Ex-diretores do Flamengo disputarão prefeitura do Rio em lados opostos

Dois ex-diretores do Flamengo disputarão, em lados opostos, a Prefeitura do Rio de Janeiro na eleição municipal marcada para 15 de novembro. Eduardo Bandeira de Mello, presidente do clube por dois mandatos entre 2012 e 2018, e Fred Luz, CEO do rubro-negro durante a gestão de Bandeira, vão concorrer à sucessão do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que tentará a reeleição. Crivella foi alvo da Operação Hades, do Ministério Público estadual. A ação investiga o suposto “QG da propina” na administração do bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Sem acordo com o PDT e PSB mesmo após divulgar uma aliança, a Rede Sustentabilidade decidiu lançar Eduardo Bandeira. A candidatura dele será oficializada pela legenda nesta quarta-feira, 16. Já Fred disputará o Poder Executivo carioca pelo Partido Novo.

Eduardo Bandeira de Mello assumiu a candidatura depois que o PDT se antecipou a um acordo firmado com a Rede e lançou à prefeitura a deputada estadual Martha Rocha, delegada e ex-chefe de Polícia Civil do governo Sérgio Cabral. O combinado era de que os dois partidos aguardassem o resultado de uma pesquisa de intenção de voto para ver qual deles encabeçaria a chapa ou ficasse com a vaga de vice. O PSB, que também participou das tratativas, apoiará Martha. “Sem problemas. Respeitamos a decisão deles (PDT e PSB) e seguiremos nosso caminho”, afirmou o ex-presidente do Flamengo a VEJA.

Formado em administração pela Universidade Federal do Rio, Eduardo Bandeira de Mello, de 67 anos, foi candidato a deputado federal na eleição de 2018. Teve 38.500 votos e não se elegeu. Por 36 anos, ocupou a chefia do Departamento do Meio Ambiente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No Flamengo, ficou conhecido por ajustar as contas do clube. No entanto, o time profissional de futebol não ganhou títulos de expressão – apenas a Copa do Brasil, em 2013. O rubro-negro foi vice da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana, em 2017; e do Brasileiro, em 2018.

A Polícia Civil do Rio indiciou Eduardo Bandeira de Mello e outras sete pessoas no incêndio ocorrido no Centro de Treinamentos do Flamengo, o Ninho do Urubu, em 8 de fevereiro de 2019. A tragédia matou 10 jovens das divisões de base. “Tenho todo o interesse que o assunto seja debatido e esclarecido. Mas o mais importante nessa história é a dor das famílias. Muito mais do que qualquer eventual constrangimento pessoal e do que qualquer consideração de natureza política ou eleitoral”, disse Bandeira de Mello.

Fred Luz, também de 67 anos, deixou o cargo no Flamengo oito meses antes do incêndio no Ninho do Urubu. É a primeira vez que concorre a um cargo público. Em 2018, foi um dos coordenadores da campanha presidencial de João Amoêdo, do Novo. Também fez parte da equipe de transição do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, eleito pelo mesmo partido. Atualmente empresário do ramo do varejo, Fred é formado engenharia mecânica. Trabalhou ainda na Petrobras e nas Lojas Americanas. “Em 2013, recebi o convite para fazer parte da nova gestão do Flamengo, um clube que naquela época, assim como o Rio é hoje, tinha enorme potencial, mas que vinha sendo muito mal cuidado. Trabalhamos em equipe para equilibrar as contas e gerar recursos que possibilitaram, nos anos seguintes, que o time pudesse alcançar o sucesso que hoje tem nos campos”, afirmou.

Eduardo Bandeira de Mello elogiou Fred Luz: “Somos muito amigos. Embora de partidos diferentes, considero o Fred uma pessoa íntegra, competente e bem intencionada. Quem sabe não estaremos juntos no segundo turno”. O candidato do Novo à Prefeitura do Rio não vê problemas em enfrentar o seu ex-chefe. “Me sinto muito bem. O que o Rio de Janeiro precisa é de gente diferente desses mesmos que estão aí há muito tempo, precisa de gente séria e preparada”, completou Fred Luz.

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Em 2017, quando Eduardo Bandeira de Mello e Fred Luz estavam no comando do Flamengo, Flávio Godinho, dirigente influente no futebol do clube à época, foi preso pela Polícia Federal na Operação Eficiência, um desdobramento da Lava Jato no Rio. Godinho, homem de confiança de Bandeira de Mello e Fred Luz, foi acusado de, ao lado do empresário Eike Batista, pagar 16,5 milhões de dólares em propina ao ex-governador Sérgio Cabral. Godinho trabalhou como executivo da EBX, empresa de Eike.

Outros candidatos

O Rio terá pelo menos mais dez candidatos a prefeito, além de Eduardo Bandeira de Mello, Fred Luz, Marcelo Crivella e Martha Rocha. Líder das pesquisas de intenção de voto, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) é um deles. Recentemente, Paes virou réu na Justiça Eleitoral por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Paes, que administrou a cidade por dois mandatos entre 2009 e 2016, sofreu busca e apreensão no último dia 8 sob a suspeita de ter recebido propina de 10,8 milhões de reais, por meio de caixa dois, nas eleições de 2012. Paes nega irregularidades.

A lista continua com o vereador carioca Paulo Messina (MDB), ex-chefe da Casa Civil de Crivella. Messina foi citado na Operação Hades por supostamente fazer parte de um organização criminosa na gestão de Marcelo Crivella junto com outros parlamentares, como revelou VEJA com exclusividade na última segunda-feira, 14. No entanto, Messina não foi denunciado pelo Ministério Público. Hoje, ele é rompido com o prefeito e negou participação em esquema de corrupção.

Há ainda os deputados federais Clarissa Garotinho (PROS), Hugo Leal (PSD), Luiz Lima (PSL) e Benedita da Silva (PT). Clarissa é filha dos ex-governadores do Rio Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, que já foram presos por suspeitas de crimes eleitorais. Benedita também é ex-governadora. A petista era vice de Garotinho e assumiu o cargo após ele deixar o Palácio Guanabara para disputar a Presidência da República, em 2002.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL) também concorrerá. O candidato do partido era o deputado federal Marcelo Freixo, mas ele desistiu porque não conseguiu unir as legendas de esquerda. A ex-juíza Glória Heloíza disputará pelo PSC, cujo dono é o pastor Everaldo Pereira, preso por corrupção. A sigla é a mesma que elegeu o governador Wilson Witzel, afastado do cargo pelo Superior Tribunal de Justiça suspeito de chefiar uma organização criminosa em sua gestão. Witzel sempre negou.

Já o PMB oficializou a candidatura de Suêd Haidar à Prefeitura do Rio de Janeiro. Ela é a fundadora da legenda. O partido ia lançar o ex-vereador carioca Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho. Condenado e preso por quase 11 anos acusado de chefiar a maior milícia da Zona Oeste da capital, Jerominho alegou problemas de saúde e abriu mão de concorrer. Cyro Garcia será o candidato do PSTU.

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