Hospitais de campanha do Rio têm atraso de salários e desmonte inacabado que preocupa moradores

Em meio às denúncias de corrupção na saúde do Estado, três hospitais de campanha continuam trazendo dor de cabeça para funcionários e sociedade. Após serem foco de denúncias que culminaram no afastamento do então governador Wilson Witzel (PSC), as unidades de saúde do Maracanã, Zona Norte do Rio, e de São Gonçalo, na Região Metropolitana, ainda enfrentam problemas. Na primeira, funcionários não receberam os salários de agosto. Na segunda, partes da estrutura desmontada acumulam lixo e são foco de mosquistos. Já no Hospital de Campanha da Prefeitura do Rio, no Riocentro, que segue em funcionamento, funcionários da limpeza estão sem receber há meses.

— Já estamos desde maio sem receber. Ficamos numa siutação muito complicada, porque temos família em casa e não temos dinheiro nem para comprar comida. Meu marido ficou desempregado, eu sem salários. Estamos contando com a ajuda de amigos, parentes e colegas de trabalho para ter almoço na mesa todos os dias. Estamos trabalhando na esperança de ter os pagamentos acertados logo, porque se não vamos cruzar os braços e aíquero ver como fica. Ninguém deve trabalhar sem receber, não somos escravos de ninguém — conta um funcionário, sem se identificar.

Segundo a Secretaria municipal de Saúde do Rio, os salários serão regularizados nos próximos dias: “O pagamento dos salários do pessoal da limpeza é responsabilidade da empresa terceirizada pela qual são contratados e, segundo informação da referida empresa, não é verdade que estejam atrasados desde maio. A empresa terceirizada já foi comunicada, inclusive, sem manifestar qualquer intenção de paralisar os serviços prestados na unidade de saúde”.

O hospital do Riocentro segue em funcionamento com 300 dos 500 leitos originais e, segundo a prefeitura, não há previsão de desmobilização da estrutura até o fim da pandemia. Nesta quarta-feira, 114 pacientes estão internados na unidade, sendo 67 em leitos de UTI e 47 em enfermaria. Ainda de acordo com a prefeitura, “a unidade dispõe dos insumos e medicamentos necessários aos cuidados dos pacientes internados”. A RioSaúde, que administra a unidade, destaca que “os salários dos profissionais estão em dia e foram pagos no quinto dia útil deste mês, dentro do prazo”.

Operários durante construção do Hospital de Campanha do Riocentro, em março

Operários durante construção do Hospital de Campanha do Riocentro, em março Foto: Divulgação / Prefeitura— Já tivemos salários atrasados na troca de gestão. Mas é egoísta pensar só no meu lado. Não consigo lidar e forma natural com um colega que não recebe seu pagamento para levar comida para casa no fim do dia. Roubam tanto e desvalorizam a saúde em um momento de pandemia. É inacreditável — conta um enfermeiro, sem se identificar.

Em São Gonçalo, lixo e mosquitos

A desmobilização do hospital de campanha de São Gonçalo está em curso, segundo a Secretra estadual de Saúde. Com os mobiliários e equipamentos sendo retirados aos poucos, moradores do entorno reclamam que os restos de equipamentos deixados no local estão servindo como depósito de água parada e foco de proliferação de mosquitos.

— Ficamos muito preocupados. Tem muitos fios, peças de ar condicionado, entulhos e restos de madeira que acabam acumulando água. Com isso, aumentou a quantidade de mosquitos no entorno. Temos medo de doenças, como dengue, por exemplo. Deus me livre um surto de sengue junto com a Covid-19 — afirma uma moradora.

De acordo com a secretaria, a previsão é que na próxima semana a desmobilização do hospital seja concluída.

Na unidade do Maracanã, funcionários contam que não receberam o salário de agosto. A unidade continua aberta em cumprimento de uma decisão judicial, com um plantão de 15 profissionais por turno para o caso de transferência de pacientes com Covid-19. Segundo a secretaria, até o momento esta transferência não foi necessária, por haver vagas em unidades da rede hospitalar regular. A pasta informou também que não há pacientes internados no local.

Sobre o pagamento de salários, a secretaria informa que, em 30 de julho, fez o repasse de R$ 5,9 milhões para o Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT-1) para o pagamento dos salários de junho dos funcionários dos hospitais de campanha do Maracanã e de São Gonçalo diretamente aos trabalhadores, sem passar pela conta do Iabas, OS que gerenciava as unidades. Com relação ao mês de julho, foi da mesma forma. “O pagamento de agosto dos profissionais que a Fundação Saúde requisitou após assumir a operação dos hospitais será feito esta semana”.

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