E se fosse… com você?


Quando a coragem de falar se impõe, ainda falta ar. Mas chega um novo respiro a tempo de deixar as palavras traduzirem o horror vivido e silenciado por anos. O enredo é de quem se sente dolorosamente desacreditada na própria dor. E a cura só vem em um processo de acreditar que, finalmente, acreditarão em você.
O acolhimento quase sempre precede a justiça. E só é possível em um espaço de segurança, onde a voz é desabafada e a resposta vem, ecoa e traz uma primeira libertação. Elas já não estão solitárias. Algumas falaram pela primeira vez, outras reviveram, mas todas ganharam esperança.
São mulheres que denunciaram uma violência sexual supostamente sofrida dentro do consultório de um dos mais badalados nutrólogos de São Paulo.
O lugar de escuta veio de jornalistas da imprensa brasileira, entre eles, duas repórteres da GloboNews. São mulheres dando voz e ouvidos para histórias que, aliás, poderiam ser nossas.
A primeira denúncia contra o médico Abib Maldaun, em 2012, foi arquivada porque era a palavra dele contra a dela. Vieram outras e ele chegou a ser condenado em segunda instância.
Respondeu em liberdade e continuou atuando até a última sexta-feira, quando o Conselho Regional de Medicina decidiu suspender o registro dele por seis meses enquanto novas investigações avançam.
Uma das vítimas em depoimento às jornalistas da GloboNews esta semana
GloboNews
E se fosse comigo?
O que eu faria, como reagiria, com quem falaria?
Aliás, eu falaria?
Qual a razão desse medo persistir? A resposta está numa sociedade em que ainda nos sentimos tão culpadas? Ao ponto de carregarmos, por anos e sozinhas, os traumas de uma violência quando só esperávamos ser cuidadas e respeitadas?
E se fosse… com sua mãe, irmã, companheira?
Você ouviria, acolheria?
A repórter Isabela Leite me disse ter feito as mesmas perguntas. E continua sem respostas. Eu também.
Mas a gente precisa falar sobre isso, de novo e sempre. Estamos diante de mais um caso grave envolvendo nomes celebrados da medicina, com muitas repercussões no horizonte. Momento em que velhos padrões moralistas se refrescam: primeiro, sempre julgamos: “Essas mulheres eram pacientes e queriam ajuda para emagrecer. Desejavam se gostar um pouco mais.”
Isabela me contou: “Independente do desfecho, já sou uma outra mulher. De alguma forma, eu fui um caminho de cura para elas, que estavam vivendo isso caladas. Mudamos algo em volta, também, trazendo essa discussão pra dentro de casa, para os círculos de amizade. Proporcionar essa reflexão já é algo gigante”.
Marisa Oliveira, a outra jornalista que deu início a essa apuração, encontra sentido nos retornos que recebeu das entrevistadas: “Ainda que a justiça não apague o que eu vivi, o fato de ele não fazer novas vítimas já será muita coisa” foi o que ouviu de uma delas.
A caminhada feminina e jornalística segue, assim como as expectativas por justiça. E eu me lembro imediatamente de uma recomendação de leitura do meu terapeuta durante a sessão desta semana.
O livro “A ciranda das mulheres sábias” mostra a força da reflexão e experiência compartilhadas entre mulheres, sem as amarras da competitividade tóxica, ainda tão estimulada nesta sociedade. A roda dançante só ganha ritmo sustentado, quando estivermos todos de mãos dadas, no mesmo compasso.
P.S. 1: As jornalistas Isabela Leite e Marisa Tavares vêm tentando gravar entrevista com o médico Abib Maldaun, sem sucesso.
P.S. 2: Conheçam a plataforma #ondedoi uma página criada pra mapear casos de violência sexual cometida por profissionais da saúde.

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