Entenda por que a aproximação entre Israel e Emirados Árabes é importante

Medida mexe no tabuleiro político do Oriente Médio ao agradar aliados dos EUA e irritar palestinos e grupos hostis aos israelenses. Mediação é positiva para Donald Trump às vésperas das eleições americanas. Iluminação exibe a bandeira dos Emirados Árabes Unidos em prédio em Tel Aviv, Israel, nesta sexta-feira (13)

Israel e Emirados Árabes Unidos concordaram nesta quinta-feira (13) em normalizar totalmente as relações diplomáticas entre os dois países. Sob mediação dos Estados Unidos — meses antes das eleições que decidem o futuro do presidente Donald Trump —, o acordo terá consequências no jogo político da região.
Segundo professores de relações internacionais ouvidos pelo G1, o acordo entre Israel e Emirados Árabes é importante pelas seguintes razões:
Reconhecimento de Israel — No mundo árabe, só Egito e Jordânia reconheciam formalmente Israel. A diferença em relação aos Emirados Árabes é que esses dois países tinham disputas territoriais resolvidas após acordos com o governo israelense que terminaram em reconhecimento.
Situação da Palestina — Os países que não reconhecem Israel adotam essa posição por considerar que o território israelense pertence aos palestinos. Com mais um estado árabe mantendo laços com os hebreus, lideranças da Palestina temem a perda de apoio nas disputas territoriais e já anunciaram retaliações.
Questão do Irã — Inimigo dos Estados Unidos e de Israel, o Irã tenta evitar maior influência americana no Golfo Pérsico e apoia facções como os rebeldes houthis do Iêmen. Os EUA, por sua vez, contam com apoio da Arábia Saudita, país muito próximo dos Emirados Árabes tanto politicamente quanto geograficamente.
Israel chega a acordo para normalizar relações com Emirados Árabes
Além disso, Israel se comprometeu em interromper a anexação territórios ocupados na Cisjordânia, mas admitiu que os planos estão na mesa. A medida estava prevista, de certa forma, em um plano de paz traçado pela Casa Branca com ajuda de Jared Kushner, genro de Donald Trump e assessor do governo americano.
Outra expectativa é a abordagem de Trump sobre esse acordo durante a campanha pela reeleição. Faltam menos de três meses para o pleito em que o republicano concorrerá com o democrata Joe Biden. O atual presidente deve mencionar que mediou as conversas entre Israel e Emirados Árabes para mostrar ao eleitorado alguma conquista na área de política externa.
Veja abaixo perguntas e respostas sobre as possíveis consequências desse acordo.
Por que Emirados Árabes e Israel se aproximaram?
Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, dá declaração após acordo com Emirados Árabes nesta quinta (13)

Porque os dois países buscavam formalizar uma aproximação que já existia por razões políticas. Os Emirados Árabes têm proximidade diplomática com os Estados Unidos, que, por sua vez, são aliados históricos dos israelenses.
Outro ponto de aproximação é a hostilidade com o Irã. Países da Península Arábica como a Arábia Saudita e o Iêmen têm uma série de conflitos com Teerã, que apoia grupos como os rebeldes houthis iemenitas e a Irmandade Muçulmana. Tanto que, recentemente, esses países mais próximos dos EUA se desentenderam com o Catar, com relações mais amigáveis com o governo iraniano e acusado por eles de apoiar facções extremistas.
O professor de relações internacionais Tanguy Baghdadi, da Universidade Veiga de Almeida (UVA), comenta que o acordo aproximará os Emirados Árabes de Israel em diversas áreas da tecnologia, inclusive na área espacial.
“Isso ocorre em um momento em que os Emirados Árabes tentam se abrir para o mundo, inclusive lançaram uma missão para Marte”, relembra Baghdadi.
Pessoas do lado de fora de um shopping center em Dubai, em 3 de maio de 2020

