Ideb das 100 melhores escolas públicas de SP é maior do que o das particulares; 92 são técnicas, de aplicação e federais


Análise segundo o nível socioeconômico de mais de 170 escolas públicas mostra que Ideb médio das escolas com maior proporção de estudantes de baixa renda é 0,5 ponto mais baixo do que as com mais alunos ricos. São Paulo não bate todas as metas do IDEB
O Ideb médio das 100 melhores escolas públicas de São Paulo (6,5) é mais alto do que o Ideb das escolas particulares do estado (6,1) e do que o da média das estaduais, (4,3). Os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foram divulgados nesta terça-feira (15) e mostram que o ensino médio de São Paulo tem um dos quatro maiores índices de qualidade do Brasil.
Entre as escolas que ajudaram o estado a se manter entre os melhores do país, há alguns aspectos em comum: todas têm orçamento diferenciado e política robusta de formação continuada de professores. Além disso, a maioria ainda realiza vestibulinho como forma de selecionar os melhores estudantes.
O Inep calculou para 2019 o Ideb de 2.778 escolas públicas de ensino médio. Entre as 100 escolas públicas com o indicador mais alto, apenas oito não são escolas técnicas ligadas ao Centro Paula Souza, do governo estadual, as chamadas Etecs, ou escolas de aplicação ligadas a universidades públicas, ou institutos federais.
Para efeito de comparação, a meta do governo federal é que o Brasil chegue a 2021 com Ideb de 5,2. Em 2019, o indicador ainda estava em 4,2.
Etecs, ranking e pandemia
A rede de Etecs, a mais numerosa de ensino técnico do estado, com 189 mil estudantes de ensino médio e ensino técnico em 223 unidades, domina o ranking do Ideb no estado e também detém as posições mais altas na capital.
Segundo Lucília Guerra, diretora do Centro de Capacitação Técnica, Pedagógica e de Gestão do Centro Paula Souza, o segredo do repetido sucesso das unidades pode ser resumido em alguns fatores:
organização curricular adequada ao perfil profissional que o Centro Paula Souza pesquisa no mercado;
interesse dos jovens;
acompanhamento próximo das escolas e do rendimento dos alunos, para “prevenir alguma situação de falta de aproveitamento”;
formação continuada dos cerca de 17 mil professores e professoras.
Etec de Pirassununga, no interior de SP
Etec de Pirassununga/Divulgação
“Investir nesse grupo de profissionais é fundamental para garantir a qualidade”, afirmou Guerra. Durante a pandemia, por exemplo, mais de 13 mil docentes passaram por formação para conseguirem se adaptar ao retorno das aulas de forma remota, explicou ela.
Além disso, o Centro Paula Souza fez uma licitação para contratar plano de internet com 20Mb de velocidade para 22 mil estudantes, e adotou uma plataforma de ensino remoto capaz de gravar as aulas para permitir que eles não perdessem conteúdo devido á conexão lenta.
Para ter acesso a esses recursos gratuitamente, porém, é preciso fazer uma prova classificatória. “Infelizmente não temos vagas para todos os alunos interessados, então fazemos uma classificação. Mas não é processo excludente”, explicou a professora.
Segundo ela, 90% dos estudantes que entram nas Etecs estudavam antes na rede pública, e o Centro Paula Souza oferece online materiais didáticos para a preparação gratuita de quem tem interesse em estudar lá.
Etec Deputado Salim Sedeh, de Leme (SP)
Gustavo Gonçalves/Etec Deputado Salim Sedeh
Apesar disso, a existência de uma prova já coloca as Etecs em uma posição privilegiada em relação às demais escolas públicas, que não podem recusar matrículas.
De acordo com Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), esse tipo de filtro, por exemplo, consegue achar, dentre as famílias de renda mais baixa, quais são os e as estudantes que já têm um desempenho escolar acima da média da rede pública.
Impacto socioeconômico no ensino
Uma análise do Ideb feita pela TV Globo levando em conta o perfil socioeconômico de mais de 170 escolas mostra que, nas 33 com a maior proporção de estudantes de família de baixa renda, a média do Ideb do ensino médio em 2019 foi 4,9. Já nas 30 escolas com família de mais alta renda, essa média sobe para 5,4.
Os dados levam em conta as escolas que tiveram tanto Ideb 2019 calculado quanto foram incluídas no Indicador do Nível Socioeconômico (Inse) divulgado pelo Inep em 2015.
Cadeiras de sala de aula em escola pública de SP
Bárbara Muniz Vieira/G1
O Inse é calculado com base no perfil das famílias de quem estuda em cada escola. Ele leva em conta informações como a escolaridade da mãe e do pai, além de outras características da família que constituem o que especialistas chamam de “bagagem cultural”, ou seja, uma formação que cada criança ou adolescente recebe dentro de casa.
Especialistas indicam, por exemplo, que o nível de escolaridade da mãe tem uma das relações mais impactantes no aprendizado de um estudante: quanto mais anos a mãe tiver estudado, melhor seu filho ou filha aprende na escola.
Perfil socioeconômico das escolas
Levando em consideração que algumas escolas têm desafios de ensino maiores que outras, justamente por causa do perfil de seus estudantes, o cruzamento dos dados do Ideb com o nível socioeconômico permite encontrar, entre as escolas com maior proporção de alunos de baixa renda, quais estão obtendo resultados positivos.
Uma delas é a Escola Estadual Professor Fabio Fannuchi, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A notícia de que a escola conseguiu fazer seu Ideb do ensino médio subir de 4,2 em 2017 para 5,2 em 2019 pegou a comunidade de surpresa.
Segundo a professora Kelly Aparecida Esteves de Carvalho, diretora da escola, o resultado superou as expectativas.
“Eram dois terceiros anos que fizeram a prova, e eles teoricamente falaram que a prova foi fácil”, contou a professora ao SP2.
“E a gente se assustou com o nível de que a prova foi fácil. E a gente estava muito ansioso com esse resultado”, celebrou ela.
Além da EE Professor Fabio Fannuchi, outras 11 escolas com nível socioeconômico mais baixo conseguiram um Ideb 2019 no ensino médio de pelo menos 5, ou seja, um índice maior do que a média do estado, e também do país.
Segundo Ernesto Martins Faria, analisar os resultados do Ideb sempre exige uma contextualização. “O Ideb por si é uma medida de sucesso dos alunos, se estão aprendendo e se estão sendo aprovados. Não é uma medida que indica necessariamente o nível de eficácia da escola e das redes de ensino. Por isso, como sabemos da influência de fatores extraescolares nos resultados, é importante olhar outros indicadores, sendo um dos mais importantes o nível socioeconômico dos alunos, que contextualiza as oportunidades educacionais que os alunos possuem fora da escola.”

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