Entrevista: Vanessa Maria Pereira

Foto: Alvaro Lista/Divulgação/ND

Arquiteta e urbanista graduada e mestre pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), doutoranda na UFBA (Universidade Federal da Bahia), ela já ocupou funções-chave no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) do Estado, na Fundação Catarinense de Cultura e no Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis). Entre os diversos projetos de arquitetura e restauração de patrimônio que já se envolveu, agora, Vanessa é coordenadora técnica da revitalização da Casa D’Itália, sede do CIB/SC (Círculo Ítalo-brasileiro de Santa Catarina), uma das mais antigas edificações da região central, na praça 15 de Novembro.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Qual é o estilo arquitetônico do casarão que abriga o CIB/SC?

É um sobrado em estilo eclético. Primeiramente, foi uma edificação térrea luso-brasileira (com características trazidas pelos primeiros residentes de descendência portuguesa, açoriana), tipo porta e janela; passa a ser um sobrado (dois pavimentos), com características ainda luso-brasileiras (há registros fotográficos da edificação com essas feições) e, muito provavelmente, no início do século 20 passa por uma reforma importante, que recua sua fachada e dá feições ecléticas a ela. Há ainda indícios físicos de reformas internas e ampliações nos fundos.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

É possível precisar em que época ela foi erguida, quando virou sobrado e em que ano houve a alteração da fachada?

É impossível precisarmos, pois não há registros oficiais desses dados. Pelas informações coletadas ao logo do projeto, a documentação referente à casa teria sido perdida no incêndio que atingiu o Hospital de Caridade em 1994, uma vez que a Irmandade do Senhor dos Passos foi proprietária do imóvel até 1985, quando este foi desapropriado pelo governo do Estado.

O que temos são épocas em função das mudanças na cidade e na própria história da arquitetura. Há indícios que a primeira casa tenha sido edificada ali, possivelmente, no final do século 18. O primeiro sobrado, alinhado com a rua, foi erguido, possivelmente, na década de 1830, quando há registro de uma reforma desta natureza na edificação vizinha, contígua, atual espaço do Teatro Armação. Por fim, a obra de recuo da fachada e “decoração” da mesma com elementos da arquitetura eclética datam do início do século 20.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Por que a casa do CIB, assim como a do Teatro Armação, sofreu transformações tão drásticas na época? O que foi feito nela?

No final do século 19, início do século 20, as cidades brasileiras passavam por um processo de modernização, que buscava dar maior salubridade para as edificações e para áreas urbanas. Ruas foram alargadas, muitos cortiços  demolidos, rios canalizados, e surgem novos padrões urbanos. O Código de Posturas Municipal do final do século 19 impõe normas que exigem alterações, como o recuo das fachadas para o alargamento das vias e a construção de platibandas nas fachadas voltadas para os passeios, eliminando os beirais e evitando o deságue sobre os transeuntes, por exemplo. Soma-se às exigências legais, o gosto estético focado naquele período no ecletismo, o que agregou às fachadas, até então bastante sóbrias, vários elementos decorativos efusivos.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Parece não ter ocorrido o mesmo com as casas vizinhas, inclusive o recuo das fachadas frontais em relação à praça, o que é bastante nítido. Por quê?

É muito comum que, quando leis entram em vigor, não haja exigência de que todas as edificações se adequem, ou seja, as leis não retroagem, mas se a edificação viesse a passar por alguma obra, ela teria que se enquadrar nas novas normas. Muito provavelmente, as edificações vizinhas, em direção à esquina com a rua Fernando Machado, não passaram por obras enquanto vigia tal Código de Posturas, e por isso não precisaram refazer suas fachadas com o recuo.

A sede do CIB, assim como o Teatro Armação, passou por obras enquanto vigia o Código de Postura que exigia maior afastamento frontal, e por isso a fachada antiga foi demolida e reconstruída mais para trás. Observe como o telhado dessas duas edificações é mais alto do que as demais, muito provavelmente em função do reaproveitamento das paredes laterais.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

A reforma da casa do CIB, no início do século 20, foi uma modernidade para a época?