No ano que vem, Dubai, nos Emirados Árabes, sedia a Expo — evento que reúne pavilhões de exposições do mundo inteiro e que foi adiado por causa da pandemia do novo coronavírus. Mesmo antes da formalização das relações, Israel já havia sinalizado que participaria.
Para o professor de relações internacionais Antonio Jorge Ramalho, da Universidade de Brasília (UnB), Israel terá uma “dupla vitória” caso o acordo se mostre frutífero. “De um lado, inicia uma relação distinta com uma monarquia árabe. Por outro, recebe uma recompensa por suspender temporariamente o reconhecimento de um comportamento condenado pelo mundo árabe e pela maior parte da comunidade internacional”, avalia.
“A ambiguidade não é casual. Assim, o Estado de Israel apresenta ao mundo uma narrativa de que busca a paz e o entendimento, ao tempo em que consolida seu controle sobre as posições já conquistadas e pode mesmo avançar nessa direção sem faltar a este compromisso assumido”, comenta Ramalho.
O acordo traz alguma expectativa de paz para a região?
Mulheres palestinas protestam contra os planos de anexação de Israel na Cisjordânia na cidade de Gaza na quarta-feira (1º)

Ainda não está claro se a aproximação entre Emirados Árabes e Israel pode favorecer o diálogo entre países e facções do Oriente Médio. No entanto, as primeiras reações ao acordo indicam que as hostilidades devem continuar — principalmente pela questão palestina.
“Para os palestinos, o reconhecimento de Israel pelos Emirados Árabes é a legitimação de um Estado considerado por eles criminoso”, comenta Baghdadi.
As reações palestinas ao acordo vieram momentos depois do anúncio. Segundo a agência WAFA, as autoridades da Palestina chamaram de volta o embaixador que estava nos Emirados Árabes. E o grupo extremista Hamas, que controla Gaza, chamou o acordo de “facada nas costas do povo”.
Nem o anúncio de que o acordo incluiria a suspensão dos planos do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em anexar territórios da Cisjordânia acalmou os ânimos dos palestinos. Até porque o israelense disse que a ideia da anexação continuava na mesa. “Não há mudança em meu plano de aplicar a soberania em plena coordenação com os Estados Unidos”, disse o premiê.
12 de agosto – Judeus ultraortodoxos, alguns usando máscara protetora em meio a preocupações com o surto de coronavírus no país, passam o dia em um parque em Tel Aviv, Israel

Ramalho, da UnB, concorda que ainda é cedo para dizer se o acordo trará paz ou aumentará a instabilidade regional — até porque a pandemia continua no Oriente Médio e no mundo e os atores internacionais aguardam o resultado das eleições nos EUA. Porém, segundo ele, é possível que o acordo abra caminhos para um maior entendimento entre os países da região.
“É possível até mesmo que este acordo facilite aos Emirados Árabes desempenhar um papel de mediação entre os países do Golfo, Israel e Irã — necessário para reduzir as tensões regionais de forma significativa”, comenta.
Trump pode se beneficiar desse acordo?
Presidente dos EUA, Donald Trump, anuncia acordo entre Israel e Emirados Árabes diante do embaixador israelense nos EUA, Melech Friedman, e de Jared Kushner, genro de Trump e assessor da Casa Branca

O presidente dos EUA correu para as redes sociais para anunciar o que chamou de “enorme marco”. Trump publicou uma declaração conjunta que fala, inclusive, em trabalhos conjuntos entre os três países por uma vacina contra o novo coronavírus.
Por isso, os professores ouvidos pelo G1 afirmam que o republicano — em desvantagem nas pesquisas eleitorais em diversos estados-chave — usará o acordo como uma vitória na política externa na campanha para as eleições previstas para novembro.
“É uma vitória pessoal para Trump, que conseguiu anunciar em primeira mão o acordo e porque o compromisso assumido por Israel de suspender a declaração de soberania sobre partes da Cisjordânia toma em conta o plano elaborado por seu genro”, comenta Ramalho.
Assim, após o esfriamento das conversas com a Coreia do Norte, a piora nas tensões com o Irã e a falha nas tentativas de retirar Nicolás Maduro do poder na Venezuela, o presidente americano terá agora um discurso de vitória diplomática no Oriente Médio. E ele terá palanque para isso, relembra o professor Baghdadi.
“Em um mês, tem a Assembleia Geral da ONU. Por causa do coronavírus, só Trump discursará presencialmente. Ele vai tentar chamar atenção do eleitor de olho nas questões internacionais, e esse acordo não é trivial”, analisa.

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