Gafanhoto, grilo, esperança, louva-a-deus ou bicho-pau? Veja como diferenciar esses insetos


Especialistas auxiliam nas características; teste seus conhecimentos! Na grande maioria dos insetos citados, ausência de informações reflete reflete a necessidade de estudos desses animais de forma mais abrangente
César Favacho/Acervo Pessoal
Inseto grande, camuflado, de apetite voraz e que habita grande parte do Brasil. Se você conhece todos os animais que compõem o título dessa reportagem sabe que apenas essa breve descrição não é suficiente para ajudar na identificação de quem estamos falando. Coloração, tamanho das antenas, formato do corpo, padrões alimentares e até os hábitos são características que ajudam a distinguir esses animais. O Terra da Gente conversou com especialistas em gafanhotos, grilos, esperanças, louva-a-deus e bichos-pau que auxiliaram na definição desses elementos.
Gafanhotos
Sons provocados pelos gafanhotos provêm do atrito de pernas e asas e estão relacionados, entre outras funções, com a aproximação sexual
César Favacho/Acervo Pessoal
Caso ouça falar sobre uma nuvem de insetos se aproximando, entre as opções acima, certamente, a aglomeração será de gafanhotos. Embora tenham hábitos solitários, algumas espécies desses animais podem formar grandes grupos para se deslocar e devoram tudo pela frente. E não fazem isso em silêncio, pois costumam produzir um som fruto do atrito entre as pernas com as asas ou as asas batendo entre si.
É nas pernas posteriores robustas que adquirem a capacidade de saltar, uma característica comum entre gafanhotos, grilos e esperanças. Ao contrário dos “colegas”, porém, os gafanhotos possuem antenas curtas, apresentam os tímpanos, um par de órgãos auditivos, no primeiro segmento do abdome e seu órgão para depositar os ovos também é menor.
Na foto, a seta destaca o local onde está o tímpano dos gafanhotos no primeiro segmento do abdome
Kátia Matiotti/Acervo Pessoal
Esses animais diurnos possuem mais de sete mil espécies no mundo todo e aproximadamente 875 no Brasil. Embora sejam temidos pelo apetite, a pesquisadora taxonomista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Dra. Kátia Matiotti, especialista em gafanhotos, afirma que são eles e seus “colegas” quem sofrem as maiores pressões.
“Existem quatro problemas globais que levam à extinção de insetos: perda de habitat, desmatamento, expansão da agricultura e poluição, especialmente via pesticidas e fertilizantes”, explica ela que ressalta a importância ecológica dos gafanhotos como alimentos para uma série de outras espécies e como desfolhadores naturais.
Grilos
Grilos se alimentam de carcaças e frutas e habitam de forma abundante a Mata Atlântica
César Favacho/Acervo Pessoal
As pernas saltadoras e as antenas mais longas são alguns dos elementos já citados que aproximam e diferenciam grilos de gafanhotos. Nesses animais famosos pela vocalização, o som também é uma forma de distingui-los. Produzido por machos adultos, o “cricricri” serve para atrair as fêmeas e ocorre de forma predominante no período noturno, ao contrário do que acontece com gafanhotos, que são diurnos.
A maneira com que esse chamado é gerado também ajuda a diferenciá-lo. É o que explica o professor do Departamento de Entomologia do Museu Nacional, Pedro Souza Dias, especialista nesses insetos: “nos grilos e esperanças o som é produzido pelas asas anteriores. Para fazer um sinal acústico esse animal precisa abrir e fechar as asas para sair o som”, define.
Como grilos não são mestres na camuflagem e são totalmente inofensivos costumam se esconder sob troncos, galhos e tocas quando ameaçados
César Favacho/Acervo Pessoal
A forma com que descansam as asas também é especial: sobrepõem a direita sobre a esquerda, ao contrário de esperanças que as recolhem lateralmente. O corpo mais “achatado” e as cores mais opacas e escuras, como marrom ou preto, também são elementos de exclusividade de grande parte dos grilos.
Esperança
Esperanças se dividem em pouco mais de sete mil espécies no globo, todas ausentes de venenos ou tóxicos
César Favacho/Acervo Pessoal
Se você já pensou que um animal fosse uma folha, provavelmente esteve diante de uma esperança. Esses insetos, em sua maioria verdes e muito bem camuflados em plantas ou líquens, possuem o corpo mais cilíndrico do que seus parentes e também são donos de antenas superiores ao tamanho de si mesmos.
