Em livro de estreia, Tabata conta trajetória de vida e diz não acreditar ‘no mito do Brasil meritocrático’

TABATA AMARAL – FOTO: MARINA GATTÁS

A pandemia da covid-19 fez Tabata Amaral ‘parar’ em casa e finalizar seu livro Nosso Lugar – o caminho que me levou à luta por mais mulheres na política, que ela lançou virtualmente esta semana pela Companhia das Letras. Ficou com calos no dedos de tanto autografar… dois mil livros. Entre os exemplares, um para o namorado, o também deputado federal João Campos (PSB-PE), a sogra Renata Campos – viúva de Eduardo Campos – “uma das minhas maiores incentivadoras”,  e para Anitta e Sandy. Sobre as cantoras, diz: “Sou apaixonada por elas. O quanto que me questionam por isso é bizarro! São mulheres inspiradoras”, afirma.

Na contracapa, Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, escreveu que em 20 anos que está em Harvard, Tabata é “a mais talentosa de todos” alunos que passaram por ele.

Aos 26 anos, a deputada federal do PDT-SP diz que terminará seu mandato. No futuro, pensa em ser prefeita de São Paulo? “Se um dia abrir uma possibilidade, essa missão, sem dúvidas, me honraria muito, mas não é decisão pessoal nem solitária. Mas uma construção política”. A jovem parlamentar conta que até hoje enfrenta preconceitos diversos na Câmara. Mas canaliza suas reações no seu projeto Vamos Juntas, que estreia este ano lançando 51 mulheres a prefeita e vereadora em cinco regiões diferentes do País, nas eleições de novembro. Projeto tem entre mentores das candidatas a senadora Simone Tebet (MDB-MS) e o deputado Felipe Rigoni (PSB-ES), além de embaixadores como Rafa Brites, Pedro Bial, Fábio Porchat e Marcelo Tas.

“Elas estão sendo assediadas como eu nunca fui na minha campanha. Chegam a mandar nudes pra elas!”. A própria Tabata sofre ataques, inclusive ameaças de morte, e é vítima das fake news – “a maioria parte de apoiadores de Bolsonaro”. Embora seja também ‘atacada’ pela esquerda. Chegou ao dado a partir de monitoramentos de suas redes sociais. “Mais de cem vezes me chamaram de puta, 1,7 mil de menininha. Vimos o quanto que comentam minha aparência, tom de voz e meu batom. Tudo isso é o machismo estrutural. E aí não importa teu currículo”, explica a deputada, que se define de centro-esquerda.

Até hoje, lembra, precisa “defender a verdade”: não é bancada pelo mega investidor George Soros (sequer o conhece). Ela estudou em Harvard com bolsa de estudos da própria universidade – e na metade do curso teve empréstimo oferecido pela Fundação Estudar, criada por Jorge Paulo Lemann.

Tabata passou a quarentena toda com a mãe, Reni, e o irmão Allan, na Vila Missionária, na periferia paulista onde se criou e também onde finalizou o livro “na laje de casa”. Para a mãe, que não gosta de ler, Tabata leu todas as páginas em voz alta. Ficou sem voz no fim do Dia das Mães. Reni fez sugestões acatadas pela filha. “É a história dela e do meu pai também… Nos emocionamos muito”.

No livro, a deputada conta que quando pequena, marcava num calendário os raros dias em que o pai, alcoólatra, estava sóbrio. E também como descobriu que ele não era seu pai biológico. Entretanto, se identifica com ele. “Ele era brilhante, o Brasil perdeu um grande cientista ou político”. Olionaldo Pontes foi cobrador de ônibus e não terminou o ensino fundamental. Foi um dos maiores incentivadores da filha.

“Não acredito no mito de que o Brasil é meritocrático. Como é que posso dizer que ‘quem quer consegue’ e ver um cara feito meu pai morrer por causa de drogas aos 39 anos? Tabata tinha 18 anos. E agora, oito anos depois, registrando sua história de vida em livro – e muitas sessões de terapia – “é que entendi o quanto que o direito de sonhar é negado às pessoas”.

Apesar da vida dura (faltou até comida), reconhece que foi “muito privilegiada” pelo apoio que recebeu, sobretudo, de professores – fundamentais, conta, para não desistir. Enviou a cada um deles livro com dedicatória especial.

“Dói encarar isso (os privilégios), porque faz parecer que você não é tão boa assim. Mas transformei angustia e culpa em responsabilidade com meu ativismo na educação”, pontua a medalhista de cinco olimpíadas científicas internacionais, mais de 30 estaduais e nacionais, formada em ciências políticas e astrofísica na universidade americana. E admite: “Foi mais difícil ser estudante periférica em Harvard do que dialogar com esquerda, centro ou direita” no Brasil.

A parlamentar defende que a oposição abra, o quanto antes, o diálogo com a parcela da população que elegeu Bolsonaro, sobretudo diante dos desafios impostos pós-pandemia. “Os problemas só serão solucionados se pessoas que pensam diferente se unirem e dialogarem. Tem que construir consenso”, defende a parlamentar, que assinou o manifesto Estamos Juntos.

Ela elogia a Frente Ampla como “iniciativa importante”. “Divergências econômicas, sociais, se tornam pequenas quando a gente fala em defesa da democracia. Qualquer ditadura, seja de direita ou de esquerda, não terá espaço no nosso País. Já superamos isso”.

Tabata conta que até hoje convive com muitas pessoas que “botaram pra baixo e me deram rasteira”. Relembrou algumas passagens no seu livro, mas disse ter preferido não citar nomes. “Até brinco que eu queria ter a capacidade de esquecimento que essas pessoas têm. Gente que disse que eu só seria eleita por um milagre, que eu tenho que me ‘enxergar’. E hoje agem com total naturalidade. Obviamente, eu sou humana, sinto raiva e fico triste mas me esforço pra entender que não é algo pessoal. É do machismo, de duvidar da capacidade da mulher”.

Em um ano e meio de mandato, Tabata rubricou alguns dos principais projetos e ações na Câmara – como a pressão para votação do Fundeb e o PL das Fake News. Em função da pandemia, apresentou projeto que prevê novo regime trabalhista para entregadores de Apps. E teve aprovado, como coautora, PL da bancada feminina que amplia proteção a mulheres vítimas de violência doméstica no País. “Tudo que faço é pensando em como diminuir a desigualdade”.

Com Agências

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