Filme de Ai Weiwei mostra como China controlou lágrimas na pandemia


Londres
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The New York Times

Em janeiro deste ano a cidade chinesa de Wuhan se tornou a primeira do mundo a entrar em lockdown para combater a pandemia de coronavírus. Esse período crucial continua sob muitos aspectos um mistério. Poucas imagens escaparam do controle dos censores.

Um novo filme do artista e ativista chinês Ai Weiwei veio ajudar a preencher um pouco dessa história ausente. Mesmo que agora esteja vivendo na Europa, Weiwei, trabalhando remotamente, dirigiu dezenas de voluntários na China para criar “Coronation”, um retrato do lockdown draconiano imposto a Wuhan —de um país capaz de mobilizar recursos enormes, sob um custo humano muito alto.

“O público precisa entender que este filme é sobre a China”, disse Weiwei em entrevista telefônica. “Sim, é sobre o lockdown do coronavírus, mas é um esforço para refletir o que chineses comuns vivenciaram.”

Mesmo tendo cometido erros iniciais, a China conseguiu controlar a pandemia melhor do que muitos outros países, tendo tido 4.700 mortes, em comparação com mais de 177 mil nos Estados Unidos. O Partido Comunista fez tudo o que pôde para reprimir manifestações de tristeza ou revolta, mas seus esforços ainda contam com amplo apoio público.

O filme reflete essa história mais ampla, com vinhetas que acompanham os fatos em ordem cronológica. Começa em 23 de janeiro, com um casal dirigindo numa noite de neve, voltando para casa em um subúrbio de Wuhan, e termina em 8 de abril, com cenas de pessoas queimando cédulas de dinheiro –uma oferenda tradicional aos mortos– numa esquina.

O que vemos entre esse começo e esse fim são cenas e histórias notáveis por nos proporcionarem um acesso raro ao aparato do Estado chinês.

Há imagens de um hospital sendo construído em questão de dias e um vislumbre interior de uma UTI, além de cenas de profissionais da saúde sendo premiados com uma filiação ao Partido Comunista e funcionários de um crematório amassando sacos de cinzas humanas para os fazer caberem dentro de urnas.

A impressão geral, especialmente na primeira meia hora do filme, é de uma eficiência espantosa.

Equipes de trabalhadores fixam salas pré-fabricadas umas às outras com parafusos; máquinas buzinam e vibram nas UTIs. Os novos membros do partido prestam juramento com o punho direito erguido, e os funcionários do crematório trabalham tanto que reclamam de dores nas mãos.

À medida que o filme avança, os custos humanos vão ficando mais aparentes. Um funcionário voluntário que terminou a sua tarefa não pode sair da zona de quarentena, então dorme em seu carro num estacionamento fechado. Pessoas choram seus mortos inconsolavelmente no crematório, e um homem briga para ter o direito de receber a urna com as cinzas de seu pai, sem a presença de agentes do governo —algo que as autoridades não permitem porque têm medo que o luto se converta em um sentimento de revolta com o governo por ter deixado o vírus sair de controle.

Mesmo sendo conhecido como artista principalmente por suas grandes instalações, Weiwei já investigou questões sensíveis na China em filmes anteriores, incluindo um documentário sobre um homem que assassinou seis policiais em Xangai e outro sobre o porquê de tantas escolas terem desabado no terremoto de 2008 em Wenchuan.

“Eu tinha uma equipe que podia começar a trabalhar prontamente”, afirmou o cineasta, falando da criação de “Coronation”. “O pessoal nem precisou perguntar o que eu queria.”

Além de voluntários e de profissionais pagos, ele disse que teve a ajuda de sua mulher, Wang Fen, que tem irmãos que vivem em Wuhan. “Ela tem um envolvimento profundamente emocional com a história”, ele explicou.

As imagens mais difíceis de filmar foram as feitas no interior de uma UTI, segundo Weiwei. Mas ele não pôde divulgar como foram feitas e disse que boa parte do trabalho foi feito com câmeras de vídeo do tamanho de um smartphone, seguradas nas mãos e que são capazes de estabilizar imagens.

O fato de tantas pessoas estarem usando máscaras ajudou –graças a isso, elas tiveram menos receio de falarem para a câmera.

Weiwei contou que acumulou quase 500 horas de imagens. Ele e sua equipe editaram e cortaram tudo para criar um documentário de aproximadamente duas horas de duração.

O filme está disponível nos Estados Unidos pelo Alamo on Demand e em outras partes do mundo no Vimeo on Demand. Weiwei disse que sua primeira esperança era que o longa fosse visto primeiro num festival de cinema, mas os festivais de Nova York, Toronto e Veneza acabaram recusando “Coronation”, que também foi rejeitado pela Amazon e pela Netflix.

A impressão do cineasta é que isso se deve ao fato de muitos desses festivais e empresas quererem fazer negócios com a China, de modo que procuram evitar tópicos que possam desagradar a Pequim. Outros diretores chineses dizem que isso é comum.

O Festival Internacional de Cinema de Veneza se negou a comentar o assunto. O Festival de Cinema Independente de Toronto e a Amazon não responderam a telefonemas e emails. Outros negaram que considerações políticas tenham influído sobre sua decisão.

Uma porta-voz da Netflix disse que a empresa está criando seu próprio documentário sobre o vírus, e um assessor de imprensa do Festival de Cinema de Nova York disse querer “deixar claro que pressões políticas não exercem e nunca exerceram um papel na seleção de filmes do festival”.

Weiwei disse que o filme indica como os sucessos tecnocráticos da China criam um desafio grande para as sociedades abertas.

O capitalismo de Estado chinês possibilitou décadas de crescimento econômico acelerado e ajudou a tirar dezenas de milhões de chineses da pobreza absoluta.

“Mas o importante não é só a eficiência com que você toma decisões, mas também o que você contribui para a sociedade humana”, comentou ele. “A China não tem respostas a dar nesse quesito.”

Segundo ele, em vez de oferecer ao mundo um modelo de como governar, a resposta chinesa ao vírus revela um país cada vez mais nervoso e fragilizado. Por exemplo, disse Weiwei, nas cenas em que as pessoas vão buscar as cinzas de seus entes queridos, o espectador deve notar que todas as pessoas de roupa branca e equipamento de proteção pessoal completo que estão no segundo plano são membros de organizações do Estado, que estão ali para assegurar que as expressões de tristeza não saiam de controle.

“A China tem a visão muito clara de que uma vez perdido o controle, sobrevém o caos”, afirmou Weiwei. “O país não tem raízes para se estabilizar porque não possui organizações não governamentais. Tem apenas o governo.”

Tradução de Clara Allain


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