Assim como os grilos, as esperanças produzem sons friccionando uma asa à outra, mas, como já explicado, descansam esses membros de forma diferente. Se alimentam de plantas, frutos e flores, mas há famílias predadoras capazes de devorar gafanhotos ou até mesmo outras esperanças.
Esperanças são determinantes nas teias alimentares compondo a dieta de pequenos mamíferos (como morcegos e macacos) e até aves e répteis
Marcos Fianco/Acervo Pessoal
Segundo o especialista nesses animais, Marcos Fianco, doutorando na Universidade Federal do Paraná (UFPR), embora o Brasil seja o país mais rico em diversidade desse grupo animal, poucas pesquisas envolvem o inseto. “Temos uma enorme lacuna de conhecimento em quase todo o território. Em meu trabalho, registrei 87 espécies de esperanças para o Parque Nacional do Iguaçu e quando publicá-lo será a maior fauna local conhecida para o Brasil”, exemplifica.
Louva-a-deus
Louva-a-deus possuem o primeiro par de perna “raptorial”, ou seja, adaptado para agarrar e subjugar a presa
César Favacho/Acervo Pessoal
Ao contrário de grilos, esperanças e gafanhotos, os louva-a-deus pertencem a outra ordem animal e, por isso, não possuem as típicas pernas saltadoras. Adquiriram, porém, um membro determinante: uma espécie de braço coberto de “espinhos” com músculos muito fortes, capazes de agarrar e capturar as presas. Diante de uma mudança tão brusca na aparência, há diferenças marcantes no cardápio desses animais também.
De acordo com o biólogo especialista em louva-a-deus, César Favacho, os animais são predadores vorazes capazes de comer até mesmo os indivíduos da mesma espécie. “Naturalmente comem tudo que conseguem subjugar, mas geralmente se alimentam de insetos e aracnídeos menores. Existem alguns registros de louva-a-deus comendo até pequenos anfíbios, lagartos ou aves (como beija-flores)”, define.
Com tamanhos variados, Brasil é o país com a maior diversidade conhecida de louva-a-deus no continente americano
César Favacho/Acervo Pessoal
Como na maioria das espécies apenas os machos possuem asas, se tornam, em maioria, totalmente dependentes da área onde ocupam. Nesses ambientes, ao contrário dos outros seres, não se escondem: permanecem imóveis ao menor sinal de presa ou predador. Outra diferença está na cabeça triangular e extremamente flexível dos louva-a-deus, o que lhes garante a possibilidade até de “olhar por cima dos ombros”, como define o especialista.
Bicho-pau
Esta impressionante espécie de bicho-pau recebe o nome científico de ‘Ceroys cristatus’
Divulgação Projeto Phasma/Arquivo Pessoal
Também donos de sua própria ordem dentro da classe dos insetos, os bichos-pau são animais com mais de três mil espécies no mundo, sendo pouco mais de 200 delas habitantes do Brasil. Tamanho grande, corpo delgado, cores camufladas e alimentação à base de plantas são alguns dos atributos desse grupo, mas a confusão com os “amigos” é inevitável.
Apesar do corpo alongado e da aparência de galho, o especialista nesses insetos Edgar Blois Crispino, mestrando do museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que uma estratégia para os distinguir é observar que a cabeça é mais arredondada e a boca é posicionada sempre a frente dos olhos. Ao contrário de louva-a-deus, esses animais não possuem as pernas dianteiras com “espinhos” e, se diferenciando de grilos, esperanças e gafanhotos, não possuem pernas traseiras com a capacidade de saltar.
Os bichos-paus têm grande importância ecológica já que ajudam a compor a base da cadeia alimentar de vários outros animais e também auxiliam no controle de crescimento das plantas
Divulgação Projeto Phasma/Arquivo Pessoal
“Bichos pau também não produzem som (como os gafanhotos, grilos e esperanças) e são exclusivamente herbívoros (diferentemente dos Louva Deus)”, destaca o especialista. Pacatos e inofensivos, os bichos-pau podem apenas secretar uma substância mal cheirosa em caso de ameaça. Dependem tanto do ambiente onde vivem que algumas espécies são capazes de desaparecer diante da ausência de algum tipo de planta. Processos como esses são estudados pelo Projeto Phasma, no qual Edgar Crispino atua.
Os pesquisadores responsáveis por cada um dos grupos de insetos citados; na ordem: gafanhoto, bicho-pau, louva-a-deus, esperança e grilo
Kátia Matiotti, Edgar Crispino, César Favacho, Marcos Fianco e Pedro Souza Dias/Acervo
Teste seus conhecimentos sobre os insetos
Gafanhoto, grilo, esperança, louva-a-deus ou bicho-pau?
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