Sim. Pode-se dizer que a casa foi modernizada tanto em função do atendimento às legislações mais atuais da época, bem como ao gosto estético eclético, que dava ao imóvel ares mais “europeus”. Essa “europeização” da arquitetura brasileira já nas primeiras décadas do século 20 estava sendo muito criticada pelos maiores pensadores da arquitetura no Brasil no bojo do movimento modernista. Contudo, como Florianópolis estava muito distante dos grandes centros e, consequentemente, desses debates, o eclético era, à época, o que a sociedade florianopolitana conhecia mais “moderno”.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

A casa sempre foi usada como residência até o CIB assumi-la ou já foi ocupada antes disso para outros fins?

Como era típico nos sobrados nesta área central, a parte térrea era utilizada integral ou parcialmente como comércio ou para prestação de serviço. No caso desta edificação, pelas pesquisas da arquitetura Lilian Mendonça, responsável técnica pelo projeto de arquitetura, o térreo já teria sido utilizado como ateliê de Eduardo Dias (1872-1945), que teria residido no imóvel entre as últimas décadas do século 19 e início do 20, e também como ateliê de confecção e venda de bordados de ponto tipo “ajour”, pela família Blick.

Eduardo Dias era escultor de fachadas de edifícios públicos e decorador de paredes internas de residências de famílias abastadas. Também se dedicava à pintura de telas, mas por ser pouco valorizado em seu tempo, atuava também como sapateiro.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Característica do período colonial naquele quarteirão, as casas eram estreitas e compridas, com os fundos para a rua de trás. Como era usado os fundos da casa do CIB, como é ocupado hoje e como será aproveitado depois da reforma?

Os pátios dos fundos das casas coloniais, chamados de quintais, sempre configuraram espaços fundamentais para o funcionamento das atividades cotidianas das famílias, consideradas menos nobres. Dentre essas atividades menos nobres, constam as ligadas ao saneamento da edificação (usos sanitários, descarte de resíduos), armazenamento de mantimentos, como lenha para os fogões, lavação de roupas, criação de pequenos animais, como galinhas e porcos, pequenas hortas, pomares e até mesmo a cozinha, geralmente apartada da área de residência.

Era comum que os lotes estreitos e compridos tivessem o acesso principal por um logradouro mais nobre, no caso da edificação que hoje sedia o CIB/SC, a praça 15 de Novembro; e outro, de serviços, por vias mais estreitas, cujo objetivo era exatamente a entrada e saída de excrementos, mantimentos e similares, neste caso a rua Saldanha Marinho.

O interessante é que a maioria dos lotes, em função do crescimento e do adensamento dessas áreas centrais, foram sendo subdivididos, configurando um lote com acesso para cada uma das vias, e rompendo com o parcelamento original dessas áreas. São poucos os lotes que mantém, ainda hoje, esta configuração no Centro de Florianópolis, sendo que o caso da sede do CIB/SC um dos únicos da região.

Infelizmente, a relação direta entre o lote a “rua dos fundos”, Saldanha Marinho, foi interrompida em algum momento da história da edificação, mas a estrutura de parcelamento se mantém íntegra, assim como o uso, que mesmo não contando mais com as atividades típicas do período colonial, configura o que atualmente se considera um espaço de quintal, ou seja, uma área onde se realizam as atividades cotidianas que carecem de áreas externas. Hoje o CIB/SC realiza atividades de confraternizações e mantém até algumas plantas, como temperos e uma pequena videira.

O projeto desenvolvido propõe recuperar o acesso de serviços pela rua Saldanha Marinho, retomando uma característica de uso bastante antiga da região. O pátio seguirá sendo um espaço para eventos e atividades cotidianas do Círculo, contudo o espaço vegetado será ampliado, e contará com uma horta de temperos mais estruturada. É incrível pensar num espaço desses no coração do Centro de Florianópolis!

