Giro Rosa 2020 comprova: o ciclismo feminino merece respeito e destaque

Enquanto a versão feminina do Tour de France (chamada La Course) ainda mantém um vergonhoso formato de uma única etapa — quase como um favor da UCI às “tadinhas” das ciclistas profissionais –, o Giro Rosa ao menos oferece um espetáculo mais decente à incrível geração de mulheres do World Tour, o ranking das melhores atletas mundiais.

A 31ª edição da prova, organizada para ser a versão “rosa” do Giro d’Italia, começa hoje (11 de setembro) e vai até o dia 19, com nove etapas e diferentes tipos de percurso, para desafiar as competidoras e selecionar as maiores ciclistas do mundo.

A holandesa e monstra da bike Annemiek Van Vleuten, no Giro de 2019 (Foto: Flaviano Ossola/Divulgação)

Alguns adjetivos acima até podem parecer pesados, mas já não dá mais para aguentar. O ciclismo feminino vem protagonizando batalhas épicas em estradas, pistas, pump tracks e trilhas. Porém ainda ocupa lugar inferior, em horários ingratos, cobertura pobre da mídia e descaso dos dirigentes que organizam provas.

É verdade que, nos últimos anos, as mulheres da bike ganharam destaque — muito por força e união das próprias ciclistas, entre elas o mito holandês Marianne Vos, que arregaçaram as mangas das jerseys para que eventos como o La Course acontecessem.

O próprio Giro Rosa passou por um “rebranding”: até 2013 era conhecido como Giro Donne e só em 2016 (!!) se tornou parte do World Tour da UCI, a federação internacional que rege o esporte.

Entretanto ainda é pouco. O ciclismo feminino evoluiu lindamente e merece maior respeito de toda a comunidade ciclística — até mesmo das mulheres que curtem esporte, que muitas vezes não assistem a provas e não procuram conhecer quem são as ciclistas e equipes mais valentes dos pelotões profissionais.

Imagem da etapa 10 do Giro Rosa 2019 (Foto: Flaviano Ossola/Divulgação)

O Giro Rosa é a competição por etapas mais longa do calendário da UCI, mas mesmo assim ainda recebe pouca atenção. Neste ano, por exemplo, haverá apenas highlights diários da prova na Eurosport. Um avanço, na verdade, se comparado aos anos anteriores, porém ainda decepcionante. Se o Giro d’Italia (que neste ano acontece entre 3 e 25 de outubro) é transmitido por TVs do mundo todo, incluindo o Brasil, por que não podemos ver o Giro Rosa na íntegra?

Em termos de emoção, a competição feminina será sensacional neste ano, com duas etapas terminando com subida e montanha, outra de contra-relógio em equipe (hoje) e muitos momentos de adrenalina e superação.

Etapa de 2019 do Giro Rosa, de Gemona del Friuli até Malga Montasio (Foto: Flaviano Ossola/Divulgação)

Além do percurso, que vai totalizar 975 km e passar por regiões cinematográficas como Toscana, Puglia e Umbria, outra grande atração será o duelo pelo título de campeã.

A holandesa Annemiek van Vleuten tem provado nos últimos tempos que é uma das ciclistas (entre homens e mulheres) mais guerreiras de sua geração. (Duvida? Então assista aos episódios da minissérie What It Takes no YouTube, que mostra bem a dedicação dessa gigante da bike.)

Van Vleuten venceu o Giro Rosa em 2018 e 2019, consagrou-se campeã mundial de estrada no ano passado e só não levou a medalha de ouro nos Jogos do Rio porque teve um acidente horrendo na descida da Vista Chinesa (tem lá no YouTube também).

A holandesa adora vencer de modo épico, fugindo do pelotão principal e chegando à frente de todas por muitos minutos. É emocionante ver seu pedalar elegante e a facilidade com que deixa suas concorrentes para trás.

Annemiek van Vleuten com a maglia rosa de lider do Giro 2019 (Foto: Flaviano Ossola/Divulgação)

Outra holandesa, Anna van der Breggen (que levou o ouro nas Olimpíadas do Rio), é mais um nome fortíssimo. Aliás, a batalha entre as duas em diversas competições tem se tornado atração à parte para quem adora uma boa briga em duas rodas.

A campeã australiana Amanda Spratt também vai dar o sangue para tentar roubar o título das holandesas. A italiana Elisa Longo Borghini sempre mostra seu talento na estrada, e seria maravilhoso uma vitória local para a alegria de um país que sofreu bastante com a pandemia do coronavírus.

E, claro, haverá Marianne Vos, minha ciclista preferida de todos os tempos, que não está em seu auge, mas que pedala de forma magnânima. Um ícone insuperável, mesmo que não suba no pódio.

Por que é importante citar alguns nomes de ciclistas mulheres profissionais aqui? Para que mídia, organizadores de prova, público e toda a comunidade perceba que já temos estrelas consagradas do esporte. E que queremos o mesmo espaço que os eventos masculinos.

Já passou da hora de isso acontecer, e ainda causa revolta ter de repetir o mesmo discurso em pleno ano de 2020.

Viva o Giro Rosa! E viva o ciclismo feminino!