Facebook vai vetar propaganda política na reta final das eleições nos EUA


San Francisco
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Reuters

O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, anunciou nesta quinta-feira (3) que a maior rede social do mundo vai suspender a publicação de anúncios políticos na semana que antecede as eleições nos Estados Unidos.

A medida faz parte de um plano de ações da empresa que, segundo Zuckerberg, tem como objetivo a redução de riscos de desinformação e de interferência eleitoral.

“Isso certamente se aplicará ao presidente [Donald Trump] assim que essa política entrar em vigor, e se aplicará a todos igualmente”, disse o fundador do Facebook, em entrevista à emissora americana CBS News.

Trump concorre ao segundo mandato à frente da Casa Branca, disputando com o democrata Joe Biden, ex-vice-presidente durante o governo de Barack Obama.


Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, durante depoimento a congressistas americanos em Washington
Erin Scott – 23.out.19/Reuters

Em um comunicado publicado no Facebook, Zuckerberg disse estar preocupado com os desafios que as pessoas podem enfrentar ao votar.

“Também estou preocupado que, com nossa nação tão dividida e os resultados das eleições levando dias ou até semanas para serem finalizadas, possa haver um risco maior de agitação civil em todo o país”, escreveu.

Zuckerberg disse que o Facebook está realizando “a maior campanha de informações sobre votos da história” dos EUA com o objetivo de ajudar 4 milhões de pessoas a se registrarem para votar. Nos EUA, o voto não é obrigatório.

Segundo o comunicado, em três dias, o Facebook gerou quase 24 milhões de cliques em sites de registros de eleitores. Junto com sua esposa, Priscilla Chan, Zuckerberg disse que doou US$ 300 milhões (R$ 1,6 bilhão) a organizações não partidárias que apoiam estados a fortalecerem sua infraestrutura de votação.

Além do bloqueio de propaganda política na semana final da campanha eleitoral, Zuckerberg anunciou medidas como a criação do Centro de Informações sobre Votação, disponível no Facebook e no Instagram. A plataforma incluirá tutoriais em vídeo sobre como votar por correio e sobre prazos para registro e votação em cada estado americano.

O Facebook também anunciou parcerias para reprimir a desinformação no contexto eleitoral. A primeira delas é com funcionários dos órgãos de registro e votação para remover informações falsas ou incorretas sobre o pleito. A segunda é com um grupo formado pelas principais emissoras dos EUA e com a agência de notícias Reuters para fornecer informações confiáveis ​​sobre os resultados das eleições.

“Se algum candidato ou campanha tentar declarar vitória antes que os resultados sejam divulgados, adicionaremos um alerta à sua postagem informando que os resultados oficiais ainda não foram publicados e direcionando as pessoas aos resultados oficiais”, diz o comunicado da empresa.

O Messenger, aplicativo de mensagens instantâneas do Facebook, também vai passar por alterações. O envio de cada mensagem será limitado a, no máximo, cinco contatos por vez, semelhante à mudança feita no WhatsApp. Segundo a empresa, esse é um “método eficaz de prevenir a disseminação de desinformação”.

Outra medida anunciada é a aplicação de regras contra o uso de ameaças relacionadas ao coronavírus para desencorajar a participação nas eleições. O Facebook vai remover publicações desse tipo e anexar um link com informações oficiais sobre a pandemia.

“Dadas as circunstâncias únicas desta eleição, é especialmente importante que as pessoas tenham informações precisas sobre as várias maneiras de votar com segurança e que a Covid-19 não seja usada para assustar as pessoas para que não exerçam seu direito de voto.”

No ano passado, o Twitter proibiu propagandas eleitorais e o Google limitou as maneiras como anunciantes políticos poderiam direcionar conteúdo a eleitores.

O Facebook, por sua vez, vinha sendo alvo de críticas, inclusive de seus próprios funcionários, por permitir que várias publicações de Trump permanecessem na rede, incluindo as que continham informações enganosas ou distorcidas.

Especialistas em desinformação também soaram o alarme sobre falsas alegações e teorias de conspiração que se espalham no cenário cada vez mais provável de que os resultados oficiais não estarão imediatamente disponíveis na noite da eleição. Segundo Zuckerberg, o Facebook removeu milhares de grupos e reforçou as regras contra milícias e redes de conspiração como QAnon.

A empresa também mencionou a possibilidade de interferências internas e externas sobre o resultado das eleições americanas, como as que o próprio Facebook, em parceria com agências de inteligência dos EUA, identificou no pleito de 2016. Na ocasião, o FBI e a CIA descobriram que a Rússia interferiu nas eleicões americanas com o objetivo de ajudar Trump a conquistar a Casa Branca.

“Esta ameaça não foi embora”, disse Zuckerberg. “Investimos pesadamente em nossos sistemas de segurança e agora temos algumas das equipes e sistemas mais sofisticados do mundo para prevenir esses ataques.”

Segundo o fundador do Facebook, porém, são crescentes as tentativas de “minar a legitimidade” das eleições americanas dentro dos Estados Unidos. Para lidar com essas ameaças, a empresa rotulará todas as publicações que busquem deslegitimar o resultado das urnas.

Até o início da tarde desta quinta-feira (3), Biden e Trump não haviam se manifestado publicamente sobre as medidas anunciadas pelo Facebook.

Uma porta-voz da campanha republicana, porém, criticou a empresa de Zuckerberg. “Quando milhões de eleitores tomarem suas decisões, o presidente [Trump] será silenciado pela Máfia do Vale do Silício”, disse Samantha Zager, em referência à região na Califórnia que abriga algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.

Ellen Weintraub, da Comissão Eleitoral Federal dos EUA, se declarou satisfeita “em ver que o Facebook está finalmente começando a aceitar parte da responsabilidade pelo modo como o uso indevido de suas plataformas ameaça a democracia”.

“Mas ninguém deve ter a ilusão de que isso resolverá todos os problemas que o Facebook representa para nossas eleições”, escreveu a comissária, em um comunicado.

O presidente do Media Matters for America, um órgão de vigilância da mídia, também considerou as medidas anunciadas por Zuckerberg insuficientes.

“Não se engane. Você ainda pode espalhar desinformação com anúncios políticos no Facebook”, disse Angelo Carusone. “Você só não vai poder fazer isso com NOVOS anúncios apenas UMA semana antes do dia da eleição.”

Vanita Gupta, presidente da Conferência de Liderança sobre Direitos Humanos e Civis, escreveu em uma rede social que as ações do Facebook representam “melhorias significativas” que “vêm depois de muita pressão da comunidade de direitos civis”.

“Mas tudo, qualquer impacto, depende da aplicação. Nós vamos permanecer vigilantes.”


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