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Contemplado com o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura/Patrimônio Cultural – Edição  2019, qual são as contrapartidas que o projeto previu para a população?

Na proposta original do projeto, contava com algumas importantes contrapartidas para dar visibilidade e transparência, mas, principalmente, para compartilhar com a população em geral parte do conhecimento adquirido com o trabalho. Estas contrapartidas eram: disponibilização do imóvel para as aulas práticas da disciplina de tecnologia do restauro do curso de arquitetura e urbanismo da UFSC; realização de ciclo de quatro palestras e debate presencial na sede do CIB/SC; e realização de visitas guiadas pela casa abertas ao público em geral.

A utilização da edificação para as aulas práticas do curso de arquitetura da UFSC acabaram por ocorrer em 2019, antes do projeto ser iniciado de fato.

Em razão da pandemia de Covid-19, as contrapartidas precisaram ser repensadas. Assim, foram propostas novas atividades, o que de fato ampliou muito o alcance.

Foram realizados vídeos/palestras, debates e entrevistas ao vivo para a divulgação do conteúdo: cinco vídeos curtos sobre a casa, que substituíram a visita guiada com as seguintes temáticas: A Evolução Arquitetônica da Edificação; O Pátio dos Fundos; A Relação da Casa com os Espaços Externos; As Pinturas Internas; A Fachada Eclética.

O CIB/SC, juntamente com a equipe técnica do projeto, realizou duas oficinas on-line. A primeira delas, ministrada por mim, chamada “A Gestão do Patrimônio Cultural na Cidade Contemporânea”, e outra ministrada pela restauradora e conservadora Laís Simon, intitulada “Introdução à Linguagem Pictórica da Pintura Mural: Oficina Prática de Têmpera e Stencil”. Ambas foram um sucesso de público, e a gravação das mesmas está disponível na página do projeto.

Em substituição às palestras, foram disponibilizados quatro vídeos com as seguintes temáticas: A Contribuição Social do CIB/SC para a Manutenção da Cultura Italiana em Santa Catarina (Mauro Bresolin); A Importância da Restauração dos Imóveis Históricos: Critérios de Intervenção e Novos Usos (Vanessa Pereira); O Projeto de Restauração do CIB/SC (Lilian Mendonça); e Pintura Mural como Matéria Arquitetônica (Laís Pereira Simon). Foi ainda realizado um debate com os quatro palestrantes e mediação da produtora cultural Maria Teresa Lira Collares.

Por fim, é importante lembrar que foi criada uma página para o projeto dentro do site do CIB/SC, onde qualquer pessoa pode acessar todas as informações e conteúdos do projeto. Os vídeos das palestras, oficinas, debate e entrevistas estão todos disponíveis no canal do CIB/SC no YouTube.

Ao final do projeto, elaboraremos um folder em formato físico e digital apresentando à sociedade os resultados do trabalho, e informando sobre todos os canais onde o público pode encontrar o material referente às contrapartidas do projeto.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Finalizado o projeto arquitetônico, qual é o próximo passo?

O prêmio do Edital Elisabete Anderle 2019 permitiu que fizesse a primeira etapa do projeto, referente ao projeto de arquitetura, que engloba a proposta de conservação, modernização e acessibilidade da sede.

Com este projeto, já estão definidas as ações necessárias para a recuperação física dos danos existentes no imóvel; o novo layout, mais adequado ao uso educacional, de acordo com os novos padrões do CIB/SC; a modernização das instalações sanitárias e elétricas; melhorias no conforto ambiental e nas condições de segurança; adaptações para permitir a acessibilidade universal ao imóvel; além das novas instalações na parte dos fundos do terreno (voltado para a rua Saldanha Marinho).

É importante destacar que tudo foi pensado para melhorar a eficiência das instalações, tornando a edificação mais sustentável quanto às fontes de energia.

