnicas dos antecessores físicos. A partir do estudo do público-alvo, definem-se acabamentos, marcenaria, mobiliário, paletas de cores, tecidos, iluminação, composições de elementos decorativos e até a linha de skin care a ser colocada na bancada do banheiro.

Desde seu lançamento, em maio, a Neorama já fechou cinco projetos com grandes incorporadoras de São Paulo e no Sul do País. Segundo Sabrina Lapyda, gerente de marketing e novos negócios da empresa, o maior número de possibilidades oferecido pela realidade virtual, como diferentes modelos estéticos e simulação das áreas comuns, torna a modalidade atraente para as incorporadoras.

Apartamento decorado em realidade virtual pela Neorama. Foto: Projeção digital

A economia é outra vantagem, aponta ela: dependendo da metragem e da quantidade de decorações e funcionalidades, uma virtualização representa de 10% a 15% do orçamento de um decorado físico. “Raramente se constrói mais de um apartamento decorado e, uma vez construído, dificilmente tem como voltar atrás, ele trazendo resultado ou não.”

Ela prevê que a visita exclusivamente virtual ainda substitua a presencial a curto e médio prazos e continue a fazer sentido a longo prazo para empreendimentos menores ou voltados a investidores. Nos demais perfis, o decorado virtual tende a se tornar uma nova etapa da jornada de compra.

“Por mais que traga benefícios como economia de tempo, autonomia e experiências que não são possíveis no real, não existe ainda nenhum feature na ferramenta capaz de reproduzir a sensação de estar fisicamente no ambiente”, analisa.

Focada em projetos de alto padrão em regiões nobres da capital paulista, a incorporadora Yuni vendeu 58 unidades de 17 de março para cá. “O tour virtual contribuiu como uma das principais ferramentas”, conta o gerente comercial e de novos negócios Fabrício Costa. Das 30 mil visitas mensais no site da empresa, 80% estão relacionadas a pesquisas por apartamentos e o tour é o item mais clicado.

O executivo diz que os decorados virtuais devem se perpetuar não só pelo custo mais acessível e caráter atemporal, já que não têm prazo de demolição, mas também por serem mais sustentáveis. “Poupamos insumos e materiais quando deixamos de construir elementos físicos”, explica. “Ainda que tenhamos o plantão de vendas e em alguns casos até mesmo o decorado físico, o virtual coexistirá sempre em nossos empreendimentos e, em alguns casos, o plantão poderá ser 100% virtual.”

Com Agências

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