No momento, estamos buscando parcerias, visando à captação de recursos para a contratação de profissionais das diversas disciplinas da engenharia, para a elaboração dos chamados projetos complementares. Estes projetos são aqueles que estruturam as definições arquitetônicas, tais como: projeto luminotécnico, de climatização, de instalações elétricas e hidráulicas, estruturais, etc.

A partir do momento que tivermos todos os projetos elaborados poderemos orçar a obra, aprovar os projetos nos órgãos de preservação, para então buscarmos novas parcerias visando a execução da obra de restauração de fato.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Quais são as principais mudanças e adaptações que ocorrerão?

São muitas as mudanças e adaptações, mas todas respeitam o que prevê a legislação de tombamento do bem. As principais alterações são a instalação de plataformas elevatórias e um elevador para facilitar o acesso universal a todos os pavimentos e ambientes; a modernização das instalações de banheiros e de uma cozinha utilizada para atividades didáticas; a colocação de duas janelas no telhado frontal visando permitir a iluminação e a ventilação natural do sótão, dando melhor condições de habitabilidade ao cômodo; a instalação de forros no sótão com materiais de características de isolamento térmico, melhorando as questões de conforto; a substituição de uma cobertura translúcida com estrutura de madeira, por estrutura metálica, mais moderna de mais fácil manuseio e manutenção.

Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Como será o uso da casa depois de tudo pronto?

Além das aulas, o CIB/SC promove eventos culturais abertos ao público, exposições artísticas, e também cede o espaço de eventos para ações filantrópicas, tais como bazares beneficentes. Todas estas atividades poderão ser realizadas em espaços melhor estruturados.

Da esq. para dir.: Laís Soares Pereira Simon (arquiteta), Lilian Mendonça (arquiteta), Alessandra Carioni (vice-presidente do CIB/SC), Mauro Bresolin (presidente do CIB/SC), Vanessa Maria Pereira (arquiteta), Maria Teresa Lira Collares (produtora cultural) e Tiago Bonnin, equipe técnica do projeto de revitalização – Foto: Lara Decker/Divulgação/ND

Quantos profissionais compõem a equipe do projeto de restauro?

A equipe do projeto engloba os membros do CIB/SC, responsáveis pela coordenação geral; eu, que sou arquiteta e urbanista, especialista em preservação do patrimônio cultural, atuo como coordenadora técnica; as produtoras culturais da empresa Rede Marketing Cultural; e a equipe da empresa Prospectiva: Arquitetura, Restauro e Consultoria, responsável pela elaboração do projeto arquitetônico, coordenada pela arquiteta Lilian Mendonça, com a participação da conservadora e restauradora Laís Pereira Simon. A participação de engenheiros está prevista para a segunda etapa do projeto.

Há algum detalhe precioso na casa que só ela possui ou difícil de se encontrar na cidade?

Creio que o maior destaque da casa é a presença do pátio dos fundos ainda íntegro na sua estrutura urbana. Este pátio, juntamente com o do Teatro Armação, mantido com sua função original é, de fato, algo muito raro, dado o valor do solo naquela região do Centro de Florianópolis.

Destaco a importância da ferramenta do tombamento como forma de garantir alguns desses registros, da cidade que já não temos mais. Talvez, se não tivéssemos essa edificação preservada, as futuras gerações jamais entenderiam como se deu a ocupação inicial da nossa cidade.

Enquanto arquitetura, a edificação é relativamente simples, sem grandes destaques. Logicamente que a existência de pinturas internas e de uma fachada bastante decorada são elementos de destaque, mas são bastante recorrentes em outras edificações do Centro da cidade.

Veja abaixo como ficarão a fachada e a utilização dos espaços internos:

Projeto de restauro: fachada. – Foto: Divulgação/ND

Projeto de restauro: térreo. – Foto: Divulgação/ND

Projeto de restauro: primeiro pavimento – Foto: Divulgação/ND

Projeto de restauro: segundo pavimento (sótão) – Foto: Divulgação/ND